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Cabelo-nuvem · Jul 29, 2026

Diário de viagem: Cordisburgo

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Janaína Esmeraldo · Cabelo-nuvem

Eu sempre levo um caderno em viagens, e nunca consigo ter o hábito de desenhar a viagem. Não parece ter o tempo certo, estou envolta em programações e não consigo começar. Volto feliz com a viagem e chateada de não ter feito um diário. Adoro acompanhar diários e desenhos de viagem como os da Carson Ellis (esta viagem a Fiji é um deleite) e babo nos desenhos e colagens da Ana Matsusaki (que especial esse caderno da Indonésia). Como elas conseguem e o que me atrapalha? Parece que fazem mágica.

Duas coisas eu venho entendendo nas últimas viagens. Primeiro, o ritual, segundo, o tempo. Meu ritual de desenho é desenhar sozinha na minha mesa. É meu lugar seguro, onde controlo todas as condições ao meu redor. Tenho meu espaço, minha bagunça organizada, meu tempo.

Desenhar em trânsito envolve abrir mão desse controle e aceitar as intempéries. Não vou ter todos os meus materiais à disposição. O acaso faz parte do processo e as restrições ajudam na decisão. Tenho que escolher um kit de materiais simples e portáteis, fáceis de transportar e que me estimulem a desenhar. Entender que vou ter que desenhar em outras mesas, ou sem mesa. No dia que cheguei em Cordisburgo, a água da minha garrafa se derramou nos meus cadernos e deixou as páginas todas engelhadas. Um bom ato falho pra desapegar.

Os materiais levados na viagem, “bem objetiva”

Depois, preciso parar o tempo. Desenhar e escrever sobre a viagem significa criar um intervalo para pensar e criar sobre. Uma pausa no café, um momento antes de dormir, um momento ao acordar. Viajando sozinha é mais fácil criar esses momentos, em grupo o ritmo é outro. Mas sempre tem momentos de intervalo que podemos aproveitar. Enxergar essas brechas.

Não gosto de sentir que estou passando mais tempo a escrever sobre a viagem do que de fato viajando… Parece que estou perdendo tempo. Mas como perdendo tempo? Se depois eu não encontraria esse tempo de registrar. A gente volta de viagem e já encontra outro ritmo, outras intenções, outros encontros, deixando os diários inacabados (tenho muitos). Talvez escrever e desenhar durante a viagem seja uma forma de estar mais presente, observando e absorvendo.

Nessa viagem eu me esforcei, consegui fazer três desenhos. Dois eu terminei de colorir em Fortaleza. Fiz mais dois desenhos já em Recife. O mapa? Nem toquei.

Mas vamos lá.

Viajar por Minas Gerais é uma delícia. Delícia no sentido de deleite, prazer, proveito. E no sentido de gostosuras e comilanças.

Fui até Cordisburgo dar um pulinho na Semana Roseana, uma semana inteira dedicada à apreciação da prosa poética de Guimarães Rosa. Eu nunca tinha ouvido falado nessa cidade, nem nessa semana, nem nunca tinha lido Guimarães Rosa. Como eu fui parar ali?

Capa de caderninho artesanal de Denis Akel feito para registrar a viagem, uma colagem do folheto da programação

Minha mãe leu a novela Miguilim no seu grupo de literatura e bordado Iluminuras. Leram a história toda juntas, cento e poucas páginas lidas em encontros semanais durante um ano, o que dá menos de 5 páginas por encontro, para se demorar em cada palavra. Ela foi me narrando os trechos e repetindo as frases favoritas. Cada frase linda que parecia ser tirada direto de um livro de citações, do Pensador, de figurinhas de zap, mas era tudo de um texto corrido completo, capturado por ela.

Depois, a notícia dessa leitura chegou na sua amiga Lourdes, e na sua amiga mineira Raquel, e estas trataram de convidar a todas para celebrar a literatura roseana na sua terra natal. No fim, fomos em sete mulheres.

Os ipês cor-de-rosa estavam floridos para nos receber.

A mesa recheada de fartura e boa companhia.

Pão ou pães, é questão de opiniães.

Nosso primeiro café-da-manhã, na casa de Raquel em Nova Lima
Esse bolo de mexerica de sabor indescritível de bom é feito com a casca

Teve um rebuliço danado na nossa chegada em Cordisburgo. Reservamos uma estadia que poderia ter sido por plataforma, mas acabou sendo pelo zap, a proprietária disse que era mais fácil. Uma casa que cabia até nove pessoas, mas quando chegamos lá ela tomou um susto em nos ver todas. Achou que éramos apenas quatro. Aí depois que saímos pra passear preferiu mandar uma mensagem de zap pedindo mais dinheiro pela estadia de todos os dias. Disse que o marido estava irredutível. Se não, a gente podia ir buscar nossas malas na calçada, que tinha muita gente na fila atrás de estadia.

