Colhi flores neste mesmo dia, há cinco anos, e usei um candeeiro como jarra.
Quando digo neste mesmo dia refiro-me a 11 de março (escrevi este post, ontem), mas o dia não é o mesmo, como sabemos. Tentei sobrepô-los, como dois rolos de filme, e inventar um novo dia. Fazer da minha vida isso: dias sobrepostos e reinventados. Não tenho a certeza que isso não aconteça já, desde o princípio dos tempos.
Há cinco anos estávamos a viver o acontecimento mais surreal da nossa vida coletiva, a pandemia, que nos fez ter consciência disso mesmo, de uma existência coletiva, e no dia 11 saí para caminhar, porque era permitido, e apanhei flores no caminho.
Ontem, saí para ir trabalhar e apanhei um autocarro até ao metro, depois mudei de linha e depois desci o morro. Não vi flores no caminho.
A pandemia foi controlada e a existência coletiva foi esquecida. A pandemia já não nos mata, matamo-nos uns aos outros, numa guerra a seguir a outra. É surreal, mas não parece tão surreal como a pandemia, porque não afeta o nosso dia a dia. Os miúdos vão à escola, nós vamos trabalhar e fazer compras sem esgostar o papel higiénico. Até viajamos evitando o espaço aéreo ocupado pelos mísseis. Parece que há vários tipos, ouvi de passagem, talvez me dedique a fazer uma lista de todos os que foram nomeados nas notícias, só porque adoro listas, como se sabe.
Hoje, não mudei de linha no metro, saí na Trindade e fui a pé para o trabalho. São 30 minutos a caminhar pelo centro caótico do Porto até à Ponte Luiz I. Atravessar uma ponte a pé, sobretudo uma ponte classificada como Património da Humanidade, tem sempre o seu quê de mistério. Gosto desse ritual antes de cumprir a sentença diária imposta pelo capitalismo.
Por este caminho vi flores, tulipas, e fui atropelada por um camião de pensamentos, pelo meio deles pensei que devia obrigrar-me a escrever semanalmente. Não gosto da ideia de obrigação para fazer uma coisa de que gosto, sobretudo quando já me obrigo a tanta coisa, mas, por outro lado, sempre gostei de deadlines, posso usar isso como incentivo. O que dá cabo da criatividade de uns, serve de desbloqueio a outros.
Não é muito fácil fazê-lo, porque não tenho folgas fixas, os meus meses não são divididos por semanas de cinco dias, com duas folgas. Varia muito. Talvez seja melhor pensar numa periodicidade mensal, porque sei sempre quando é o fim do mês, normalmente uns quantos dias antes, porque o dinheiro do último salário acaba. Lá está, é o capitalismo a balizar a minha existência.
Pode ser que um dia os arco-íris voltem a ser pendurados nas janelas e tudo fique bem.
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