Desde o ano passado, venho recebendo convites para trabalhar com desenho e tenho tido trabalho todos os meses. Nos meses em que não recebi convites, me dediquei aos meus projetos pessoais e participei de feiras. Recebi alguns que precisaria recusar por falta de agenda, e até recusei um ou outro me confortando em repassar para amigos, mas também tratei de encaixar nas brechas do tempo. Parece bom demais pra ser verdade. Estou trabalhando com desenho! Quase nem queria contar pra ninguém, como se falar sobre fosse quebrar um feitiço. Mas a graça mesmo é compartilhar com os outros, não é?
Eu comecei no desenho pelos quadrinhos. Minha primeira leitura foram os gibis da turma da Mônica, como a maior parte dos brasileiros. Depois fui pra Mafalda, depois pros mangás, depois pros quadrinhos europeus, independentes, autobiográficos. Li Persépolis na adolescência e a leitura transformou minha relação com os quadrinhos. Descobri que podia desenhar sobre minha vida como uma garota comum, e seria uma história importante. Sem entender ainda que a história da Marjane Satrapi não era nada comum, essa leitura me deu carta branca pra contar as minhas.
Aos 11 anos, criei minhas primeiras tirinhas, inspiradas no convívio escolar e familiar, e aos 16 anos desenhei meu primeiro quadrinho autobiográfico. Quando expus numa feira meus quadrinhos reunidos em zine pela primeira vez, aos 24 anos, eu era uma apaixonada absoluta pela nona arte. Um dos primeiros comentários que ouvi foi: “Ah, que fofo! Parece desenho de criança” que também virou “Você já pensou em fazer livro infantil? Seu desenho tem tudo a ver!”
Comentários aparentemente gentis que eu rapidamente interpretei como críticas. Naquela pergunta, de uma pessoa de fora, eu só consegui enxergar as camadas do entendimento comum do que é um livro e um desenho infantil. A suposição de que um desenho estilizado e simples é necessariamente infantil, que não pode estar associado a temas adultos ou ser uma leitura para todas as idades. Que era pouco estar associada exclusivamente ao mundo infantil. A Marjane tinha me ensinado que um desenho aparentemente simples pode ser suficiente e excelente para contar uma história completa que pretende ser universal. Hoje entendo que tanto eu como essas pessoas víamos o livro infantil como uma coisa só.
Quadrinistas que eu gosto faziam livros infantis em paralelo aos seus projetos de quadrinhos. Ilustradores que eu amava, como Mariana Massarani, Eva Furnari e Ziraldo, têm sua carreira centrada no livro infantil. Amigas que eu acompanhava na internet desde quando éramos adolescentes apaixonadas por desenho começaram a fazer seus próprios livros infantis. Comprei os primeiros livros da Irena com orgulho e admiração de amiga e fã, mas como alguém que não costumava prestar muita atenção no livro ilustrado. Com Manaus, me encantei pelo formato, pelas cores, pela narrativa. Era para criança e era para uma adulta como eu, que adora livros e adora cidades. Comecei a fazer os cursos da Usina de Imagens e fui me familiarizando com o meio do livro infantil, e entendendo porque chamam também de livro ilustrado. Fui me apaixonando por novos autores e histórias e descobrindo muitos caminhos possíveis. O livro ilustrado, assim como os quadrinhos, também é uma arte sequencial, com quadros que tomam uma página inteira.
Não me sentia tão pronta ou tão perto de ilustrar um livro. Talvez eu nunca tenha me sentido pronta pra nada do que fiz, como a atrasada crônica que sou. Fazer uma coisa pela primeira vez é assustador. Com os cursos que eu tinha feito e alguns testes sabia que era possível, mas fazer é diferente de ensaiar. Eu tinha ilustrado um conto e tinha feito séries de ilustrações no mesmo tema. Mas um livro inteiro é um pouquinho maior que um conto e é diferente de uma série. Eu tampouco tinha experimentado fazer com um prazo e sem a consultoria de professoras.
