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Viajante sem Pauta · Mar 2, 2026

[Viajante sem pauta #032]O dia da independencia e o xamã

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Cainã Ito · Viajante sem Pauta

Abaixo se trata do capítulo que antecede esse relato aqui. Não deixe de ler, pra ter mais contexto. E na próxima news trago as informações práticas da comunidade do Viajante sem Pauta. Boa leitura!

O vilarejo estava mais silencioso que o normal após a derrota. Nem mesmo a melhor janta ou a colheita mais farta pareciam mudar o clima. Havia uma tristeza quase tímida espalhada no ar, como se até os cães estivessem com vergonha de latir.

Eu lia no quarto, tentando entender aquele tempo sem nome, quando a voz do Mpisi atravessou as paredes como um trovão:

— Cainaaaaa! Amanhã é o grande dia! Vamos visitar os campos de guerra em que lutei!

Mpisi era um contador compulsivo de histórias de guerra. Quase todas envolviam aviões britânicos sendo abatidos pelo exército do Zimbábue, façanhas estratégicas que desafiavam a lógica, e batalhas descritas com um brilho nos olhos de quem já foi jovem e imortal.
Eu ouvia, respeitosamente, mas sempre com um pé atrás. Até aquele dia.

No dia seguinte, coloquei uma camisa xadrez vermelha — a melhor que tinha — enquanto ele tirou do armário o que parecia seu traje de honra em épocas de batalha.Entramos numa picape com um motorista local e seguimos estrada adentro, rumo a uma reserva ambiental. O acesso era restrito. Segundo ele, ali tinha sido palco de um dos momentos mais intensos da guerra.

À medida que avançávamos, percebi que não estávamos sozinhos. Um comboio inteiro seguia conosco, carros à frente e atrás, todos entrando por uma trilha de terra batida.

Quando descemos dos veículos, o primeiro impacto: eu era o único sem traje militar. Vermelho, xadrez, desalinhado — parecia ter saído de outro filme. Todos os outros usavam uniforme.

Não era só a roupa. Era como se, no convite de um casamento, o traje fosse “militar”... e eu tivesse ido de festa junina.

Não eram soldados comuns. Dava pra sentir no jeito de pisar, no silêncio ao redor. Generais, tenentes, comandantes — o alto escalão, vindo de várias partes da África. Reconheci de onde vinham pelas bandeiras costuradas no ombro. Eram de Botsuana, África do Sul, Zâmbia, Namíbia, Angola… até a da China.

Me senti invasor daquele momento. Já havia sido revistado em algumas fronteiras antes, mas nunca me direcionado um olhar como tamanha desconfiança e estranhamento. Minha presença parecia ocupar mais espaço do que devia.

Grudei no Mpisi, que seguia com a mesma firmeza de quem sabia onde estava e o que significava estar ali. Um tenente do Zimbábue nos guiava, e em fileiras seguimos pela mata adentro. Atrás de mim, três soldados armados com AK-47 — estávamos numa reserva, e a qualquer momento um leão poderia surgir de algum canto. Eu poderia achar exagero ou símbolo vazio a presença dos três soldados, não fosse a notícia que corria há semanas — uma conhecida da família havia sido morta por um leão. A prova? Fui com a família ao velório.

Ainda assim, aquelas armas serviam para me lembrar de algo maior: eu era um visitante num solo onde histórias demais estavam enterradas.

Não demorou para que o tenente que nos guiava parasse e reunisse o grupo em círculo. Apontava para o que queria que víssemos: destroços de aviões abatidos, cápsulas de bala espalhadas pelo chão. Ali estava a lembrança concreta do custo que o Zimbábue pagou na luta armada.

Enquanto caminhávamos, guiados pelas instruções do tenente, víamos pedaços de metal, roupas rasgadas, balas cravadas em raízes antigas. Não sabia se aquele tipo de tour era comum ou se o dia era atípico — mas o peso do lugar me colocava num silêncio que dispensava perguntas.

Com o tempo, deixei de ser uma presença incômoda entre os soldados. Eles perceberam que eu estava ali por Mpisi. Alguns se aproximaram, curiosos. Perguntaram se eu era da mídia — e, depois da experiência recente na fronteira do Zimbábue, tratei logo de negar. Dizia apenas: sou amigo dele.

Foi num desses momentos que ouvi o que talvez mais esperava escutar. Um soldado de Botswana, com olhar firme e voz direta, disse:

— Mpisi foi um herói.

Pronto. Tinha ali minha primeira evidência oficial.

Mpsi

Além de general aposentado, Mpsi assumia outros papéis importantes no vilarejo. Detentor de conhecimentos sobre medicina alternativa, manejava com maestria os elementos da terra. Na sua pequena casa, logo na entrada, viam-se armários ao fundo com inúmeros frascos contendo ervas secas e raízes diluídas em líquidos.

Lembro que, assim que cheguei ao recinto e perguntei se a água do subsolo era potável, ele respondeu:
— Potável e limpa é, mas seu corpo, que só bebe água química, ainda não criou a resistência natural. Beba, e vai ganhar imunidade, mas o corpo precisará se adaptar.

Não tinha escolha a não ser seguir suas palavras. Caso contrário, seriam quatro quilômetros a pé para comprar água engarrafada, que duraria menos que um dia.

