antes da fotografia, a pintura era guardiã da representação do real.
retratava rostos, fixava paisagens, registrava feitos.
em 1826, Nicéphore Niépce grava view from the window at le gras.
pela primeira vez, o real* se fixa numa chapa fotossensível.
a pintura começa a perder sua função de representar fielmente* o mundo.
*era a percepção de real da época.
Robert Cornelius fez em 1839 o primeiro autorretrato fotográfico conhecido — considerado o primeiro “selfie” da história.
alguns tentaram competir em nitidez ou exclusividade.
outros desistiram.
uns poucos atravessam o caos:
monet e a luz,
picasso e as formas,
dalí e os sonhos.
não foi a pintura que morreu.
foi uma função* que se deslocou.
e quem pode navegar nesse deslocamento abriu caminho para outras linguagens.
(*função social, cultural e mercadológica - não a função da arte em si)
Walter Benjamin escreve a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica.
lá ele descreve como a cópia em massa dissolve a aura — o “aqui e agora” irrepetível de uma obra.
mas também liberta a obra do pedestal.
permite que circule, que seja coletiva.
o cinema cresce nesse espaço.
não só pela técnica, mas porque havia criadores dispostos a narrar com ela.
a aura muda de lugar,
mas a voz de quem cria continua sendo o fio que conduz.
em Cannes, Wim Wenders pergunta a cineastas:
“o cinema está chegando ao fim?”
a televisão e o vídeo doméstico pareciam condenar a sala escura.
uns falavam em morte, outros em metamorfose.
ninguém tinha certeza.
o cinema não morreu.
mas se deslocou.
e de novo foram os criadores — com suas vozes e invenções — que encontraram maneiras de narrar no meio da incerteza.
a pergunta retorna.
dessa vez, com o streaming, o smartphone e as redes sociais.
o cinema perde parte da aura da sala escura.
o ritual coletivo cede lugar a consumos fragmentados, portáteis, acelerados.
ao mesmo tempo, outras formas florescem:
séries como romances modernos, filmes lançados direto em catálogo online, vídeos curtos começam a ser viralizados em segundos.
é caótico.
mas quem narra esse caos cria novas linguagens.
o narrador é o ponto que ainda organiza o excesso.
agora é a IA.
não apenas copia ou reproduz,
mas também consome conteúdo, organiza e cria.
textos, imagens, vozes, músicas.
em escala industrial.
o que perde valor é o genérico:
conteúdo sem corpo, sem voz, sem narrador.
o manual, o repetitivo, o artesanal — ainda têm força, quando atravessados pela interpretação de quem cria.
não é só o que se faz, mas quem dá sentido ao que foi feito.
a técnica muda, substitui funções, mas a importância do narrador permanece.
hoje, não sabemos o que a IA vai consolidar.
mas sabemos que o fio continua o mesmo:
cada transição desloca funções, abre espaço e deixa perguntas sem resposta.
-
e mesmo em meio à incerteza,
a criação continua.
e quem cria importa.
com carinho
lucas morello
criador no bota na rua

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.