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Cadê Anderson Lopes · Dec 12, 2023

[007] O que faz sentido

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Anderson Lopes · Cadê Anderson Lopes

Para ler ouvindo: Vida Boa, Banda Eddie

Miguel trabalha numa multinacional. Miguel é meu amigo mais rico. Além de vir de família rica, ainda ganha uma nota num alto cargo que lhe dá bastante status. Existe um vazio em Miguel. Ele sabe que tem. Um vazio que não sei explicar. Nem ele. Miguel de vez em quando chora.

Marcela, também minha amiga,  é concursada. O concurso era o sonho da família de Marcela. Talvez também, o dela. Marcela sonha em viajar mais, mas tem que aguardar (trabalhando) 12 meses inteiros, para ter seus 30 dias de férias. Marcela tem medo que privatizem o órgão que ela trabalha. Marcela chora toda semana.

Arthur é um artista vivendo o melhor momento da carreira. Arthur também é meu amigo. O cara é conhecido em todo os estados, respeitado por outros grandes artistas e tem uma agenda com muitos trabalhos. Arthur chora toda semana. Para além da carreira de sucesso, existe uma vida amorosa com relacionamentos complicados e uma saúde mental cheia de BO, carregada de traumas da infância, adolescência e alguns mais recentes.

A constatação é a de que meus amigos que têm mais grana, status ou estabilidade, estão com os mesmos BO de saúde mental que meus amigos mais lisos.

Então eu fico pensando; 

Qual é a onda?

Eu já pensava nisso quando me perguntava:

O que acontece após a cicloviagem? 

Após Portugal?

Após a Tailândia? 

O que acontece após o casamento, após o concurso público, após a compra do apartamento?

Aqui na Ásia conheci alguns viajantes, e tu pensa, que vida foda, os caras e as mina viajando esses paises tudo! Mas tenha certeza, essas pessoas também estão com seus BOs, com suas faltas, com suas fugas e seus sonhos de ter sei lá, um relacionamento, um pai presente, um corpo no padrão de beleza.

Tá todo mundo olhando no Instagram e sonhando com a vida do outro. Com as coisas que o outro tem. Tem ninguém pleno não.

E vou te falar:

Eu acho a minha vida arretada, e assim como Marcela, Miguel e Arthur, eu também choro. Em alguns momentos mais, em outras fases menos, mas choro.

Por outro lado, acredito que geral tá em busca de um sentido. De identificar qual é mesmo, a onda da vida, e de identificar o que realmente traz felicidade.

To também nessa caminhada, e identifiquei três coisas que dão sentido a minha vida. Nem sempre foram elas, mas hoje, com 40, posso dizer que:

A escrita, sem dúvidas, é uma delas. É minha forma de me expressar, com um bonito agravante; que a partir da escrita eu crio conexões com as pessoas. Eu sou apaixonado por contar histórias, e fico realizado quando de alguma forma toco quem ta lendo. Aí você interage comigo, comenta, me manda um email, uma mensagem, e a gente conversa sobre. Daqui a pouco estamos falando sobre outros assuntos, daqui a pouco tamo tomando uma cerveja, rindo, chorando juntos, se abraçando bêbados… calma Anderson… rsrs me empolguei.

Importante lembrar que essa lista não está em ordem de importância.

Outra parada que traz sentido à vida, que traz muita felicidade, identifiquei quando conheci Luísa na segunda-feira do último carnaval em Olinda. É o Amor. Além de ter muita boniteza nisso tudo, o sinto como algo grande, e essa grandeza, talvez, seja pela reciprocidade de amar em níveis parecidos.

Desde que nos conhecemos minha vida mudou para melhor. A gente cuida um do outro com muito carinho e tem aquele desejo do fundo do coração, de ver o outro feliz. Essa troca, esse aprendizado que é o viver a dois, na leveza que está sendo. Isso dá muito sentido à vida.

Ah, e com o plus de a gente gostar das mesmas coisas, de viajar, de música, de escrever, de um monte de coisas em comum. Sem isso, ainda assim seria amor, mas com essas sincronicidades, é melhor ainda.

E o terceiro ponto, que também é algo muito pessoal, meu, do Anderson, é esse tesão/dependência da liberdade. De ir, vir, de ser quem sou. De ser dono do meu tempo. Talvez por ser ariano (ninguém manda num ariano), talvez por ter TDAH, mas liberdade é uma parada quase que inegociável. Isso pode explicar o fato de eu quase nunca ter trabalhado para os outros, em empresas de terceiros.

Então é isso.

Amor, escrita, liberdade.

E devem existir outras coisas que ainda vou descobrir.

Mas me conta aí;

E pra tu, o que traz sentido à vida?

O que te deixa feliz? 

—----

Aproveitando esse papo sobre liberdade, deixa eu te contar uma história.

O pássaro livre tem autonomia e voa para onde quer. É dono do seu tempo, mas com o ônus de ter que sair diariamente, em busca de alimento. 

Já a ave que vive em gaiola, apesar de presa, normalmente tem o privilégio de ter comida na mesa todo dia.

Hoje eu me peguei com vergonha por não estar trabalhando, porque desde criança a gente é ensinado a sonhar com a gaiola e que o trabalho dignifica o homem. 

Eu, que sempre sonhei em viver isso que tô vivendo, de viajar, com tempo, com liberdade, sem ter que trabalhar, passei dias sofrendo, sonhando com gaiola. E mais; sem precisar. 

Logo eu, que tinha Economia do Ócio como livro de cabeceira.

Logo eu que sempre fui crítico desse sistema onde não somos donos do nosso tempo.

Na faculdade, indo no caminho oposto dos meus colegas de turma, e chateando professores, no curso de Administração/Marketing, meu TCC foi uma crítica ao trabalho e ao consumo.

Eu deveria estar orgulhoso de mim por estar vivendo tudo que sonhei.

Tô vivendo o privilégio de passar esse tempo só viajando e tô aqui, sonhando com a gaiola e me culpando por não estar trabalhando.

Tá na hora de voltar para terapia, né?

Mas na moral, isso me pegou de um jeito bem pesado, me deixando numa bad, que só melhorei agora. Acho que em breve eu falo mais sobre isso. De como essa nossa formação cultural é carregada dessas coisas, e o dano que trás para a cabeça e para a nossa forma de viver.

—-

E pra finalizar, deixo aquelas dicas do que estou ouvindo, lendo ou consumindo.

La Va!:

1, Posso começar pelo @RotaSonora, que é o projeto que eu e Luísa criamos com o objetivo de falar de música e mostrar os sons que vamos vendo em cada cidade durante a viagem. O projeto, que tinha ficado parado porque o Anderson aqui não estava com a cabeça boa, volta agora com muitos vídeos lindos e interessantíssimos, de músicos e bandas que vimos nestes meses. Então segue lá no Instagram. Dá essa moral para a gente. Em breve devemos ir para outras redes também.

2. Meu amigo Eduardo Sarmento, que  era um poeta enrustido, e agora pode ser considerado um poeta que saiu armário, agora ta publicando seus escritos no instagram, e óh, é tanta boniteza. Se eu fosse tu, corria lá. O bicho é bom com as palavras. O Ig dele é  @Edupsarmento.

Então é isso, minha jóia.

To feliz demais que tu leu isso tudo e chegou até aqui.

Vou ficar mais feliz ainda se tu divulgar essa newsletter para outras pessoas conhecerem. 

Fica por aqui a edição desta semana.

Que a semana seja leve por aí.

Aquele abraço!

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Read the original on cadeandersonlopes.substack.com

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