Por: Aline Gomes
Todos querem ser latinos, más a eles falta sazón!
Ser latino diz respeito a uma origem cultural, histórica e linguística. É quem nasce na região da América onde predominam línguas românicas, derivadas do latim, como espanhol, português e francês. Isso porque esses territórios foram majoritariamente colonizados pelos impérios Espanhol e Português.
É também uma identidade atravessada por um passado colonial violento, desigualdades históricas e, principalmente, muita resistência cultural.
Ainda assim, para algumas pessoas no TikTok, ser latina virou apenas um padrão estético passageiro, reduzido a uma trend de maquiagem que reforça o estereótipo frequentemente propagado por Hollywood e pela mídia estadunidense: o da mulher latina jovem, magra e “caliente”.
Com a apresentação do Bad Bunny no Super Bowl, shows na América Latina, os comentários sobre a escolha das mulheres para a “La Casita”, as manifestações públicas de celebridades contra as políticas discriminatórias de Donald Trump… o debate sobre o que é ser latina voltou à tona.
A chamada “Latina Makeup” costuma ser definida por sobrancelhas arqueadas, delineado afiado e lábios ultracontornados, criando uma estética dramática e altamente marcada. O cabelo, sempre liso e preto, completa o visual. Normalmente é reproduzido por mulheres brancas com traços eurocêntricos.
No fim das contas, essa construção bebe diretamente da cultura das cholas mexicanas e do glamour exagerado das novelas latinas, mas aparece nas redes esvaziadas de contexto, reduzida apenas a uma trend facilmente consumível.
Vale lembrar que a América Latina é formada por 33 países, com histórias, corpos, tons de pele e expressões culturais profundamente diversas. Uma trend reduz toda essa complexidade a um padrão de beleza monolítico e inatingível pra maioria. E acaba apagando latinas que não se reconhecem nessa estética ou que simplesmente não possuem as “características certas” pra caber nela.
Além disso, essa trend acaba rotulando as mulheres latinas que curtem esse visual como exageradas e caricatas, quando, na realidade, estão apenas se expressando. Tratar aspectos culturais como se fosse qualquer estilo que se pode “copiar e colar” ignora a complexidade da nossa história cultural, que jamais poderia ser resumida a um único vídeo.
Essa trend também apaga as mulheres negras e caribenhas!
Cerca de 200 milhões de pessoas se definem como afrodescendentes na América Latina e Caribe, de acordo com a Associação Mulheres Afro, formada por mulheres negras da região. Além da origem comum africana, as populações negras latino-americanas e caribenhas compartilham uma série de situações históricas e socioculturais, como o contexto colonial e de escravidão no qual estiveram inseridas.
Assim como não podemos esquecer que a clean girl foi uma cópia da comunidade negra e latina, porém revisitada com uma grande dose de brancura.
Praticamente todos os elementos da estética clean girl podem ser rastreados até ícones da moda negra e mulheres racializadas que influenciaram gerações. Brincos de argola dourados, por exemplo, são assinatura das comunidades negras e latinas há décadas — da era disco dos anos 70 ao hip-hop dos anos 90.
O mesmo vale para o batom marrom com lápis labial marcado, o gloss intenso e o cabelo slicked-back, penteado para trás com gel que ficou associado à imagem da Hayley Bieber e outras mulheres brancas. Esses códigos fazem parte da estética de mulheres negras e latinas há muito tempo, com referências que vão da cultura chola ao hip-hop noventista.
Óbvio que ninguém é dono de um estilo. Mas que tal dedicar alguns minutos para homenagear — de verdade — as mulheres não-brancas que criaram muito do que hoje vira tendência?
Beverly Johnson na revista Vogue de 1979.
E embora tudo isso tenha começado como uma tendência aparentemente inofensiva — e até boba — o efeito foi o oposto: de um lado, a deslegitimação de quem se encaixa no rótulo da “Latina Makeup”; de outro, a exclusão de quem não corresponde a esse padrão. Esse tipo de categorização não só divide, como também reduz e menospreza um estilo de vida atravessado por cultura, história e identidade próprias.
Imagina o quão chato seria se fôssemos todas literalmente versões idênticas umas das outras? Se todas tivéssemos a mesma aparência em termos de maquiagem e roupas? Talvez o verdadeiro problema com essa tendência seja a ideia de que todas as latinas têm uma aparência específica, o que está longe de ser verdade.
Ser latina é motivo de orgulho quando essa identidade é valorizada — não esvaziada para caber em tendências. Pode parecer repetitivo, mas precisa ser dito quantas vezes forem necessárias, até ficar claro: não somos um bloco único, nem um padrão fechado. Não somos um monólito.
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