Aturdidas com a grosseria da hospedeira, tentamos outras pousadas na cidade, mas estava tudo lotado há meses. Nossa estadia mesmo estava reservada desde março! Sabíamos que as pousadas ficavam lotadas e por isso a antecedência. A cidade é pequena. Algumas do grupo quiseram voltar pra BH, outras dormiriam lá mesmo pagando o valor a mais, mas duas achavam inadmissível. Não se sentiam bem-vindas naquele apartamento depois dessa grosseria.

Enquanto isso, a notícia corria na cidade. Um homem compartilhou com a gente todos os contatos de pousadas que ele tinha. O pessoal das pousadas se sensibilizava e indicava novos contatos. Um vereador nos ofereceu de colocar uns colchões num quarto vago. Outra mulher ia arranjar os lençóis e cobertas. Estava frio e éramos muitas, mas iam dar um jeito! Ainda teve quem perguntou: “Quem fez isso com vocês? Foi a Ciclana?”

Na plataforma de aluguéis, no meio da noite, depois de bater na porta de algumas pousadas sem sucesso, encontramos um sítio mais próximo, a meia hora de carro, com vaga para sete. O grupo topava? Topou. O sítio poderia nos receber tão em cima da hora? Mandamos mensagem. A dona respondeu que estava sujo, que era melhor pro dia seguinte. Explicamos que não tínhamos onde dormir. Ela se compadeceu, ia chamar uma faxineira no dia seguinte e praquela noite podia pelo menos arrumar as camas, nós tínhamos cobertores e toalhas? Não tínhamos. Ok.

Fomos pra lá, dirigindo às dez horas da noite pela BR pra chegar num endereço misterioso. A proprietária deixou a porta aberta.

Chegar lá foi uma aventura noturna entre estradas e retornos, mas às vezes as linhas tortas são as certas. O sítio tava sujo mesmo e faltou lençol e cobertor na primeira noite. No dia seguinte, organizando melhor as dormidas, descobrindo os jardins, tomando café embaixo dum caramanchão de jade, nos acomodamos melhor do que a encomenda. Nesse sítio fomos bem mais felizes do que seríamos no apê da Ciclana.

A casa das sete mulheres. Da esquerda para a direita e descendo a escadinha: Lourdes, Paula, Sandra (Coleguinha), Nohemy, Gema (minha mãe), Raquel e eu

O sertão é confusão em grande e demasiado sossego.

A roça era um lugarzinho descansado de bonito…

Na cozinha-jardim organizamos uma exposição dos bordados que minha mãe fez com as frases do Miguilim, expandindo a Semana Roseana até nossa pousada.

O evento é do tamanho da cidade. O sertão é do tamanho do mundo.

Toda noite, assistíamos ao Grupo Miguilim fazerem sua narração de estórias de Guimarães Rosa. Aprendendo os textos de coração, interpretando seu significado, as crianças da cidade, os miguilins, compartilharam com a gente trechos dos livros. Teve o julgamento de Zé Bebelo, Miguilim com e sem o Dito, a festa de Manuelzão… Também vimos uma linda interpretação do encontro de Riobaldo e Diadorim musicado no show Som de passarim do Quarteto Estúrdio. Num almoço, fizemos uma leitura coletiva de uma das primeiras estórias, nós, As Miguilinas, lendo Sorôco, sua mãe, sua filha.

Minha mãe procurava buritis por toda parte, queria tirar uma foto para bordar o seu.

Os passarinhos são assim, de propósito: bonitos não sendo da gente.

Para os 70 anos de Grande Sertão: Veredas, a Casa Museu Guimarães Rosa estava com uma exposição de setenta frases. Frases pintadas a mão em cores vibrantes, umas do lado das outras como um grande mosaico de citações. Ô autor danado pra escrever frase bonita. Descobrimos que o ateliê do artesão era ali do lado, em cidade pequena todo mundo é vizinho. Artista, artesão e colecionador, Brasinha abre as portas do seu ateliê Recordança pra quem quiser visitar. Recolhendo placas metálicas em ferro-velho e garimpando antiguidades por aí, ele é um colecionador de trens e de citações.

Fizemos as honras ao rei Cupim. Vi cupinzeiros por toda parte! Sinal de saúde daquele sertão.

Na cidade, além da casa de Guimarães Rosa, tem também a Gruta de Maquiné, onde fizemos um passeio de uma hora dentro do santuário de pedra.

Ah, a gruta! Sabia que as estalagmites são gotinhas d’água que vão pingando ao longo de dias, meses, centenas, milhares, milhões de anos? As chuvas de fevereiro estão chegando aqui na caverna agora em julho, e vimos alguns pingos caírem… bem… devagarinho…

No fim do passeio, o guia apagou todas as luzes e ficamos em silêncio no escuro das profundezas da Terra por alguns segundos, meditando sobre os mistérios da vida e do universo. Tentamos, porque logo algumas pessoas foram farfalhando suas coisas, tossindo, cochichando. É estranho o silêncio.