Nervosa se eu conseguiria dar conta, preocupada que tinham confiado em mim, eu fiquei apavorada. Entendia também que era aquilo que eu estava me preparando e esperando acontecer. Pedi a amigos do ramo e de fora para dar opiniões, sugestões, pitacos e apoio. Nossa visão individual é incompleta e enviesada, temos muito a ganhar com um olhar cuidadoso e interessado em contribuir. Fiz testes, rascunhos, li e reli o texto várias vezes. Nos meses em que desenhei este primeiro livro, fui cultivando o hábito e a disciplina de um projeto longo. A criatividade também é trabalho, e estar dedicada a um fazer artístico também é se comprometer e voltar a ele dia após dia. Fazer um pouco, experimentar, pesquisar quando estiver confusa, descansar se necessário, recomeçar. E o fundamental, a brincadeira.
Enquanto pensava e imaginava a história, enquanto pintava as ruelas, as árvores e as personagens, eu pensava comigo que o que eu estava fazendo ali era exatamente o que eu queria estar fazendo. O que eu tinha ensaiado tanto fazer. Ter mais desenho nos meus dias, ser artista em tempo integral. Eu estava ali pra me divertir. Quanto mais eu me divertisse, mais aquilo ia dar certo.
Juju é uma menina traquina que corre pelas vielas da Mangueira e adora comer manga. Ela é uma entregadora meio bruxa, porque sai distribuindo as marmitas da mãe montada num cabo de vassoura. Pensei de imediato na maior bruxinha entregadora Kiki! Aqui, temos uma homenagem ao carnaval, a Leci Brandão e a nossas mães que tanto nos ensinam. Foi uma bela primeira história pra ilustrar. Juju e as coisas que mamãe lhe ensinou, com texto de Verônica Bonfim, foi lançado mais cedo esse ano pela editora Perabook, e está disponível à venda no site da editora e outras livrarias online. Pesquisando, encontrei até na Estante Virtual, a Praça do Sebo digital que amo frequentar para comprar livros novos e usados, e foi quando vi meu nome e o desenho que eu fiz cadastrado ali que eu fiquei mais emocionada.
Fiz as ilustrações com tinta guache e lápis de cor. Trabalhei uma paleta a partir do contraste entre o rosa e o verde da mangueira, caprichando também em amarelos e azuis. Essas duas foram algumas das minhas favoritas. Todas pintadas em A3 e escaneadas aqui no meu ateliê mesmo.
Com o segundo semestre, veio um outro convite. O Rei da Savana, com texto de Rossana Nunes, é um lançamento de uma editora daqui de Pernambuco que eu já admirava o trabalho e pensava: se um dia eu fizer um livro com eles, eu vou estar no caminho que eu quero... Quando recebi o convite para ilustrar o texto, quase não acreditei que era pra mim mesma. Trabalhei nele no início desse ano e o livro já está disponível no site da CEPE Editora.
Com o personagem principal sendo um leão, pensei imediatamente nas ilustrações da fábula “O leão e o rato” que fiz uns anos atrás, e de que ainda gosto tanto. Não segui exatamente a mesma técnica, mas entendi que além da guache queria trabalhar com recortes e colagem. A colagem se mostrou a técnica necessária pra construir os castelos do verdadeiro rei da savana. Me diverti muito com esse leão esquentado e essa floresta democrática!
Tivemos um lançamento aqui em Recife com oficina de colagem com as crianças. Criamos castelos com colagem e as crianças criaram cupinzeiros mais realistas do que eu seria capaz.
Nesse intervalo entre os livros, ilustrei também algumas vinhetas para o Portal Drauzio Varella e algumas ilustrações para jogos didáticos. Minhas matérias favoritas foram as sobre solidão e celular e envelhecimento ativo. Em maio, participei de uma roda de conversa na Mostra Feitiço para falar sobre o mercado de ilustração junto a Clari Cabral e Guilherme Lira, com mediação de Gabi Araújo. Eu me sinto muito verde nessa coisa toda (“Eu só ilustrei dois livros”, pensei), mas descobri que já tinha um monte de coisa pra compartilhar (“Eu já ilustrei dois livros!”). Esse texto aqui é um compilado do que venho fazendo, em forma de registro cronológico para meu controle pessoal, e também em tom de prestação de contas a vocês que me apoiam. Essa newsletter é um dos meus projetos mais queridos, uma miscelânea de textos, diários, quadrinhos, desenhos, zines e receitas, em que vou construindo o que é mais verdadeiro do meu trabalho, conectando os lados que me compõem.
