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Cabelo-nuvem · Apr 17, 2025

Como parar o tempo?

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Janaína Esmeraldo · Cabelo-nuvem

O tempo não corre nem voa, ele passa rápido como um estalo. Por aqui, parece que tudo tem passado rápido demais e eu não dou conta das coisas que eu quero no meio tempo. Tento entender porque essa sensação de tudo estar tão acelerado, se sou eu que tô querendo sempre fazer mais coisa do que as horas no dia, se é porque perco muito tempo no transporte público, se tem a ver com estar sempre atrasada, se é a velocidade da máquina se sobrepondo à velocidade da natureza ou se o criador acelera mesmo as coisas quando os tempos estão ruins (já ouviram isso?). Se eu tivesse o controle remoto da vida, eu jamais usaria para acelerar, eu pausaria repetidamente, tentando encaixar todas as outras coisas que eu quero fazer nessas brechas. Ou tirando um tempinho pra descansar sem culpa.

Minha terapeuta faz um exercício comigo em que ela coloca todas as almofadas do consultório no meu colo. Todas as almofadas são quatro, mas almofadas grandes que ocupam meu colo inteiro e empilhadas ultrapassam minha cabeça. Ela me pergunta como eu me sinto. Não é confortável, e ainda assim não sinto nenhuma vontade de tirar as almofadas do colo. Quero abraçá-las todas e mantê-las comigo. Parece que eu deveria querer tirá-las, mas não consigo.

Se o tempo não volta, nem para, como posso suspendê-lo para criar condições em que parece que ele parou? O que nos ajuda a desacelerar o tempo?

Já aconteceu de o tempo passar mais devagar. Nessas situações eu percebi que, na verdade, o tempo pode quase parar. Na pandemia, cinco anos atrás, vivemos a suspensão máxima da realidade que conhecíamos. Me lembro com nostalgia de momentos de contemplação vividos durante a quarentena. Apreciar uma massa de pão crescer, comer biscoito com chá no meu jardim de inverno, sair pra andar de patins sozinha às margens do rio. O tempo andava diferente. Eu estava em casa, isolada, cultivando um pequeno ecossistema de paz para esperar aquilo tudo passar antes de voltar à normalidade. Havia uma serenidade que só pôde ser cuidadosamente manufaturada diante do extremo caos. Mas tal qual o uso das máscaras, o que poderia ser um aprendizado não parece ter persistido no pós-pandêmico. Faz tempo que não acesso aquela contemplação específica. Depois da pandemia, meti o pé no acelerador para tirar o atraso. E ainda assim anos depois me sinto constantemente atrasada. Semana que vem vai ser mais tranquila?

Ano passado vi o filme Dias Perfeitos, que se tornou instantaneamente um dos meus favoritos. O Hirayama consegue a suspensão rotineira perfeita, vive sem pressa, presente no presente. Uma pessoa que está claramente em dia com sua vida, não porque zerou a lista de deveres e obrigações, mas porque decidiu viver um dia de cada vez. Agora é agora, depois é depois. O que o Hirayama viveu para chegar àquela rotina confeccionada com tamanha delicadeza e paciência? Passou por abismos, areias movediças, chuvas de meteoros e engarrafamentos de carros?

Penso como posso ser mais Hirayama no meu dia-a-dia. O texto da Andanças conversa muito com a forma como eu percebi o filme. Podemos aprender a parar sem ter que frear à força? São muitos estímulos externos nos empurrando a ir cada vez mais rápido, dar conta de cada vez mais coisa, mas por que estamos tentando tanto nos igualar à velocidade das máquinas? Somos bichos… Gosto do que o Ailton Krenak diz de não fazer sentido falar em aprendizado pelo sofrimento. Depois da pandemia, não me sinto mais sábia, mais madura, mais esperta. Me sinto insegura, frágil, ansiosa, desesperançosa. Talvez eu tenha desaprendido mais do que aprendido. Não preciso estar em crise para saber que não é ali que eu quero estar. Quando vivo um momento de paz, posso aprender que quero mais daquilo. Aprender a parar o tempo.

Essa pequena zine é um guia-lembrete-alerta. Por enquanto, ainda estou constantemente tentando empilhar tudo o que eu quero e tenho que fazer no meu colo… Ainda bem que temos um dia após o outro. Se eu conseguir tirar as almofadas de mim, eu poderia até me deitar em cima delas.

Abraços demorados,

Jana

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