Quando meu primeiro filho nasceu, ainda no hospital, veio uma turma de amigo visitar. Deitada na cama com o Tomé no peito, lembro dessa cena – as pessoas em volta de mim conversando felizes entre elas – como se estivesse olhando do fundo da piscina (a imagem tremida pela refração da luz, o som abafado pela água).
<Adoraria saber desenhar ao ponto de conseguir reproduzir essa imagem; me recuso a entregar essa descrição pra IA. Comissionaria a Marina Quintanilha pra pintar.>
Virar mãe foi o processo mais complexo que vivi. Imigrar foi o mais difícil. (Risos nervoso e abraços apertados para todas a mães imigrantes.)
Então sempre paro pra ver o que se escreve sobre maternidade. Por isso cliquei no link prum texto sobre "Mom Rage” no Arts & Letters Daily.
(Um breve parêntese sobre o Arts and Letters Daily. Quando bate o cansaço da vida de scroll, corro pra lá. Mesmo que algumas coisas no A&L sejam chatésimas, sempre tem uma leitura intrigante nesse canto da internet que imagino como uma biblioteca silenciosa de paredes rosadas com grandes poltronas de couro marrom.)
O link era pra resenha do livro “Mom Rage: The Everyday Crisis of Modern Motherhood”, spinoff de “o ensaio sobre mom rage que viralizou”. Tá, assim que bati o olho em que viralizou deu preguiça, mas li tudo, a resenha e o ensaio.
E me vi diante de uma ilustração de algo que me choca aqui nos EUA: eles mandam muito mal com saúde mental. Eles só falam disso, mas são muito perna-de-pau.
No ensaio viral, a autora conta, com uma honestidade admirável, que ela tem ataques de raiva quando está sozinha com o filho de 3 anos.
Aí o marido entra em cena. Ela o descreve como um even-keeled guy, expressão que aprendi ontem e quer dizer: "tem a quilha no lugar certo". Ou seja, o barquinho dele tá lá, bem equilibrado. Precisa dizer? O cara sai de casa, vai trampar e volta à noite. Ela inclusive menciona uma noite em que ele teve que trabalhar até tarde e ligou pra checar como as coisas estavam e ela tentou disfarçar na voz que ela tava mal.
Aí o cara com a barquinho reto manda um: você tem que resolver esses ataques de raiva. A solução? Contratar um “life coach” que recomenda a leitura de um trecho de um livro sobre inteligência emocional.
Eu amo o conceito do coach que indica um trecho de livro. É um cartum sobre superficialidade.
Mas vamo lá. Ela decide enfrentar o problema. Então se inscreve num workshop de doze semanas para “ampliar a caixa de ferramentas para lidar com a raiva”.
Doze semanas…
Eu lembrei de uma vez, num evento de gastronomia, eu tava sentada entre a Nina Horta e o Harold McGee. Veio uma pessoa e falou pra mim: sabe, tô estudando gastronomia já tem três anos. Eu me encolhi entre os sábios que me cercavam torcendo pra eles não terem entendido. E desde então fico muito atenta à expressão de tempo. Quase sempre é muito pouco tempo.
Bom, o tal ensaio viralizou e… virou livro!
Da onde eu tô, vejo três coisas.
O foco no resultado é uma característica tão predominante da cultura americana que em vez de mergulhar num processo longo, doloroso e íntimo pra entender essa raiva, a solução é coach + workshop.
Pra mim, é por isso que eles nadam tanto quando o assunto é saúde mental. É tudo result-oriented pra usar um termo que eles adoram. Falta mergulho.
Mas o foco no resultado é uma característica TÃO predominante da cultura americana que em vez de mergulhar num processo longo, doloroso e íntimo pra entender essa raiva, a raiva vira produto. Lança livro.
É tanta superficialidade, que fico à vontade de ser superficial também e não querer nem ler o livro. Ai, sabe, tanta coisa pra ler. Quero ler o da Vera Iaconelli (já leu, me conta?).
Livros
Tô ficando superficial como um todo? Tomara que não. Minha lista de leitura é longa e maravilhosa. Acabei de ler esse:
Esse outro aqui eu não consigo terminar porque tô apegada com o pessoal e depois sei que fico com saudade, então tô espichando a leitura:
Esse aqui ganhei de uma amiga maravilhosa e leio aos poucos, porque cada página é um golpe que me tira o ar:
Engraçado como olhando agora os três livros tocam a maternidade.
Em Can't we talk about something more pleasant?, a Roz Chast, cartunista da New Yorker bem conhecida, fala sobre o envelhecimento e a morte dos pais, mas principalmente sobre a difícil relação com a mãe…
… e com a morte da mãe.
Em Língua Absolvida, memórias da infância do Canetti, o universo dele com a mãe é o centro de tudo. A relação dos dois é inspiradora e assustadora. A mãe é super dura e fascinante. Às vezes parece egoísta, mas ao mesmo tempo largou mão de tudo (especialmente do amor) pelos filhos. É intenso, perturbador e não consigo parar de pensar e falar nisso, então vou me interromper aqui pra não encher.
Apesar de odiar o papo #mãedemenino #mãedemenina (é mãe e ponto final), se você tem um filho entre 7 a 70 anos, esse é um livro legal de ler.
A Poesia reunida de Silvia Plath é, como diz o nome, uma antologia poética. Em vez de ficar falando – nem sei falar de poesia – vou colar aqui um pedaço (ia escrever trecho, mas achei muito "life coach").
O amor deu corda em você feito um relógio de ouro.
A enfermeira bateu nos seus pezinhos e você veio chorando
Ocupar um lugar no mundo.
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Nossas vozes comemoram sua chegada. Nova estátua.
Num museu frio, sua nudez
Ameaça nossa segurança. Ficamos ao redor, como paredes vazias.
Como paredes vazias! Do fundo da piscina azulejada, eu saúdo as paredes vazias do museu frio. Sinto que vou passar mais tempo digerindo esses versos (essas são só as 2 primeiras estrofes do primeiro poema do livro) do que a autora do ensaio viral passou no workshop pra lidar com a raiva.
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