A gente sabe que esses silêncios estão cheios de mais outras músicas.

De noite, dava de ver as estrelas. Reencontrei o Cruzeiro do Sul e pensei ter visto as Três Marias. Em grupo aprendi a achar um escorpião no céu.

Também tinha IA por toda parte. A contrapartida…
O manto do vaqueiro, obra coletiva organizada por Beth Ziani

Peguei spoiler de Grande Sertão: Veredas neste diorama do livro, que representa cenas selecionadas. Se você não tiver lido o livro como eu, resista a ler a legenda.

Willi de Carvalho

Eu disse que nunca tinha lido Guimarães Rosa antes de viajar, mas foi mentira. Tinha lido um único conto, em sala de aula, A Terceira Margem do Rio. Já reli o conto algumas vezes, ele me fascina. Desdenho e admiro a busca pela terceira margem.

De lá fomos a Belo Horizonte e tive a grande sorte de chegar no dia do Festival Nuh. Dei uma passada com minha mãe e as duas nos encantamos com os impressos. Na saída, ela disse a um expositor: “Acho que a revolução pode começar aqui.”

Passeamos pela cidade com muitas caminhadas subindo e descendo ladeira. Comendo pão de queijo e experimentando as bebidas locais: café, refrigerante de jabuticaba e vinho mineiro. Batemos ponto no CCBB para uma exposição imersiva de Marcelo Xavier. Demos a sorte de pegar a abertura dos 150 anos de Joaquín Torres García. Eu pedi pra ir numa loja de materiais de arte e minha mãe numa de bordado. Eu comprei pincéis e réguas e ela tesouras. Compras na cidade grande do Sudeste das matutas do Nordeste.

No Espaço do Conhecimento UFMG, uma programação rosiana: fomos numa sessão do planetário inspirada num conto de Guimarães Rosa. Que estrelas avistamos na noite do sertão? Lá estavam o Cruzeiro do Sul, um grande navio, as Três Marias e um aglomerado de sete estrelas num espaço mínimo. Não vimos o escorpião, aprendi que ou vemos a constelação de Escorpião ou vemos a de Órion, que na mitologia grega é morto por um escorpião. E as Três Marias estava à vista: a corda, a pérola e o cinto do cinturão de Órion.

“Ver o fim da noite, volta das quatro — com as três estrelas maiores e mais brilhantes quase rumo a rumo na cumeeira do céu, e o Cruzeiro pendente na beira do sul, subindo uma braça, enquanto o sete-estrelo e as três-marias já desciam muito, descambando para o poente e pelo norte — e se madrugava, na Lagôa-de-Cima.”

A Estória de Lélio e Lina, em Corpo de Baile

Nos andares abaixo do planetário, visitamos a exposição de longa duração Demasiado Humano, que tem toda a explicação científica da origem do mundo pelo Big Bang e o belo espaço Sonhar a Terra que traz a roça como mãe do mundo. Minha mãe, que trabalha com agroecologia e mulheres camponesas, ficou absolutamente encantada. Um espaço de conhecimento científico vinculado à universidade com saberes tradicionais e contemporâneos.

Bordado das mulheres do Quilombo do Curtume

Ainda fomos em Inhotim, um passeio maravilhoso e terrível. Não dá pra ver tudo. Eu nunca sei quando vou conseguir voltar. Queria dormir ali escondida pra visitar um dia a mais. Alguém já tentou acampar ali? A uma hora do parque fechar descubro que de modo algum posso deixar de ir numa obra que está no lugar mais longe de todos. Era uma obra com um microfone subterrâneo que escuta a Terra. Quero me perder no jardim e descobrir outras obras que eu nem sabia que precisava ver. Não me parece correto dar dicas de museu, cada pessoa vai ver aquilo de uma forma e o que nos arrebata é variável, então também não costumo pesquisar o que é indispensável antes de ir. Se eu pudesse ia no Inhotim uma vez no ano. É a minha Disney. Quase no fim do passeio, sentamos pra apreciar um jardim e encontramos ali, do ladinho da gente, o buriti procurado desde o começo da viagem.

A origem da obra de arte, Marilá Dardot
Minha mãe é um ícone fashion & acadêmico
Comi esse maracujá de colher, na sua própria cuia

Voltei com muita ideias pra minha rotina. Viajar é bom, voltar pra casa é ainda melhor. Depois de Minas ainda dei um pulinho em Fortaleza. É meio do ano mas tô sentindo agora aquela energia de recomeços, vocês também sentem?

A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.

Felicidade se acha é nas horinhas de descuido…

Abraços estrelados,

Jana

Antônio Cícero

Essas e todas as frases em itálico ao longo do texto são de Guimarães Rosa.

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Read the original on cabelonuvem.substack.com

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