O que um artigo leva consigo depois de publicado? Além dos resultados da pesquisa e das escolhas de quem o escreveu, permanecem nele as perguntas dos pareceristas, as revisões suscitadas pelo diálogo editorial, o trabalho de tornar gráficos e imagens acessíveis e as decisões que permitem ao texto chegar livremente a seus leitores.
Esta edição da newsletter começa por esse percurso, contado por três autores que publicaram recentemente em Cadernos de Linguística. Suas experiências ajudam a compreender, a partir de dentro, alguns dos compromissos que orientam a revista. Elas também dão sentido a uma notícia institucional importante: a entrada de Cadernos de Linguística no Open Journals Collective, rede internacional dedicada à sustentabilidade do Acesso Aberto Diamante.
Depois, voltamos a atenção para seis novas publicações: a entoação da fala sintética comparada à humana, a expressividade vocal de professores, o projeto de um corpus de fala gaguejada, a história do ensino de português na Linguística brasileira, a atuação discursiva da ANTRA e o dossiê dedicado a mídias, tecnologias e inteligência artificial.
Convidamos três autores que publicaram recentemente na revista a contar como vivenciaram o caminho entre a submissão e a versão final de seus artigos. Ramon de Almeida Miranda assina, com Ana Maria Sá Martins, o relato de pesquisa A representação discursiva de Yglésio Moyses (PRTB) no podcast “Abrindo o Verbo”, que integra o dossiê sobre o qual falaremos mais adiante nesta edição. Neuda Lago é autora de Literaturas de Língua Inglesa e Justiça Social: perspectivas críticas, descoloniais e praxiológicas. Leandro Silveira de Araujo publicou A emergência da gramática brasileira de português para estrangeiros e a contribuição de Hermine W. Topker (1942), sobre a obra pioneira no ensino de português a estrangeiros no Brasil.
Ramon chama atenção para o caráter colaborativo da avaliação por pares. Ao comentar a leitura realizada por Iran Ferreira de Melo e Lilian Noemia Guimarães, ele reconhece que as contribuições dos pareceristas passaram a integrar a própria história do artigo:
Ao publicar na Cadernos de Linguística, percebo que o compromisso e a atenção tanto com o artigo quanto com os autores é um diferencial da revista. Desde a avaliação até a etapa final de editoração, cada detalhe foi tratado com muito cuidado. A princípio, destaco que as contribuições dos pareceristas Iran Ferreira de Melo e Lilian Noemia Guimarães foram criteriosas e contribuíram de forma significativa para o amadurecimento da pesquisa. Sendo assim, a riqueza do trabalho também tem um pouco de cada um deles.
Outro aspecto mencionado por Ramon é a acessibilidade. Para ele, pensar a produção científica para diferentes públicos integra o compromisso com a democratização do conhecimento:
Além disso, me chamou atenção a preocupação da revista com a acessibilidade dos textos, o que reforça que a produção científica deve ser pensada para todos, em uma perspectiva de inclusão, diversidade e democratização do conhecimento. Afinal, um texto científico que não consegue dialogar com diferentes públicos perde parte do seu potencial transformador.
Ao final, ele relaciona publicação e circulação social da pesquisa:
É muito gratificante ver uma pesquisa desenvolvida na universidade alcançar maior visibilidade por meio de um periódico comprometido com a qualidade científica e com a divulgação do conhecimento. Assim, expresso minha alegria pela oportunidade de publicar na Cadernos de Linguística e poder ampliar discussões sobre o discurso, despertar olhares críticos e, quem sabe, contribuir para a transformação das práticas sociais que nos cercam.
Neuda Lago descreve a revista a partir de uma dupla experiência, como leitora e como autora, e destaca a possibilidade de aproximar literatura, linguagem, educação e justiça social:
Minha experiência com a Cadernos de Linguística tem sido muito positiva, tanto como leitora quanto como autora. Foi especialmente significativa a publicação do artigo “Literaturas de Língua Inglesa e Justiça Social: perspectivas críticas, descoloniais e praxiológicas”, um trabalho que reúne questões centrais de minha trajetória como pesquisadora e professora. Nele, penso na educação literária como uma prática de leitura e interpretação, mas também como um espaço de escuta, reflexão crítica e enfrentamento das diferentes formas de desigualdade e exclusão. Encontrar, na revista, um espaço aberto ao diálogo entre literatura, linguagem, educação e justiça social foi muito importante para mim. Destaco também o cuidado, a cordialidade e a clareza da equipe editorial ao longo de todo o processo. Sinto-me honrada por integrar uma publicação comprometida com o rigor acadêmico e, ao mesmo tempo, com a circulação de perspectivas críticas e socialmente relevantes.
