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Caraminholas na cabeça · Sep 4, 2024

A Carta e o talvez

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Letícia de Oliveira · Caraminholas na cabeça


Querido Você,

Hoje acordei com vontade de te escrever uma carta. Carta mesmo, nada de e-mails. Cartas são mais pessoais, na minha opinião. Você consegue não só enxergar nas palavras, como ainda pode tocar a prova do tempo que a pessoa dedicou, ver a pressão que a caneta ou lápis fez sobre o papel - e quem sabe até uma lágrima. Mas como não sei seu endereço, nem mesmo seu nome, decidi escrever assim mesmo.

Hoje acordei e vi um beija-flor parado no fio. É sempre estranho ver um beija-flor parado, sem estar balançando suas hábeis asas para se manter parado no ar, mas mesmo assim não deixou de ser bonito. Não se assustou com o barulho da madeira da janela batendo na parede com o vento, nem virou a cabeça na minha direção. Será que estava perdido em pensamentos? Será que estava observando algo? Será que procurava flores? Aqui na minha rua quase nenhuma casa é florida, nem mesmo a minha. Uma pena.

Estranho também estava meu cabelo. Como pode uma boa noite de sono deixar o cabelo em tal estado de confusão? Estava incontrolável! E você sabe o quão incontrolável ele fica, pois me conhece tão bem quanto eu. Ou pelo menos se esforça para conhecer. Não por querer exercer algum tipo de poder sobre mim, mas simplesmente por que quando se ama muito uma coisa, tentamos sempre saber mais e mais sobre ela.

E por que falo tudo isso se talvez você nem exista? Estou te inventando para quem sabe um dia, mesmo tendo inventado (ou pensado em você), você se torne real e eu possa saber que cor tem seus olhos e suas bochechas quando faço alguma piadinha sem graça, se seu cabelo também acorda desgrenhado pela manhã e se você também gosta tanto de café sem açúcar quanto eu e também fecha os olhos de prazer após cheirar discretamente o aroma do café, antes de dar o primeiro gole.

Talvez você possa até ser eu mesma! Uma versão de mim que me ama tanto e se conhece ao ponto de amar as manias mais aleatórias. Talvez você não tenha nascido nessa versão de vida. Talvez seja impossível alguém amar outro alguém assim. Mas eu já o amo. Mesmo sabendo que você talvez ainda não saiba qual o corte do meu cabelo, ou a cor dos meus olhos. O tal do fio invisível deve nos ligar de alguma forma. Eu acredito nisso e talvez você também acredite. Talvez um dia até responda essa carta. Pessoalmente, escrita à mão, ou em um e-mail e mesmo que você me irrite por que não lavou a louça da noite, que era sua, possamos ser esse amor bonito, que troca cartas.

E se você não for algo real e palpável, você é abstrato e etéreo e continua sendo o amor. O Amor que dediquei e senti enquanto escrevia essas palavras, até que um dia elas o alcancem.

Vou ter que começar meu dia corrido agora.


Com amor,

Letícia O.

Read the original on caraminholasnacabeca.substack.com

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