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Substack de Calita · Apr 14, 2026

Já não sei

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Coisas nada relacionadas umas com as outras é o pão nosso de cada dia, certo?

Juntei tantos tópicos para escrever um texto que não sei por onde começar, ou qual deles escolher. Noutra altura qualquer da minha vida juntava tudo no mesmo, muito resumidamente, porque eu nunca soube o que era isso de “escrever palha” fosse para ter boas notas, ou para preencher o número de carateres necessário para o espaço reservado na coluna do jornal. Agora, parece que não sei fazer isso. Já não sei fazer muitas coisas que antes sabia. Já não sei agradar a muitas pessoas ao mesmo tempo. Já não sei fazer de conta que está tudo bem, ou que não faz mal que não esteja. Já não sei ficar na cama por não me apetecer enfrentar o dia. Já não sei mandar mensagens estúpidas às minhas amigas, de madrugada, para que saibam que ainda existo. Já não sei ver o FCP com entusiasmo. Já não sei ter piada. Já não sei fazer comida que eu goste e agrade toda a família. Já não sei decidir o que é melhor para os meus filhos, porque eles já têm opinião (bom, sempre tiveram, mas agora têm bons argumentos). Já não sei ficar calada na fila dos CTT. Já não sei levantar dinheiro no multibanco, porque ele desaparece depois de pagar contas e fazer compras no supermercado.

Seja como for, vamos começar pelo tópico mais antigo da lista: “Dançar como se ninguém estivesse a ver”, a propósito do filme que estava a passar na TV e que, ainda por cima, tem tudo a ver com a pergunta que li, um dia destes, atribuída a Carl Jung (o corretor automático assumiu o nome Carla Jung e acho que corei): “Quem és quando ninguém está a olhar?”

Pois bem, eu acho que sou sempre a mesma pessoa, apesar de ter noção que não faço coisas em público que faço sozinha, e mesmo assim estou sempre a ver-me de fora. Quando estou na casa de banho, quando estou a escarafunchar o nariz, quando estou a palitar os dentes, quando estou a...ok, já perceberam. Eu tinha na lista aquilo de dançar como se ninguém estivesse a ver, porque a certa altura levantei-me do sofá para dançar dessa forma e não fui capaz. É óbvio que dancei, como bem me apeteceu, mas eu estive sempre a ver. Sempre a olhar para mim de fora. Portanto, acho que conta como se estivesse a ser observada. E eu estou sempre a observar-me, quando não acontece, por estar demasiado envolvida no que estou a fazer, ou a ver, é muito libertador, sim, mas nunca aconteceu a dançar.

A morte era o tópico a seguir, não por pensar muitas vezes na morte, por ter muito medo de a enfrentar, mas por causa do bebé no metro. Eu estava sentada no meu lugar favorito e à minha frente, dois lugares, estava uma mãe, ou uma ama (não tinha idade para ser irmã, ou avó, pareceu-me) com um carrinho de bebé. A certa altura o bebé parecia estar com espuma na boca. Os bebés, às vezes, fazem bolinhas com a saliva, não era nada de mais, mas comecei a pensar demasiado. O bebé estava com um cobertor demasiado quente para a temperatura e parecia não respirar, ainda por cima a mãe/responsável, não estava a olhar para ele. Fixei o bebé ostensivamente, só queria perceber se respirava, quase me convenci que não, até perceber que aquilo que me parecia espuma a sair da boca, era a tetina da chupeta. Eu estava sem óculos, felizmente não sou dada a manifestar todos os dramas que acontecem na minha cabeça.

O alívio ao perceber que o bebé estava vivo foi uma pequena felicidade. Não digo grande, porque eu tendo a desvalorizar o que se passa na minha cabeça. A seguir, mais aliviada, desviei o olhar para a janela e vejo um cavalo, se calhar era um pónei, morto num campo. Quase de certeza estava a dormir, apesar de nunca ter visto um equino a dormir de manhã cedo no meio de um campo, mas pareceu-me uma daquelas coincidências. Um bebé e um cavalo a dormirem ao mesmo tempo, que me pareceram mortos.

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