Como boa louca dos hobbies, apaixonada por passatempos, comecei três cursos novos no último mês. Um deles foi um curso de pop-up. Nem devia ser novidade. Já fiz algumas zines de dobraduras e sempre fui apaixonada por origami e pop-up. É algo que eu queria há algum tempo, mas toda vez eu adiava porque parava e pensava: calma, você já faz coisa demais. Eu tento me conformar de que eu sou uma pessoa que gosta de fazer um pouco de cada coisa. (Existe passatempos demais?) Vejo histórias de pessoas que se dedicaram a uma única coisa a vida toda e parece tão intencional e bonito, fico indecisa se não tô fazendo errado atirando pra tanto lado. Mas toda vez que eu tenho ser uma só, algo dá errado. Então eu vou e começo outra coisa.
Fiz algumas pequenas experimentações e a cabeça pipoca de ideias. Não sei aonde isso vai dar. Estou me divertindo.
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Logo depois da ida a Pacoti, fui ao Crato para o casamento de uma amiga querida e meu amor pelo Ceará foi devidamente renovado. Fico triste de, depois de morar em tantos lugares, ter acabado com um sotaque de lugar nenhum. Nasci em Alagoas, cresci no Ceará, moro em Pernambuco. Em todos os lugares me perguntam de onde eu sou. Me sinto legitimamente nordestina, mas isso é tão vago.
No Centro Cultural do Cariri, uma exposição de encher os olhos com obras de mestres da cultura local. Uma parede em particular me capturou por um bom momento: os panôs de Mestre Griô Fanca. Costureira, bordadeira, bonequeira e griô, Mestre Fanca borda em pano o que chama de história em retalhos e que eu leio como história em quadrinhos.
Em Retalhos de uma vida, simples comum e verdadeira, Dona Fanca conta sua vida por meio do tecido e da agulha. Em outras peças, conta a história do Juazeiro, a história de Canudos, a história do Padre Cícero.
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Voltei pra casa querendo bordar. Curiosamente, eu tinha justo acabado de terminar um bordado. Para presentear meus amigos que casaram, bordei um clique clássico dos dois. De quando estavam começando a namorar, quase 15 anos atrás… Usei um único ponto, estava fora de prática e não bordava há quase um ano, quando aliás bordei outros cinco presentes. Deu saudade. Depois de ver o trabalho de dona Fanca, minha Nossa Senhora das Agulhas, fiquei cismada. Assim que cheguei em casa, comecei um novo projeto. Vai demorar bastante, mas não tenho pressa.
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Estou fazendo uma disciplina de Crochê na universidade. Quando conto isso pra alguém, a pessoa fica imediatamente incrédula. Realmente, não é um curso sério, o de Artes. Como fica uma matéria dessas no histórico? Crochê, 60 horas? Eu respondo bem orgulhosa: Sim! A disciplina se chama Arte Têxtil, e a nomenclatura é uma questão que abordamos em aula. Poderia se chamar Crochê, ou Artesanato, mas não, não pode. Não convém ter uma matéria assim no histórico, então fica Arte Têxtil que é mais adequado. Estou fazendo outras matérias esse semestre, mas Crochê é definitivamente minha favorita. Em parte porque eu já sabia os pontos básicos do crochê e já fiz alguns projetos, então recebi elogios gratuitos da professora logo nas primeiras aulas. Nada como ter validação externa! E também porque praticamos em sala de aula a essência mais profunda da arte têxtil: o tecer em roda, tricotando com as palavras enquanto crochetamos com as mãos. Uma tarde, a professora estava explicando como se daria a parte seguinte da aula e boa parte da turma estava de ouvidos atentos às explicações e olhos no projeto de crochê. A aula perfeita.
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Terminei minha primeira blusinha de crochê. Até gravei um vídeo de look do dia de tão orgulhosa que fiquei. Fazia um tempo que eu não terminava um projeto, mas, depois da validação em sala de aula, cheguei em casa e imediatamente retomei a blusinha que tinha começado ano passado.
Faltava só o acabamento da barra. O que acontece que a gente deixa projetos pela metade, ou assim tão perto do fim? Tenho lembretes mentais de todos os meus projetos inacabados, e alguns ainda acredito piamente que um dia vou terminar. Muita coisa eu faço por teimosia.
Em sala de aula, falamos de processo, com um enfoque particular no têxtil. É comum que as peças de bordado, crochê, renda, demorem meses ou mesmo anos para serem concluídas. É um fazer demorado e minucioso, um pequeno erro pode resultar num longo desfazer e refazer de pontos. O encanto no processo é mais importante do que terminar.
Eu gostei muito de fazer a blusinha toda, mas terminá-la? Tinha esquecido.
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Me volta o dilema recorrente: eu faço coisas demais? Pois ainda tem tanta coisa que eu não faço. Coisas que eu ainda quero fazer, mas deixo sem pressa pro futuro. Coisas que eu sei que não vou querer nunca fazer. Coisas que eu já fiz e não preciso fazer mais. Eu não posso estar fazendo coisa demais se nem é tudo o que eu queria estar fazendo.
Conversando com minha amiga Teresa enquanto crochetamos, ela me dá corda: Jana, o dia tem 24 horas. São muitas horas! Dá pra fazer um pouquinho de cada coisa.
Penso no porquê de eu querer fazer tanto disso. Que feitiço é esse que me faz voltar sempre para as dobraduras, para o têxtil, para o desenho?
Tentando dar uma resposta a mim mesma, recorri às dobraduras e fiz a zine abaixo.
Fiquei alegremente surpresa com as respostas à última edição da newsletter. Eu tava com receio de compartilhar o texto, não sabia se vocês se interessariam num assunto tão particular e diferente do que eu costumo trazer por aqui, ainda que se conectando com muita coisa. Fico pensando que se eu mesma tenho tantos interesses por tanta coisa, também é herança de família.
Obrigada por estarem aqui acompanhando todos os meus interesses. Boas-vindas a quem chegou no último mês, pode ir ficando à vontade, tirando os sapatos e sentando no sofá. Tem muita coisa pra folhear. O tempo é elástico, então não posso prometer uma data de envios recorrente, mas costumo enviar às quartas-feiras, uma vez por mês. As edições vem acompanhadas de quadrinhos, ou quem sabe bordados, dobraduras, desenhos, receitas.
E vocês, fazem algum trabalho manual, fazem mágica com as mãos? Me contem se esse bichinho também mordeu vocês. Ou talvez a sua forma de magia seja outra. São muitas e eu não conheço todas.
Abraço,
Jana
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