Leandro Silveira de Araujo observa como as diferentes etapas do fluxo editorial se articulam em torno do aprimoramento do trabalho:
Publicar na Cadernos de Linguística foi uma experiência marcante. Vivenciei um processo editorial muito diferente daquele a que estamos habituados na área de Linguística, tanto no Brasil quanto no exterior. Embora o fluxo conste de múltiplas etapas, fica evidente que cada uma delas visa a conferir maior qualidade final ao trabalho científico. A atenção e o cuidado de toda a equipe editorial se destacam por uma condução precisa, ágil e atenta a cada detalhe.
Os três relatos descrevem um processo de interlocução. Pareceristas participam do amadurecimento da pesquisa, autores encontram espaço para explicitar a dimensão social de seus trabalhos e as decisões de editoração procuram ampliar as possibilidades de leitura e uso dos textos.
A relação entre cuidado editorial e infraestrutura aparece também na entrada de Cadernos de Linguística no Open Journals Collective (OJC). A iniciativa reúne pesquisadores, bibliotecas, editoras universitárias e organizações acadêmicas sem fins lucrativos empenhadas em construir formas mais sustentáveis e equitativas de comunicação científica.
No Acesso Aberto Diamante, autores não pagam para publicar e leitores não encontram barreiras financeiras para acessar os trabalhos. Mesmo sem cobrar taxas, a revista precisa custear plataformas, preservação, registro de DOI, preparação de arquivos, produção de metadados, acessibilidade e divulgação, atividades que exigem infraestrutura e trabalho contínuos. O OJC busca justamente fortalecer periódicos que realizam essas atividades sem transferir os custos para autores ou leitores.
A entrada no coletivo projeta internacionalmente um modelo que a revista pratica desde sua criação. Publicada pela Associação Brasileira de Linguística (Abralin), Cadernos de Linguística mantém independência editorial, governança acadêmica e acesso integralmente aberto, sem receitas provenientes de APCs ou assinaturas. A revista já pode ser consultada em sua página no catálogo do OJC, que reúne informações sobre financiamento, idiomas de publicação, política de acesso e vínculo institucional.
Ao participar da rede, a revista passa a compartilhar desafios, soluções e responsabilidades com outras iniciativas conduzidas pela comunidade acadêmica. O cuidado mencionado pelos autores depende de condições institucionais capazes de sustentá-lo no longo prazo.
Em Exploring Intonational Contours in Human and Synthetic Speech: An F0-Based Study of Venezuelan Spanish, João Paulo Moraes Lima dos Santos (IF Sertão Pernambucano) e Eugenia San Segundo (CSIC) investigam uma dimensão que medidas acústicas globais nem sempre conseguem captar: a maneira como a frequência fundamental se organiza ao longo do tempo.
O estudo compara sentenças declarativas e interrogativas produzidas por falantes humanos com realizações sintéticas construídas a partir do mesmo material linguístico. As vozes geradas por sistemas de síntese reproduzem as configurações entoacionais mais gerais associadas às modalidades frasais. A diferença surge nos detalhes do percurso: a fala humana apresenta mudanças mais localizadas e maior diferenciação interna, sobretudo nas regiões finais das sentenças; a sintética tende a regularizar os movimentos e a produzir contornos mais suaves.
Essa divergência não aparece com a mesma nitidez em medidas como extensão global de F0 ou variabilidade do enunciado inteiro. Os resultados indicam que a avaliação da naturalidade da fala sintética deve incluir, ao lado das medidas acústicas agregadas, a forma do contorno e seu desenvolvimento temporal.
A voz também é examinada como instrumento profissional em Perceptual Analysis of Teachers’ Speech Expressiveness After Speech-Language Intervention, de Patricia Brianne da Costa Penha, Bárbara Tayná Santos Eugênio da Silva Dantas, Giordanna Emanuelle Ramos Nascimento e Maria Fabiana Bonfim de Lima-Silva (UFPB).
Quatro professores de uma escola pública da Paraíba participaram de oficinas semanais sobre respiração, articulação, modulação de frequência e intensidade, ressonância e aquecimento vocal. Antes e depois da intervenção, foram registradas amostras de leitura e de fala em sala de aula, posteriormente examinadas por três avaliadores com o protocolo VPA-PB.
Os resultados preliminares apontam redução de ajustes hiperfuncionais e da aspereza, aumento da variação de frequência e intensidade e melhora do suporte respiratório. No estudo, a saúde vocal é examinada em relação à expressividade, à flexibilidade prosódica e ao esforço fonatório, dimensões que afetam a comunicação pedagógica e a relação dos professores com sua atividade cotidiana.