Mas se eu soubesse que “adaptar-se” significaria vinte dias de pura diarreia. Era tarde demais. Foram dias de rolos de papel higiênico e queimaduras internas que fariam qualquer um repensar a palavra “adquirir imunidade”. A caganeira era tanta que cogitaram malária, até que uma enfermeira rural veio, deu uma picada e descartou a hipótese. O preço foi alto, mas o retorno também: nos quatro anos seguintes na África, sequer tive um alarme falso de caganeira.

A verdade é que meu corpo aprendeu a resistir. E, somado a isso, o contato com a água do solo freático marcou o começo de uma relação profunda com a própria água africana

. Sempre imaginei a África como seca, árida, deserta. Mas ali, sob meus pés, o Zimbábue revelava uma das maiores reservas de água da região. E não muito longe, um dos maiores rios do continente cortava a paisagem. O Zambeze: imponente, gigante, atravessando vários países e servindo de referência para muitas fronteiras, como a que separa Zimbábue e Zâmbia — justamente onde eu o cruzaria.

Mpsi, responsável por cuidar dos enfermos na região com sua sabedoria. Afirmava ter tratamento para qualquer anomalia, sempre ressaltando o quão ignorantes éramos diante das curas e de suas causas. Para validar suas argumentações, repetia: nenhum enfermo picado por cobra sob seus cuidados havia de falecer.

Eu, ainda cético sobre suas narrativas — mesmo após a confirmação de sua autoridade como general — não me sentia convencido apenas pelos frascos em sua casa. A realidade fora do mundo farmacêutico e suas palavras convictas sobre tratamentos me faziam desconfiar novamente de Mpsi… até que a resposta viria naquela mesma noite, como se ele desafiasse a própria mãe-natureza para me dar uma lição que jamais esqueceria.

Desde minha chegada ao vilarejo, alertaram-me sobre as cobras e a letalidade de suas picadas. Se a vítima não fosse socorrida rapidamente, a morte seria inevitável.

Naquela noite, após a janta, seguia meu caminho ao quarto. Já eram meses imerso na fauna africana; meus ouvidos haviam aprendido novos sons e quais animais rondavam a área. O instinto natural do homem ancestral ressoava em mim. A floresta já não me intimidava como antes — até que algo rompeu o silêncio.

Um som sutil, quase como um zunido, penetrou o quarto. O instinto falou mais alto. Ao olhar para o chão, a poucos palmos de distância, vi: na sua forma rastejante, ela me paralisava — uma das cobras mais letais do continente.

Fiquei imóvel. Sem movimentos bruscos.

Das lições que aprendi no caminho, uma ecoou na mente: cobras não escutam muito bem sons agudos e suaves. Sem pestanejar, emiti um assobio fraco, sinal de socorro para Mpsi. O ex-general já estava a postos.

Ele entrou e assumiu o controle. Atraiu a cobra com um movimento calculado, quase ritualístico. Por um instante, parecia dialogar com o animal.

Então, o golpe. Seco. Preciso. Definitivo.

Se antes Mpsi havia encenado tiros certeiros ao narrar suas batalhas, naquela noite ele provava, diante dos meus olhos, que sua mira não se perdera. O cajado esmagou a cabeça do réptil como se fosse extensão de sua própria mão.

O surgimento daquela cobra soava quase como uma provação — uma forma da natureza atestar que suas façanhas eram tão reais quanto as histórias contadas.

Mas a noite não se encerraria ali. Minutos depois, um barulho intenso cortou o silêncio sob um feixe forte do farol. Os pneus frearam bruscamente na entrada do recinto.

Um casal jovem saltou do carro em disparada. No colo do homem, uma menina aos prantos. Assim que nos avistaram, vieram direto ao nosso encontro.

Sem qualquer comunicação verbal entre eles, Mpsi, sem titubear, entendeu o que acontecia.

— Savee, prepare as coisas!

O vilarejo inteiro despertou.

A cozinha ganhou vida naquela noite, mas meu olhar não se desgrudava da menina. Cada som — o sussurro de Savee, o farfalhar das folhas lá fora, o tilintar dos frascos de vidro — parecia amplificado. Meu coração acelerava e a respiração ficou curta. Os outros estavam serenos, como se soubessem algo que eu ainda não compreendia.

Mpsi movia-se com precisão quase ritualística, cada gesto calculado, o manuseio das ervas e outros elementos que não consegui identificar naquele instante. Um processo que eu só observava de longe. A tensão no ar era palpável, mas silenciosa.

A menina permanecia imóvel, confiando plenamente naquele homem que, para mim, ainda carregava o mistério de sua autoridade. Os pais trocavam olhares e conversavam numa naturalidade como parente que vem de longe e coloca o assunto em dia...

Hesitei, buscando uma explicação que fizesse sentido para mim, e me virei para pai da criança, tentando compreender a decisão de não os levar ao hospital. Ele me olhou, com um tom carregado de humor

— Se fôssemos ao hospital, os médicos nos mandariam para Mpsi cuidar.

Naquela noite hesitei em pesquisar o que é sonhar com duas cobras. Eram tão reais quanto a escama dela pendurada na minha janela para algum frasco.

tão real quanto a foto acima

Read the original on cainaito.substack.com

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