Nesta edição, trazemos notícias que marcam um momento importante para os Cadernos de Linguística: os primeiros protocolos de Relatos Registrados do número temático sobre reprodutibilidade chegam ao ar, junto com um relato de pesquisa que coloca o português no centro do debate sobre modelos de linguagem. Celebramos também o Prêmio Abralin de Melhor Artigo, conquistado por um trabalho publicado em nossa revista, e compartilhamos os destaques da participação de CadLin no InterAb 2026. Confira ainda as chamadas abertas para números temáticos.
O número temático Reprodutibilidade em Pesquisas Linguísticas começa a ganhar forma com a publicação dos três primeiros trabalhos. Dois deles são Protocolos de Relatos Registrados — o formato em que o projeto de pesquisa passa por avaliação e aprovação antes da coleta de dados, garantindo que hipóteses, métodos e plano de análise fiquem registrados publicamente desde o início.
O que torna esse formato tão importante para a ciência aberta? Ao separar o plano de pesquisa de seus resultados, os Relatos Registrados reduzem incentivos para ajustes pós-hoc e tornam o processo científico mais transparente e rastreável. O registro prévio não é uma burocracia a mais: é uma forma de mostrar, com clareza, de onde vêm as perguntas e como elas serão respondidas. Fique atento às próximas publicações desse número — os relatos finais, com os dados coletados e analisados, virão na sequência.
O artigo Replicating the Effects of Iconicity in Lexical Decision Task: A Study in Brazilian Portuguese, de Mahayana C. Godoy, Thayná C. Ananias e David M. Sidhu, propõe replicar, com falantes do português brasileiro, um experimento clássico sobre iconicidade lexical. Palavras icônicas — como sussurro, chiado ou zanzar — têm uma relação de semelhança entre forma e significado que, segundo estudos anteriores em inglês, facilita o reconhecimento visual de palavras. A questão agora é saber se esse efeito se mantém em outra língua. O protocolo detalha o plano de seleção de estímulos, o procedimento experimental e a estratégia de análise estatística que guiarão o estudo.
Alves et al., da Universidade de São Paulo, apresentam o protocolo Testando a eficiência de um método de segmentação prosódica automática baseado em aprendizado de máquina para o português brasileiro. O objetivo é replicar, em um novo corpus de fala espontânea, um classificador Random Forest desenvolvido para identificar fronteiras prosódicas terminais em PB. Ao testar o modelo em dados diferentes dos usados no treinamento original — o NURC-Corpus Mínimo, com 17 horas de gravações da década de 1970 — o estudo avalia tanto a robustez do método quanto seu comportamento em condições de áudio variadas.
O relato de pesquisa Word Predictability in Portuguese: Cloze Norming Study vs. LLMs, de Jane Aristia (Université Paris Nanterre), compara os resultados de um estudo de cloze tradicional — em que participantes completam sentenças — com as previsões de dois modelos de linguagem treinados em português: Grevásio e Tucano. Os resultados mostram correlações fracas a moderadas entre as probabilidades humanas e as dos modelos, sugerindo que, para o português, os LLMs ainda não estão prontos para substituir participantes humanos nesse tipo de tarefa — embora possam funcionar como dados complementares.
Cadernos de Linguística celebra a conquista do Prêmio Abralin de Melhor Artigo pelo trabalho Exploring variation and change in the distant past: /s/-variation and its implications for the reconstruction of Ancient Babylonian, de Rodrigo Hernáiz. O resultado foi anunciado pela ABRALIN durante o InterAb 14, no âmbito da 2ª edição do prêmio.
O artigo examina a variação na representação escrita de /s/ no babilônio antigo e mostra que essa variação não é aleatória: ela apresenta correlações estatísticas com fatores geográficos e temporais, sugere um processo histórico de difusão e oferece elementos relevantes para a reconstrução linguística de uma das tradições escritas mais antigas do mundo. Segundo a ABRALIN, o trabalho se destacou pela originalidade, pela consistência analítica e pela articulação entre variação e mudança, reconstrução histórica e suporte computacional — uma combinação que aproxima questões clássicas da Linguística Histórica e da Sociolinguística de métodos quantitativos contemporâneos.
Leia a notícia completa no site de Cadernos de Linguística.
A revista esteve presente no InterAb 2026 com participação em duas mesas redondas que tocaram em questões centrais para a pesquisa e a divulgação linguística no Brasil.
Na mesa Reprodutibilidade e métodos quantitativos na linguística, CadLin teve a oportunidade de apresentar sua experiência com o formato de Relatos Registrados e debater os desafios práticos de implementar práticas de ciência aberta em uma área ainda em processo de familiarização com esses modelos.
Na mesa Políticas de avaliação, circulação do conhecimento e desafios para os Estudos da Linguagem, que contou com a participação do Dr. Antônio Gomes de Souza Filho, Diretor de Avaliação da Pós-Graduação da CAPES, foram discutidas práticas editoriais, critérios de avaliação e a adoção do modelo de ciência aberta no contexto brasileiro. A conversa colocou em relevo as tensões entre sistemas de avaliação tradicionais e as novas demandas por transparência, compartilhamento de dados e reprodutibilidade.
As chamadas abertas de Cadernos de Linguística são convites à comunidade acadêmica para co-construir o debate em torno de temas centrais da área. Confira as que estão em andamento:
Gramática de Construções Diacrônica — mudança linguística, cognição e uso em perspectiva construcional. Saiba mais.
Linguística Cognitiva no Mundo Real — pesquisas que analisam aspectos centrais da linguagem em uso. Saiba mais.
Das Raízes aos Novos Rumos: A Trajetória da Dialetologia Brasileira — contribuições que se engajam com as diferentes abordagens da Dialetologia no Brasil. Saiba mais.
Mídias, Tecnologias e Inteligência Artificial — pesquisas sobre mídia, tecnologias e IA em processos político-discursivos. Saiba mais.
Historiografias Contemporâneas dos Estudos Linguísticos e do Ensino de Línguas — trajetórias do conhecimento e das práticas em linguagem e ensino. Saiba mais.
Acesse todas as chamadas em cadernos.abralin.org.
Cadernos de Linguística tem um papel que vai além da publicação: temos um compromisso com a formação da comunidade em torno das práticas de ciência aberta e reprodutível. Reconhecemos que esse modelo ainda é relativamente recente na linguística — o que significa que muitos pesquisadores chegam à revista sem familiaridade com seus formatos e exigências.
Por isso, a equipe editorial dedica atenção cuidadosa a cada submissão, mostrando passo a passo como adequar os manuscritos dentro desse modelo. Não se trata de rejeitar de imediato por não conformidade, mas de acompanhar os autores no processo de aprendizagem.
Vale lembrar que CadLin aceita exclusivamente Relatos Registrados (Protocolos e Relatos Registrados propriamente ditos), relatos de reprodutibilidade, perspectivas críticas e trabalhos submetidos a números temáticos. Consulte nossas diretrizes de submissão antes de enviar seu manuscrito.
Cadernos de Linguística apoia integralmente a política de submissão sem formatação obrigatória. Saiba como submeter seu manuscrito aqui.
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