Embora eu não me sinta nem um pouco tendo “chegado lá”, estou caminhando numa direção. E fiquei pensando nos passos que me ajudaram nesse caminhada. Os convites não chegaram do nada, foram fruto de trabalho, estudo e partilha. Na roda de conversa, pude falar um pouco sobre e entender mais do meu processo criativo e do que estava funcionando pra mim. Como tudo só termina na partilha, aproveito a deixa pra contar aqui pra vocês.
Tudo começou nas…
Zines. Eu comecei divulgando meus desenhos em zines. Pequenos formatos que são simples de reproduzir e circular. Onde pequenas ideias viram um pequeno livro que cresce na mão do leitor. Não precisamos de projetos mirabolantes pra começar. Já tive vergonha das minhas primeiras zines porque são muito amadoras no olhar que tenho hoje, mas afinal eu só cheguei aqui por ter começado em algum lugar.
Feiras. Desde 2022 venho participando ativamente em feiras de quadrinhos e artes gráficas. Levo meus desenhos, me apresento, vendo um pouco e troco bastante. Troco com os visitantes, com outros feirantes e com os amigos que vou fazendo e revendo nas feiras. Aprendo muito! Em algumas feiras, mal vendi o suficiente pra pagar os custos, em outras foi a conta exata pra pagar a passagem caríssima e tudo o que fiz na viagem. Lucro mesmo só em (algumas) feiras em casa. Mas quando a feira paga até os 11 livros que compro na Festa do Livro da USP, dá pra comemorar as férias pagas com trabalho, né? E tem um ganho que não consigo contabilizar em planilhas: as novas pessoas que chegam e os convites que vêm de quem conheceu meu trabalho nas feiras. Um dos livros foi assim.
Aulas. Nesses últimos anos, tenho estudado bastante, dentro e fora da universidade. Em cursos online, presenciais e sozinha. O estudo está transformando meu trabalho, e também conseguindo aproximá-lo daquilo que eu quero que ele seja. Sou uma estudante ótima, o que me ajuda a me manter em movimento. Na verdade, é um esquema de pirâmide, quanto mais estudo mais descubro que tenho coisas pra aprender. Os cursos também servem de vitrine para o nosso trabalho, pois vamos conhecendo outros estudantes e profissionais e tenho boas oportunidades de troca.
Redes sociais. Essa parte é triste, eu queria mesmo era sair delas. Mas uma parte importante da minha visibilidade de fato acontece no Instagram. O consolo: eu não me vejo como uma grande postadora, não faço muitos vídeos nem mostro minha cara diariamente. Odeio falar com a câmera. Tento postar todos os trabalhos que faço, e gravo um ou outro vídeo com narração em off enquanto folheio uma zine que realmente precisa ser vista em vídeo. Não consigo postar meus processos, porque fico à vontade demais para conseguir ficar à vontade atrás de uma câmera. Vou montando um portfólio visual na rede social mais usada, e tem funcionado como um ponto de encontro. É suficiente.
Páginas do caderno. Muito do que criei surgiu no meu caderno. Ali tem as coisas que eu mais gosto de desenhar, as novas ideias, os esboços crus e verdes cheios de potencial. O hábito que tive de desenhar um diário ilustrado por um ano inteiro evoluiu muito minha prática, e entendi que ter uma prática de desenho consistente é um dos motores da criatividade.
A Marjane Satrapi faleceu no início do mês, e o mundo dos quadrinhos ficou bem mais triste. Com Persépolis, ela me fez acreditar no poder da nona arte para contar as minhas histórias. Entendi que um desenho simples pode contar histórias complexas, adultas, com temas e nuances que ultrapassam continentes. Fiquei com vontade de contar as minhas histórias, que também são as histórias da minha família, as histórias que escuto por aí. Peguei os quadrinhos dela para reler desse novo lugar em que estou, agora com 35 anos, só um pouco mais do que ela tinha quando desenhou eles. Nesse exato momento, estou terminando o sétimo semestre da faculdade de Artes. Como trabalhos finais, fiz e estou fazendo: desenhos com giz pastel, autorretratos, uma zine que é um mapa, um manifesto, um jogo, um livreto de costura, um vestido. Depois que eu entregar tudo eu volto aqui pra contar um pouco disso também!
Abraços,
Jana
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