As novas publicações de Cadernos de Linguística chegam em três frentes. A primeira examina as relações entre linguagem, política e ambientes digitais: a interpretação ideologicamente orientada de usos metonímicos de “Brasil”, a produção de efeitos de verdade em vídeos políticos gerados por inteligência artificial e as transformações da língua e do sujeito nas plataformas digitais.
A segunda se volta à história, à descrição e à preservação do conhecimento linguístico. Os trabalhos investigam a formação da gramaticografia brasileira de português para estrangeiros, mapeiam 25 anos de pesquisas de pós-graduação sobre a descrição do português e discutem museus, arquivos e coleções como infraestruturas que também participam da construção da memória disciplinar.
A terceira reúne perspectivas críticas sobre corpo, literatura, colonialidade e justiça social. Em outro plano, a aprovação da revista para integrar a Coleção SciELO Brasil marca uma nova etapa institucional. Em conjunto, os textos e a notícia colocam em discussão diferentes formas de produzir, interpretar, preservar e fazer circular conhecimentos sobre linguagem.
Em 24 de junho, Cadernos de Linguística anunciou sua aprovação para integrar a Coleção SciELO Brasil. Entre os três periódicos aprovados em 2026 até a presente data, a revista é o único da área de Linguística.
A decisão reconhece a qualidade científica das pesquisas publicadas e a consistência do trabalho editorial desenvolvido pela revista, incluindo a regularidade da publicação, a transparência dos processos de avaliação, a adoção de práticas de ciência aberta e a adequação a padrões técnicos internacionais.
A aprovação inicia agora o processo técnico de integração à plataforma. A entrada na SciELO deverá ampliar a visibilidade e a circulação internacional dos artigos, fortalecer a preservação de longo prazo, aprimorar a interoperabilidade dos metadados e aproximar ainda mais a revista dos padrões internacionais de comunicação científica aberta.
Trata-se de uma conquista coletiva, construída pelo trabalho de autoras e autores, avaliadoras e avaliadores, editoras e editores, instituições parceiras e pela comunidade que lê, utiliza e faz circular as pesquisas publicadas pela revista.
Vinícius da Rosa da Silva Tavares e Maity Siqueira (UFRGS) investigam como a orientação política pode influenciar a compreensão da linguagem figurada em Brasil, mostra a tua cara: uma análise cognitivo-discursiva das interpretações metonímicas a partir de diferentes orientações políticas. O estudo apresenta a 194 participantes trechos do programa Brasil Urgente nos quais a palavra “Brasil” pode designar território, população, instituições políticas ou outros referentes. Embora “instituições políticas” tenha sido a interpretação mais frequente nos dois grupos analisados, participantes identificados com a esquerda selecionaram esse referente com maior frequência em parte dos contextos metonímicos. Os resultados indicam que a orientação ideológica pode participar da interpretação de usos linguisticamente subespecificados.
Juliana da Silveira (UNISUL), em Efeito-rumor em tempos de IA: agora é a vez do povo?, analisa vídeos políticos e satíricos produzidos com inteligência artificial generativa. O corpus reúne a campanha “Taxação BBB”, divulgada pelo Partido dos Trabalhadores, e conteúdos do perfil “Brasil Sátira do Poder”. A autora propõe repensar o efeito-rumor como uma operação atravessada pela materialidade técnica do digital: a simulação de corpos e vozes modifica os regimes de evidência, credibilidade e circulação do discurso político, tornando mais instáveis as fronteiras entre propaganda, sátira, informação e desinformação.
Monica Ferreira Cassana (UFRGS) discute as transformações da linguagem e do sujeito no digital em Análise de Discurso Digital e a língua de bruma. A partir da Análise de Discurso materialista, o artigo examina tendências de cortes de palavras no TikTok e políticas que regulam a circulação da linguagem em plataformas como o YouTube. O conceito de “língua de neblina” procura descrever formas de dizer fluidas, instáveis e abertas a deslocamentos de sentido, produzidas na relação entre sujeitos, máquinas, plataformas e as exigências contemporâneas de velocidade, produtividade e efemeridade.
Os três estudos mostram que a circulação digital não constitui apenas um novo suporte para discursos previamente existentes. Plataformas, algoritmos, sistemas de geração de imagens e normas técnicas interferem nas condições de produção da linguagem, nos modos de interpretação e na constituição dos próprios sujeitos que falam, leem e compartilham conteúdos.
