45ª edição | junho de 2026
No dia 21 de junho, temos o solstício de verão no Hemisfério Norte e o de inverno no Hemisfério Sul. Eu sempre escrevo sobre os solstícios com o coração pleno de gratidão, e é assim que deve ser porque essas datas são festejos de luz. Os solstícios são os pontos de entrada dos extremos luminosos e eles acontecem simultaneamente, de forma trocada, nos dois hemisférios terrestres.
Se estamos no resplendor do verão, agradecemos a abundância da vida, o alimento, o calor e a energia entregues pela estrela Sol. Quando mergulhados nas sombras do inverno, reconhecemos o valor da colheita, da primavera e do verão, dos alimentos que nos dão forças para atravessar as noites longas e frias.
O solstício canceriano celebra a Deusa-Mãe, o arquétipo lunar. Por isso, ele representa o máximo da dualidade entre o excesso e a falta de luz. A Mãe Lua possui a característica da mudança constante. Dentro de um mesmo ciclo, ela fica Nova, completamente sombria, e Cheia, plenamente iluminada. O ciclo lunar nos demonstra a cada mês como vivemos e integramos os polos da ausência e do excesso.
A jornada astrológica
A entrada do Sol em Câncer nos faz avançar mais um passo no Caminho Astrológico. Inicialmente, em Áries, vimos como as consciências se conectam com as estrelas na edição O fogo estelar.
Depois, com o Sol em Touro, compreendemos como essas mesmas consciências precisam de um corpo para ancorar e se desenvolver. Essa etapa está descrita na edição O fio de Ariadne.
Enfim, quando ingressamos em Gêmeos, a consciência que ganhou corpo aprende a utilizar as palavras para dar sentido à realidade. Essa é a aventura da edição O Mensageiro Alado.
Agora, em Câncer, as palavras, utilizadas por Gêmeos para tecer a rede da nossa realidade, qualificam os afetos. Quando em Câncer, o Sol termina de dar sentido à nossa realidade porque a experiência se amplia. Ela passa a exceder as palavras e a razão para atingir o campo das emoções. A estrutura do ser se torna completa.
O mistério do 4 e a 3ª dimensão
Câncer rege a quarta casa astrológica, o setor responsável pelas emoções, ancestralidade, tradições, finalizações e gestações. Quando falamos do 4, estamos nos referindo à consolidação da estrutura.
O 4 simboliza a existência material na terceira dimensão. Reflita, para alguma coisa existir é preciso ter no mínimo quatro coordenadas: ponto de partida > largura > altura > profundidade.
Dessa forma, o 4 representa a aresta de um cubo, com os eixos x, y e z derivando de um único ponto ou vértice. Esse é o princípio da matéria. Câncer rege a casa, a nossa morada, ela é equivalente ao cubo e também ao espaço tridimensional onde o corpo habita. Dentro da sabedoria do tarot, Câncer se conecta ao Arcano 7, a carta do Carro, pois também representa o próprio corpo como veículo do espírito.
Câncer é a Grande Mãe
Câncer é o útero onde toda a vida é gerada. Quando paramos para pensar sobre a Água Cardinal, lembramos imediatamente do mar, a água de onde toda a vida surgiu em nosso planeta. Esse é um dos melhores simbolismos para o signo porque ele explica de maneira direta e ampla a qualidade geradora de Câncer.
Toda gestação é um final. Toda vida nasce com a marca da morte. Assim é e assim Câncer representa o início e o final de todas as existências. É um fato lógico que as coisas terminem como começaram, ou pelo menos retornem pelo mesmo caminho. A Casa 4, morada de Câncer, é o território dos extremos da vida, o bebê e o idoso. Isso sempre me lembra do icônico filme: O Curioso Caso de Benjamin Button, no qual o protagonista, Brad Pitt, nasce velho e morre jovem. Uma coisa fica bem clara no filme: independente da ordem do tempo, em geral, nós ficamos dependentes dos cuidados dos outros nos extremos da vida, infância e velhice.
Pois bem, Câncer gera, mas também cuida. O que seriam desses extremos, do final e do começo, do alfa e do ômega, sem algo que os sustentasse? Sem o colo, sem a nutrição, sem a proteção da casa e a atenção entregue?
Agora, vem comigo que eu vou te explicar com muita facilidade a sombra de Câncer. As pessoas que estão transitando nos extremos temporais da vida são as mais vulneráveis, certo? Tanto as crianças quanto os idosos. Quem cuida entrega atenção, mas também tem a responsabilidade de ser completamente honesto e sincero na entrega desse cuidado ou ele pode virar uma ferramenta de manipulação.
Na pior expressão, as pessoas vulneráveis podem ser extorquidas por aqueles que fingem cuidar e usam o fato de “estar ajudando” para conseguir vantagens. Isso possui muita afinidade com o jogo emocional de Câncer que entrega afeto e cuidado para exigir retornos, não necessariamente financeiros como no exemplo, mas afetivos e vantagens pessoais. Como Câncer conhece o jogo dos afetos, consegue manipular os resultados com muita eficiência e, em grande parte dos casos, de maneira inconsciente.
Isso nos leva ao próximo tópico...
A Mãe Dual | uma visão junguiana
Jung falava sobre a própria mãe como um ser no qual residiam duas personalidades completamente distintas. Em Símbolos da Transformação, ele descreve esse fenômeno em um capítulo chamado A Mãe Dual, no qual ele traz a ambivalência do arquétipo em duas faces opostas: a nutridora e a devoradora. Kathleen Burt descreve as duas personalidades como: a Mãe Amorosa, como Kwan Yin, a Mãe Misericordiosa e Compassiva da mitologia chinesa e a Mãe Terrível, como a Mãe Kali, da Índia, e a grega Medusa.
A mãe positiva cuida do filhinho, lhe dá colo e abrigo. Ela chora com ele e lhe dá de mama. Eles sofrem juntos com as primeiras separações. Ela representa o apego feminino à vida gerada. Ela precisa que o filho sinta falta dela, porque ela certamente sente falta dele.
Do outro lado, existe uma mãe que impõe ordem, organiza a família, fala firme e exige respeito. “Não bata a porta. Deixe o sapato do lado de fora. Lave as mãos. Arrume as coisas. Tenha modos. Agradeça...” essas são as vozes maternas em seu lado cobrador.
Quando os dois princípios estão equilibrados, a bronca e a orientação não são maiores do que o abraço e tudo fica bem porque a vida precisa de ordem, de equilíbrio entre luz e sombra. Contudo, justamente porque Câncer rege os mistérios lunares e femininos, a natureza por vezes irrompe em acessos de fúria ou de doçura, ambos sem a menor explicação lógica. Nesses momentos, costumamos dizer: deve ser a Lua. E, nesse caso, deve ser mesmo...
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Encerramento
O fechamento de hoje coincide com o fim da estação. É hora de deixar para trás, de plantar a semente do futuro próximo, gestar intenções luminosas no ventre de Câncer para virar luz em Leão.
Isso é especialmente importante porque Júpiter ainda segue alguns dias no caranguejo e em breve vai chegar em Leão para colocar as intenções sob os holofotes resplandecentes e luminosos da estrela.
Se apronte e vamos brilhar juntos.
Abraços,
Marcelo Wilkes
Caminho Astrológico
Paz e luz

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