Era véspera de prova, e eu, que nunca fui exemplo de estudos, decorava às pressas a matéria sobre os bandeirantes. Era indiferente quem eles eram ou qual era sua relevância histórica. Meu único objetivo era lembrar as datas, já que, naquela época, as questões de múltipla escolha insistiam nesse tipo de detalhe .
Enquanto folheava a apostila, o único som do ambiente era o os meus dentes caninos rangendo contra o lápis, já desgastado pelo tédio. Na televisão ao centro, uma cena se repetia incessantemente: dois aviões colidindo contra dois prédios.
Era 11 de setembro. Naquele dia fatídico, eu sabia que jamais lembraria quando os bandeirantes haviam passado por aqui, mas a mídia garantiria que ninguém esquecesse os eventos daquela data. Eu tinha 11 anos, e o Oriente Médio que transmitia na televisão parecia um lugar distante, quase fantasioso, como os cenários de Aladim ou Ali Babá, repletos de desertos intermináveis. Meu conhecimento da região se resumia ao álbum da Copa do Mundo, onde a única nação representada era a Arábia Saudita, vista como uma potência exótica.
Mas o atentado às Torres Gêmeas colocou em evidência um país que jamais aparecia nos nossos estudos: Iraque, carregando consigo o nome de Osama Bin Laden.
O ano era 2017, e estudava inglês na África do Sul, mais especificamente na Cidade do Cabo. Durante meu tempo lá, tinha a chance de conviver com muitos árabes, sendo eles da Arábia Saudita, Líbia, Oman, Iêmen e Turquia. A interação com estes me fascinava: aprender sobre seus costumes, a religião islâmica e as tantas diferenças culturais. Era um mundo novo que até então, a mídia tradicional não havia me mostrado — ou, quando mostrava, era através de lentes enviesadas, focadas apenas em tragédias e calamidades. E talvez tenha sido ali que eu Cainã, entre tantos árabes, vislumbrei a me ver como jornalista, movido pela curiosidade de explorar uma gama de diferentes perspectivas.
Era uma manhã comum na escola, até que ele entrou no recinto. Seus traços árabes eram inconfundíveis: os pelos grossos nos braços, o sorriso sutil e quase tímido, e a barba impecavelmente aparada. Não era preciso ser “medium” para saber quando ele estava por perto; o aroma de nicotina do característico Marlboro, que só ele tragava, era a denuncia de seus rastros. Seus sapatos lustrosos e a camisa perfeitamente abotoada, revelavam um cuidado quase maternal, como quem ajeita um filho antes de um grande momento. Seu nome era Mustafa.
Mustafa e eu nos tornamos amigos durante o intercâmbio. Diferente de outros estudantes árabes, que viam o intercâmbio como uma chance de aprender um idioma e também para transgredir algumas regras, Mustafa não fazia parte desse time, e isso fez com que nos aproximamos.
Lembro-me claramente do momento em que ele me contou de onde vinha. De um lugar distorcido pelas narrativas ocidentais, onde sua terra era associada a bombas e destruição. Mustafa parecia carregar, além de seu fardo físico, o peso de enfrentar os ataques estereotipados constantes sobre seu país. Mustafa era de Bagdá, Iraque. A mesma morada daquele que foi atribuído aos ataques do dia 11.
O Meu Atentado
Durante o tempo que convivi com Mustafa, recheado de boas conversas e risadas, acabei cometendo um dos maiores erros. Quando nos víamos, fosse nas escadarias ou nas ruas, eu dizia, em tom cômico:
"Kaboomm! Mustafa, onde está sua bomba?"
Ele, provavelmente cansado dos estereótipos e das correlações destrutivas sobre seu país, apenas sorria. Eu, com a ignorância de quem não percebeu o mal que está fazendo, não compreendia o impacto das minhas palavras.
Mustafa era a antítese do que muitos imaginavam sobre seu país de origem. Amigável, belo e, acima de tudo, um povo respeitoso. Palavra essa que ecoava no próprio significado de seu nome. Mustafa desconstruía os estereótipos que recaíam sobre o Iraque nos meios jornalísticos. Dentista por profissão e fumante assíduo, tragava maços de nicotina diariamente, mas não via contradição em sua escolha. Para ele, o fumo era um refúgio, um alívio para as dores e fraquezas humanas que ele em si compreendia.
Mesmo com seus próprios dilemas, o cigarro não ofuscava sua habilidade como um dentista e a pessoa que é. O mesmo para o Iraque, que marcado por cicatrizes profundas e feridas que ainda sangravam, carregava muito mais do que dor. E Mustafa queria mostrar ao mundo que seu país também tinha belezas, riquezas e gestos de bondade. Ele era um reflexo da complexidade de sua terra, um jovem que, à sua maneira, buscava representar o melhor do lugar que chamava de lar. E, com isso, fez com maestria.
Quando revivi essas memórias, um sentimento de remorso tomou conta de mim. E esse texto é sobre isso. Um lembrete de que a vida é cheia de erros, mas também nos ensina que o remorso é valioso. Ele machuca, mas nos impulsiona a melhorar.
Mais tarde, quando consegui processar tudo o que cometi em relação a Mustafa sobre as abordagens de bomba e relacionados, enviei um áudio para ele com meus pedidos de desculpas. E também o perdão ao Cainã que fui naquele época. Espero voltar a encontrar Mustafa em sua cidade natal, e quando isso acontecer, minhas palavras ecoarão com um grande:
Salammmm aleikum!!!!
Obrigado Mustafa.

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