Por: Aline Gomes
As tendências de maquiagem podem ir e vir, mas um item que resistiu ao teste do tempo é o batom. Dos lip combos que dominam o TikTok ao icônico marrom, passando pelos clássicos vermelhos, ele nunca sai de moda.
Mas como surgiu essa mania coletiva de colorir os lábios? Atenção, chegou a hora de uma aula sobre a história da beleza!
Os primeiros registros de cosméticos labiais datam de cerca de 3.500 a.C., na Mesopotâmia, e suas fórmulas podiam incluir minerais triturados, como ocre vermelho e pedras preciosas, além de substâncias tóxicas, como o chumbo. Com o passar dos séculos, diferentes civilizações passaram a usar pigmentos extraídos da cochonilha (um inseto) e de besouros pra criar tons intensos de vermelho, muito antes da chegada dos corantes modernos.
Fun Fact! Recentemente um artigo publicado na Nature (revista científica internacional) revelou um achadão: traços de pigmentos — uma mistura de cera vegetal e minerais em pó — que lembravam receitas modernas de batom, no interior de um frasco de clorita de 4.000 anos, no Irã!
Na Europa medieval, usar maquiagem podia ser visto como um ato de vaidade, engano ou até de feitiçaria. Enquanto grupos religiosos condenavam os cosméticos por acreditarem que eles desafiavam a criação divina, parte da população continuava usando maquiagem como um símbolo de distinção entre classes sociais. Mulheres que desafiavam os padrões da época eram frequentemente associadas à bruxaria, e o batom acabou se tornando, por um período, um símbolo de transgressão.Em 1650, a Inglaterra chegou a discutir um projeto de lei contra o que chamavam de “vício de pintar”. Sim, aparentemente passar batom era visto como uma grande ameaça. Intitulado An Act against the Vice of Painting, and wearing black Patches, and the immodest Dresses of Women (”Um ato contra o vício da maquiagem, o uso de pintas artificiais e os vestidos imorais das mulheres”). O projeto de lei não foi aprovado, mas isso não impediu que a maquiagem continuasse sendo alvo de críticas e olhares de reprovação.
O batom ganhou novo significado durante o movimento sufragista, simbolizando a luta pelos direitos das mulheres. A empreendedora de beleza Elizabeth Arden inspirou ativistas como Elizabeth Cady Stanton, Charlotte Perkins Gilman e Emmeline Pankhurst a usarem o tom vermelho como símbolo de coragem. Ela distribuiu 15 mil unidades de batom para as sufragistas que marcharam em 1912, em Nova Iorque. O batom se tornou, assim, uma forma figurativa de protesto.
Em 1915, o inventor americano Maurice Levy apresentou o primeiro batom em um tubo metálico retrátil. Esse momento é considerado o nascimento do produto como conhecemos hoje. Apesar do avanço na embalagem, a fórmula ainda era, no mínimo, estranha: insetos esmagados, cera de abelha e azeite de oliva, o que fazia o produto ficar rançoso após algumas horas de uso. Além disso, muitas versões continham substâncias tóxicas, comuns nos cosméticos da época.
Em meados dos anos 1920, a resistência ao batom vermelho e escuro começou a diminuir graças à crescente popularidade das estrelas de cinema. Nas telas, as atrizes exibiam lábios marcantes e escuros, transformando o batom em um símbolo de glamour. Não demorou pra que mulheres do mundo todo passassem a copiar o visual de suas divas favoritas, como Clara Bow e Mae Murray.Em 1933, a revista Vogue declarou que o batom era “the most important cosmetic for women” (”o cosmético mais importante para as mulheres”). A afirmação refletia um fenômeno curioso: mesmo durante a Grande Depressão, as vendas de batom continuavam crescendo. Décadas depois, essa observação ajudou a popularizar o conceito do Lipstick Effect (Efeito Batom), segundo o qual, em períodos de crise econômica, consumidores tendem a abrir mão de grandes gastos, mas continuam comprando pequenos luxos, como um batonzinho pra elevar o humor.
Em 1952, a Revlon fez história ao lançar a icônica campanha Fire and Ice, considerada um dos anúncios mais influentes da indústria da beleza. A propaganda de página dupla trazia 15 perguntas pra descobrir se a personalidade da leitora combinava com o novo batom. Pra completar, estrelas de Hollywood como Elizabeth Taylor e Marilyn Monroe ajudaram a consolidar os lábios vermelhos como símbolo de desejo.
Nos anos 1960, o batom perdeu um pouco do protagonismo. O movimento hippie foi um comportamento coletivo de contracultura que criticava o tradicionalismo, o capitalismo e a Guerra do Vietnã e colocou em alta a beleza natural, dizendo não a tudo que lembrasse consumismo. Na época, parte do movimento feminista criticava o batom vermelho por enxergá-lo como um símbolo criado para agradar ao olhar masculino.
Mas a pausa durou pouco! Com a ascensão da era disco ali nos anos de 1970, os lábios vibrantes, brilhantes e cheios de gloss voltaram com força total. Ao mesmo tempo, subculturas como o glam rock e o punk popularizaram o uso de batom entre os homens. Tipo o David Bowie, Mick Jagger e Robert Smith! Os anos 1980 foram marcados pelos lábios intensamente vermelhos, em sintonia com a estética maximalista da década.
Quando os anos 2000 chegaram, o batom deu uma segurada para deixar o gloss brilhar. Inspirados pelo visual das pop stars da época, os lábios ganharam acabamento espelhado, muito brilho e tons rosados, pêssegos e cintilantes. Marcas como Juicy Tubes, da Lancôme, e os glosses da Victoria’s Secret, Avon Color Trend e Maybelline viraram febre.
Se os anos 2000 foram dos glosses, os anos 2010 tiveram um protagonista absoluto: o Snob da M.A.C. O rosa frio de acabamento matte virou objeto de desejo e dominou tutoriais no YouTube, blogs e nécessaires. Ao mesmo tempo, a tendência do “apaga boca” conquistou espaço com nudes cada vez mais claros, usados para criar o efeito de lábios discretos que contrastavam com olhos bem marcados. Quem viveu sabe.
E hoje, hein? O batom continua firme e forte como um dos itens mais amados da maquiagem. Agora vale misturar dois batons, fazer aquele lip combo com lápis, gloss e contorno ou testar combinações até chegar naquele tom que parece ter sido feito sob medida. Afinal, se tem uma coisa que a gente aprendeu é que sempre cabe mais um batom nos lábios!
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