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Cartas do Bota na Rua · Oct 1, 2025

revoluções tecnológicas, criação e IA

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Lucas do Bota na Rua · Cartas do Bota na Rua

antes da fotografia, a pintura era guardiã da representação do real.

retratava rostos, fixava paisagens, registrava feitos.

em 1826, Nicéphore Niépce grava view from the window at le gras.

pela primeira vez, o real* se fixa numa chapa fotossensível.

a pintura começa a perder sua função de representar fielmente* o mundo.

*era a percepção de real da época.

Robert Cornelius fez em 1839 o primeiro autorretrato fotográfico conhecido — considerado o primeiro “selfie” da história.

alguns tentaram competir em nitidez ou exclusividade.

outros desistiram.

uns poucos atravessam o caos:

monet e a luz,
picasso e as formas,
dalí e os sonhos.

não foi a pintura que morreu.
foi uma função* que se deslocou.

e quem pode navegar nesse deslocamento abriu caminho para outras linguagens.

(*função social, cultural e mercadológica - não a função da arte em si)

Walter Benjamin escreve a obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica.

lá ele descreve como a cópia em massa dissolve a aura — o “aqui e agora” irrepetível de uma obra.

inscrição de Benjamin na biblioteca nacional da França

mas também liberta a obra do pedestal.

permite que circule, que seja coletiva.

o cinema cresce nesse espaço.

não só pela técnica, mas porque havia criadores dispostos a narrar com ela.

a aura muda de lugar,

mas a voz de quem cria continua sendo o fio que conduz.

em Cannes, Wim Wenders pergunta a cineastas:

“o cinema está chegando ao fim?”

a televisão e o vídeo doméstico pareciam condenar a sala escura.

uns falavam em morte, outros em metamorfose.

ninguém tinha certeza.

o cinema não morreu.

mas se deslocou.

e de novo foram os criadores — com suas vozes e invenções — que encontraram maneiras de narrar no meio da incerteza.

a pergunta retorna.

dessa vez, com o streaming, o smartphone e as redes sociais.

o cinema perde parte da aura da sala escura.

o ritual coletivo cede lugar a consumos fragmentados, portáteis, acelerados.

ao mesmo tempo, outras formas florescem:

séries como romances modernos, filmes lançados direto em catálogo online, vídeos curtos começam a ser viralizados em segundos.

é caótico.

mas quem narra esse caos cria novas linguagens.

o narrador é o ponto que ainda organiza o excesso.

agora é a IA.

não apenas copia ou reproduz,

mas também consome conteúdo, organiza e cria.

fotografia gerada via prompt com o modelo Imagen 4 do Google.

textos, imagens, vozes, músicas.

em escala industrial.

o que perde valor é o genérico:

conteúdo sem corpo, sem voz, sem narrador.

o manual, o repetitivo, o artesanal — ainda têm força, quando atravessados pela interpretação de quem cria.

não é só o que se faz, mas quem dá sentido ao que foi feito.

a técnica muda, substitui funções, mas a importância do narrador permanece.

hoje, não sabemos o que a IA vai consolidar.

mas sabemos que o fio continua o mesmo:

cada transição desloca funções, abre espaço e deixa perguntas sem resposta.

-

e mesmo em meio à incerteza,

a criação continua.

e quem cria importa.

com carinho
lucas morello
criador no bota na rua

Read the original on botanarua.substack.com

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