Por: Aline Gomes e Jana Rosa Até 1932 as mulheres não podiam votar. Parece um capítulo distante da história, mas faz menos de um século.
O assunto “voto feminino” virou debate nos últimos dias, após a circulação de discursos defendendo a restrição desse direito, uma pauta difundida por muitos apoiadores de Donald Trump nos Estados Unidos e que passou a repercutir também aqui no Brasil, por representantes e influenciadores da extrema direita.
Só pra ter uma ideia: mais de 40% das mulheres eleitoras nos EUA votaram em Donald Trump. Mas muitos trumpistas são contra o voto feminino.*
A ideia de que as mulheres “votam mal” ou que o direito ao voto feminino foi um erro circula principalmente em comunidades da machosfera, como é chamado o movimento redpill, uma subcultura que ganha forças nas redes sociais e que une discursos misóginos, ódio ao feminismo, violência e desconexão da realidade na ideia do que é “ser homem”. E, pasme, tem encontrado eco até entre algumas mulheres. Se alguma influenciadora antifeminista aparecer no seu feed defendendo essa pauta, pode se assustar, porque é perturbador mesmo! Segundo um levantamento do instituto Democracia em Xeque, com base em dados da plataforma Talkwalker, o termo
Culpando o movimento feminista, essa ideologia de ódio às mulheres se une a movimentos que visam dificultar ou até retirar o direito de voto das mulheres nos Estados Unidos. A pauta tem sido encabeçada por nomes como Nick Fuentes, streamer estadunidense de extrema direita, e outros influenciadores e políticos ligados ao conservadorismo trumpista.
E não estamos aqui para dar palco pra misóginos nem pra mulheres antifeminista. Mas precisamos nos manter informadas pra entender que essa pauta não chegou aqui em 2026 do nada. O nosso direito ao voto não caiu do céu, ele foi conquistado depois de muita luta e mobilização social. Então toda vez que alguém questiona esse direito, não está atacando só as mulheres, mas também deslegitimando a democracia. Relembrar a importância do nosso voto é mais urgente do que nunca!
O primeiro país a garantir o direito de votar às mulheres foi a Nova Zelândia, em 1893. O Brasil demorou quase 40 anos para fazer o mesmo, mas o fez antes de países como França, onde o sufrágio feminino só aconteceu em 1944, e Suíça, onde as mulheres esperaram até 1971 para votar.
Segundo o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), somos mais de 82 milhões de eleitoras mulheres no Brasil. Isso significa que representamos 52,6% de todo o eleitorado brasileiro. Somos maioria e definimos as eleições, entendeu nosso poder e por que incomodamos tanto?
Fila de espera para votação na seção eleitoral feminina do Méier, Zona Norte do Rio, nas eleições de 1933. Foto: Arquivo O Globo.
Uma curiosidade: aqui no Brasil, a mobilização pelo voto feminino começou antes mesmo da Proclamação da República, algumas mulheres chegaram a tentar se alistar como eleitoras ainda no fim do século 19, mas todos os pedidos foram negados.
Na Constituinte de 1890, todas as propostas pelo voto feminino foram rejeitadas sob a justificativa de que ameaçariam a “família brasileira”. Na mesma época, o jornal A Família, de Josefina Álvares de Azevedo, tornou-se uma das principais vozes na defesa do sufrágio (como é chamado o direito ao voto), argumentando que não haveria igualdade sem a participação das mulheres.
Em 1910, a educadora Leolinda Daltro fundou o Partido Republicano Feminino, após ter seu pedido pra votar negado. Inspirado no movimento sufragista inglês, o partido organizava passeatas e liderou a primeira grande mobilização pelo voto feminino no Brasil, abrindo caminho pra movimentos como a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, de Bertha Lutz.Já em 1928, a professora Celina Guimarães Viana se tornou a primeira mulher a votar no Brasil, em Mossoró (RN). Naquele ano, o Poder Judiciário local permitiu que mulheres se alistassem pra votar em uma eleição complementar para o Senado. Mas o Senado anulou os votos da eleição por não reconhecer o sufrágio feminino. Celina se tornou um símbolo da luta pelo direito ao voto e abriu caminho para a conquista que viria poucos anos depois.
Após intensa campanha nacional, o voto feminino e secreto foi introduzido no Código Eleitoral Provisório de 1932. Segundo a legislação, era eleitor “o cidadão maior de 21 anos, sem distinção de sexo”, alistado conforme determinava a lei. Mas somente em maio de 1933, na eleição para a Assembleia Nacional Constituinte, a mulher brasileira pôde, pela primeira vez, exercer o direito de votar e ser votada em âmbito nacional.
Naquele ano, a médica paulista Carlota Pereira de Queirós foi a primeira mulher a ser eleita deputada federal da América Latina. Ela também foi a única mulher eleita para compor a Assembleia Nacional Constituinte de 1934.
Mas nem todas podiam votar… O Código Eleitoral de 1932 garantiu o direito ao voto feminino, mas com restrições: apenas mulheres casadas com autorização do marido, além de viúvas e solteiras com renda própria, podiam votar e se candidatar. Em 1934, essas exigências foram retiradas, mas o voto feminino continuou sendo facultativo. A obrigatoriedade para as mulheres só veio com a Constituição de 1946.
Corta pra 2026. Enquanto continuamos lutando pra ocupar espaços na política, no mercado de trabalho e na sociedade, discursos baseados em argumentos sem evidências e marcados pelo saudosismo de um passado excludente resolvem sair dos bueiros da internet. Essas ideias ignoram décadas de luta por direitos e tentam transformar uma conquista democrática em motivo de debate.
O voto feminino foi uma conquista de mulheres que enfrentaram rejeição, preconceito e até a invalidação das próprias vidas pra que hoje a gente pudesse escolher nossos representantes. Conhecer essa história é a melhor forma de impedir que direitos conquistados se tornem alvo de retrocessos.
Hoje, as mulheres ocupam apenas 91 das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados e 16 das 81 do Senado Federal. No STF, somos apenas 1 ministra entre 11 integrantes. Ainda estamos longe de ocupar os espaços de decisão na mesma proporção em que representamos a população brasileira. Se queremos mudar esses números, o voto continua sendo uma das nossas ferramentas mais poderosas.
*fonte: The Associated Press
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