Leandro Silveira de Araujo (UFU) reconstrói um capítulo pouco estudado da história do ensino de português em A emergência da gramática brasileira de português para estrangeiros e a contribuição de Hermine W. Topker (1942). O artigo situa a obra A língua portuguesa para estrangeiros, publicada por Topker em 1942, no contexto histórico, científico e pedagógico de sua produção. A análise mostra que a obra inaugurou uma sistematização brasileira da gramática destinada a estrangeiros, combinando a tradição normativa com a incorporação ocasional de características do português brasileiro e com demandas práticas de ensino.
Jefferson Evaristo, Cynthia Vilaça e Cláudia Moura da Rocha (UERJ) apresentam um estado da arte em Panoramas linguísticos do português brasileiro: a “descrição do português” realizada na Pós-Graduação brasileira (2000-2024). Com base no Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES, o estudo identifica 176 pesquisas associadas à expressão “descrição do português” e as distribui em sete macrogrupos. O mapeamento permite reconhecer tendências, prioridades e lacunas do campo, com atenção especial aos estudos de orientação historicista. Uma das tendências identificadas é a presença expressiva de pesquisas sobre português como língua estrangeira ou segunda língua.
Gissele Chapanski e coautoras e coautores de diferentes instituições brasileiras ampliam o debate sobre arquivos em Museus e acervos linguísticos: entre a memória e a experiência. O ensaio analisa seis iniciativas brasileiras, entre centros de documentação, catálogos, coleções, museus físicos e museus digitais. Em vez de tratar os acervos como depósitos passivos de documentos, o texto os compreende como construções dinâmicas de conhecimento. Decidir o que preservar, classificar, expor ou tornar acessível interfere na formação de cânones, na exclusão de determinadas tradições e nas condições futuras da pesquisa linguística.
Os três trabalhos aproximam gramáticas, teses, dissertações, museus e arquivos como objetos e, simultaneamente, como infraestruturas da história da Linguística. Eles mostram que descrever e preservar não são operações neutras: envolvem escolhas sobre quais línguas, variedades, autores, documentos e tradições serão reconhecidos e transmitidos.
Ricardo Regis de Almeida (UFPA) apresenta, em Corpovivências no enfrentamento à colonialidade: desdobramentos do construto na Linguística Aplicada Crítica, uma reflexão sobre as relações entre corpo, linguagem, experiência e resistência. O artigo acompanha a apropriação do conceito de corpovivências por pesquisas da Linguística Aplicada Crítica e mostra como ele permite questionar formas de apagamento produzidas pela colonialidade. As análises articulam corpo, subjetividade, escrita, experiência vivida, resistência e reexistência, dentro e fora da sala de aula de língua inglesa.
Neuda Lago (UFG), em Literaturas de Língua Inglesa e Justiça Social: perspectivas críticas, descoloniais e praxiológicas, trata a leitura literária como prática social capaz de desestabilizar desigualdades históricas e reeducar a atenção para a diferença. A partir de obras de Toni Morrison, Chinua Achebe, Seiko Tanabe, H. Melt e Ntozake Shange, o ensaio discute racismo, colonialismo, deficiência e gênero. Ambiguidade, voz narrativa, temporalidade, tradução e performance são examinadas não como ornamentos formais, mas como procedimentos de crítica. O texto também apresenta questões crítico-reflexivas que aproximam análise literária, formação de leitores e práxis pedagógica.
Nos dois artigos, a experiência deixa de ocupar uma posição periférica na produção de conhecimento. Corpo, leitura, escuta e subjetividade tornam-se dimensões centrais para compreender como a linguagem pode reproduzir desigualdades, mas também abrir possibilidades de resistência, reconhecimento e transformação social.
Em diferentes escalas, os trabalhos reunidos nesta edição mostram que a linguagem nunca circula em condições neutras. Ideologias, plataformas digitais, tecnologias de inteligência artificial, tradições disciplinares, arquivos, corpos e práticas de leitura interferem nos modos como sentidos são produzidos, legitimados, preservados e contestados.
Essa perspectiva também permite aproximar os artigos da nova etapa institucional de Cadernos de Linguística. A integração à Coleção SciELO Brasil amplia as condições de visibilidade, preservação, interoperabilidade e acesso às pesquisas publicadas, mas também reforça um compromisso editorial mais amplo: garantir que diferentes objetos, abordagens, tradições e experiências encontrem espaço em uma infraestrutura científica aberta, rigorosa e socialmente relevante.
Ao reunir estudos sobre discurso político, ambientes digitais, história da Linguística, acervos, colonialidade e justiça social, esta edição reafirma que produzir conhecimento sobre a linguagem implica também refletir sobre quem produz esse conhecimento, por quais meios ele circula, quais memórias preserva e quais possibilidades de transformação ajuda a construir.
CadLin adota o modelo de Acesso Aberto Diamante: autoras e autores não pagam para submeter ou publicar, e leitoras e leitores não pagam para acessar os artigos.
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