As novas publicações de Cadernos de Linguística chegam em três frentes. A primeira examina a linguagem em ambientes digitais: plataformas, navegadores, moderação de comentários, podcasts, inteligência artificial generativa e discursos públicos sobre tecnologia. A segunda entra no terreno metodológico, com um protocolo de Relato Registrado que testa o Montreal Forced Aligner em dados do português brasileiro. A terceira trata da circulação dos dados, com a apresentação do dossiê sobre compartilhamento de dados linguísticos e a publicação de um corpus inédito de fala infantil em acesso aberto.
A assinatura da Declaração de Estocolmo e a nova chamada temática com endosso do CIPL completam essa atualização em outro plano: o das políticas editoriais e institucionais. Em conjunto, as notícias apontam para uma mesma questão: como produzir, avaliar, compartilhar e publicar conhecimento sobre linguagem em um cenário marcado por plataformas digitais, automação e novas exigências de abertura científica.
Thiago César da Costa Carneiro (UFPE) faz um experimento direto em Quanto vale ser sujeito? Efeitos de sujeito na constituição do arquivo do/no X: pergunta ao Grok “o que é ditadura?” a partir de perfis distintos no X e nas versões grátis e paga da plataforma. As respostas variam. O texto examina o que essa variação diz sobre o sujeito-usuário que a plataforma constrói, mostrando que o arquivo que o X constitui não é neutro nem uniforme.
Thomas Falconi e Lucas Alves Selhorst (UNISUL) tomam os próprios navegadores como objeto em Sujeito-avatar em espaços enunciativos informatizados: entre normatizações técnicas e práticas de resistência. Chrome e Tor são comparados como espaços enunciativos com regimes distintos de individuação: o Chrome opera dentro de uma lógica extrativista que o Tor permite contornar, e essa diferença técnica tem consequências discursivas concretas.
Aude Seurrat (Université Paris-Est Créteil) e María Inés Laitano (Université Paris 8) publicam em francês Réseaux socio-numériques et frontières du lire/écrire dans la modération des commentaires, análise comparativa da moderação em X, YouTube, Twitch e Instagram. Para as autoras, moderar comentários é regular o ler e o escrever, e cada plataforma o faz de maneira diferente, combinando automação algorítmica e decisão humana em proporções que variam conforme o contexto.
Letícia Moraes (UFPB) e Silvia Maria de Sousa (UFF) aproximam a semiótica discursiva do problema da dataficação em IA generativa e construção de sentido: abordagem semiótica a partir do Sul Global. O texto examina como modelos de IA generativa participam da produção de sentido e propõe que esse exame seja feito a partir de uma posição enunciativa própria, não derivada dos centros hegemônicos de produção teórica.
Evandra Grigoletto (UFPE), Silmara Dela Silva (UFF) e Solange Maria Leda Gallo (UNISUL) analisam, pela Análise de Discurso pecheutiana, a proposta do governo federal brasileiro de julho de 2024 em “IA para o bem de todos”? Discurso, sujeito, contradição. A formulação “IA para o bem de todos” é tratada como uma tomada de posição discursiva que carrega contradições internas ligadas ao modo como o sujeito se constitui no discurso sobre tecnologia.
Ramon Miranda e Ana Maria Sá Martins (UEMA), em A representação discursiva de Yglésio Moyses (PRTB) no podcast “Abrindo o Verbo”: uma análise sob a ótica da ADC, aplicam a Análise de Discurso Crítica a um podcast de entrevistas políticas. O recorte regional, um político maranhense, ilumina como representações discursivas se constroem em circuitos que escapam ao escrutínio da grande imprensa.
Esses seis textos compõem o dossiê Mídias, Tecnologias e Inteligência Artificial, organizado por Silmara Dela Silva, Evandra Grigoletto e Solange Maria Leda Gallo, que segue aberto a novas contribuições.
Já no dossiê temático Linguagens, Raça, Gênero e Interseccionalidade em Luta por Direitos, o ensaio de Júlio Araújo (UFC) propõe um conceito com o qual todo o conjunto anterior dialoga: em Textualidade algorítmica e necroalgoritmização, Araújo argumenta que as exclusões produzidas por sistemas de IA em torno de raça, gênero e sexualidade são constitutivas do funcionamento desses sistemas. Para dar conta delas, propõe o Triângulo Discursivo da Textualidade Algorítmica, que distingue texto-prompt, texto-algoritmo e texto-resposta como instâncias com regimes próprios de produção e leitura.
Livia Oushiro (UNICAMP) publica Reanálise de vogais médias pretônicas com o alinhador forçado MFA, terceiro protocolo de Relato Registrado do dossiê Reprodutibilidade em Linguística, depois dos protocolos de Godoy, Ananias e Sidhu sobre iconicidade lexical e de Alves et al. sobre segmentação prosódica automática com aprendizado de máquina. O estudo vai replicar análises sobre a realização das vogais /e/ e /o/ pretônicas na fala de migrantes nordestinos em São Paulo, usando o Montreal Forced Aligner em substituição à segmentação manual. O protocolo está registrado publicamente desde o início; os resultados e a análise completa serão publicados na sequência.
O dossiê Compartilhamento de Dados Linguísticos, organizado por Juliana Bertucci Barbosa, Marcia dos Santos Machado Vieira e Raquel Meister Ko Freitag, ganha sua apresentação. O texto propõe que o compartilhamento de dados deixe de ser tratado como prática individual e passe a ser pensado como decisão coletiva de infraestrutura: quais metadados, que licenças, como garantir que os dados permaneçam acessíveis e reutilizáveis ao longo do tempo.
Pedro Perini-Santos (UFVJM) contribui para o dossiê com Linha Verbal Infantil: 21 meses de expressão verbal de uma criança brasileira. O corpus, desenvolvido no âmbito do CIL (Corpus Infantil Longitudinal), registra 587 ocorrências verbais em 210 excertos de interação entre uma criança, sua mãe e sua avó, numa cidade do nordeste de Minas Gerais, de março de 2016 a fevereiro de 2018. Cada ocorrência é categorizada segundo uma taxonomia das diáteses verbais do português brasileiro. Os dados estão disponíveis com licença aberta no Zenodo.
A revista passou a integrar o grupo de periódicos que endossam a Stockholm Declaration, publicada por Bernhard Sabel e Dan Larhammar na Royal Society Open Science. O documento propõe ações em quatro frentes: devolver o controle da publicação científica à academia, valorizar qualidade em vez de quantidade, criar mecanismos independentes de detecção de fraudes e fortalecer políticas de integridade científica. CadLin já opera com acesso aberto diamante, revisão por pares aberta, depósito de preprints e exigência de declarações sobre dados, materiais e código.
Está aberta a chamada Associações Científicas em Linguística: história, impacto e perspectivas atuais, organizada com o endosso do CIPL (Comité International Permanent des Linguistes). O dossiê convida presidentes, ex-presidentes e outros representantes formais de associações, sociedades, academias, comitês e redes de pesquisa a produzir, em formato de Perspectiva Crítica, reflexões analíticas sobre a história dessas organizações, suas formas de atuação e os desafios que enfrentam hoje. Submissões até 30 de outubro de 2026 em cadernos.abralin.org.
Seguem recebendo submissões:
Das Raízes aos Novos Rumos: A Trajetória da Dialetologia Brasileira
Historiografias Contemporâneas dos Estudos Linguísticos e do Ensino de Línguas
Prazos e diretrizes em cadernos.abralin.org.
CadLin adota o modelo de Acesso Aberto Diamante: autores não pagam para submeter ou publicar, e leitores não pagam para acessar os artigos. Saiba como submeter.
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