Sandra Merlo (IBF) e Luciana Lucente (UFMG) apresentam, em Building a Corpus to Analyze Stuttering According to a Dynamic Model of Speech Rhythm Production, o projeto de um corpus de fala gaguejada em português brasileiro.
O artigo apresenta o desenho do corpus, suas hipóteses e as decisões que orientarão a coleta e a anotação; nesta etapa, ainda não são apresentados resultados empíricos. O projeto deverá reunir dados de crianças, adolescentes e adultos, contemplando graus e perfis distintos de gagueira, coexistência com taquifemia e produções registradas antes e depois de tratamento comportamental.
No modelo adotado, as disfluências são analisadas junto ao restante da fala, e não como um fenômeno à parte. Com base no Modelo Dinâmico do Ritmo da Fala, intervalos gaguejados e não gaguejados serão examinados como partes de um processo temporal contínuo. Duração de unidades vogal a vogal, variabilidade rítmica, organização de grupos acentuais e variáveis clínicas poderão, desse modo, ser analisadas conjuntamente.
Em O ensino de Língua Portuguesa na História da Linguística brasileira, Leonardo Gueiros (UFPB) reconstrói quatro décadas de debates, da institucionalização da Linguística no Brasil, nos anos 1960, à consolidação e diversificação da área no final dos anos 1990.
O artigo mostra que a presença universitária da disciplina criou condições para o desenvolvimento de pesquisas orientadas a problemas de ensino. A partir da segunda metade da década de 1970, discussões sobre gramática, leitura e produção escrita passaram a incorporar uma concepção da linguagem como prática sociodiscursiva. Sociolinguística, Linguística Textual e Análise do Discurso contribuíram para questionar a identificação entre ensino de português e transmissão de regras normativas e para situar a diversidade linguística no centro do debate educacional.
A história reconstituída ali acompanha, além das teorias, as instituições, associações, periódicos, projetos coletivos e agentes que criaram as condições para que novas ideias sobre língua e ensino fossem produzidas e circulassem no país.
A linguagem aparece de maneira ainda mais explícita como intervenção social em Ação social e discursiva da Cartilha “Não existe cadeia humanizada!” da Associação Nacional de Travestis e Transexuais no combate à transfobia (ANTRA), de Marcos Antonio Rodrigues Nascimento, Priscilla Araújo de Figueiredo Freitas e Viviane Cristina Vieira (UnB).
Com base nos Estudos Críticos do Discurso em perspectiva decolonial, os autores analisam uma publicação da ANTRA sobre pessoas LGBTQIA+ privadas de liberdade. A análise considera, além do texto final, o planejamento, a produção, os recursos multissemióticos, as formas de distribuição, os interlocutores e as condições sociais de circulação.
A cartilha identifica práticas e agentes que sustentam a transfobia institucionalizada, denuncia o desrespeito à legislação no sistema prisional e reivindica mudanças estruturais. Produzir e distribuir esse material faz parte, portanto, da própria ação política da associação: uma maneira de documentar violações e de disputar sentidos no enfrentamento da exclusão.
Esta edição também marca a publicação da apresentação do dossiê Mídias, tecnologias, inteligência artificial: análises de práticas político-discursivas, organizado por Evandra Grigoletto (UFPE), Silmara Dela Silva (UFF) e Solange Maria Leda Gallo (Unisul).
Originada de um simpósio temático realizado no 14º Congresso Internacional da Abralin, a coletânea reúne oito contribuições de pesquisadores de diferentes regiões, instituições e etapas da carreira. Seus objetos incluem moderação de comentários em redes sociais, representação política em podcasts, modelos generativos, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, sujeitos e avatares, práticas de navegação, arquivos no X e vídeos políticos produzidos por IA.
Os trabalhos examinam a participação das tecnologias na produção e na circulação dos discursos. Plataformas, navegadores, bases de dados e sistemas de inteligência artificial regulam visibilidades, distribuem posições de sujeito, reproduzem desigualdades e também abrem espaços para resistência e disputa política.
Os textos desta edição seguem agendas próprias. Alguns se concentram na materialidade acústica da fala; outros interrogam práticas educacionais, constroem infraestrutura de pesquisa, reconstituem a história disciplinar ou acompanham formas de ação política. Essa variedade é parte do que uma revista de Linguística deve tornar possível.
Os depoimentos que abrem esta newsletter lembram, por fim, que nenhum desses trabalhos chega sozinho a seus leitores. Depois de publicado, o artigo começa a circular entre novos leitores, e com ele o diálogo entre autores, pareceristas e editores que o aprimorou.
Cadernos de Linguística adota o modelo de Acesso Aberto Diamante: autoras e autores não pagam para submeter ou publicar, e leitoras e leitores não pagam para acessar os artigos.
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