1. Nada é por acaso
O assunto da vez é essa celeuma diplomática, e celeuma é uma palavra bem suave para o que está acontecendo. A revogação do visto da nossa embaixadora em Washington, Maria Luiza Viotti, uma diplomata excepcionalmente qualificada, deixa muito claro o que já era óbvio. Tudo o que vem acontecendo desde 2025 tem um fio comum. O tarifaço do ano passado não foi por acaso, tampouco as motivações que nele resultaram. O tarifaço de agora, aplicado sob a Seção 301 do Trade Act de 1974, também não é por acaso. As designações de organizações terroristas estrangeiras (FTO, na sigla em inglês) do Comando Vermelho e do PCC ilustram o mesmo tipo de ação. Em todas essas atitudes, houve uma tentativa política evidente de enfraquecer o Brasil e influenciar a política da nossa região, de modo a ter, em cada país, governos que se coloquem em posição de submissão ao governo americano.
A história do visto tem um objetivo concreto. Trata-se de forçar a mão do Brasil na aceitação do indicado do governo Trump para a embaixada dos EUA no Brasil, Daniel Perez, que presidiu a Câmara dos Deputados da Flórida, não tem credenciais diplomáticas propriamente ditas e é amigo e aliado ideológico do Secretário de Estado Marco Rubio. Na sabatina no Senado americano, ele próprio se declarou sem conhecimentos sobre o Brasil. Vale perguntar o óbvio. Os Estados Unidos estão sem embaixador no Brasil há mais de um ano e hoje têm mais de uma centena de embaixadas sem indicação. Por que, de repente, toda essa pressa? Porque existe um objetivo de intromissão nas eleições brasileiras, uma missão de lançar dúvidas sobre a lisura do nosso processo eleitoral. A cautela do governo brasileiro diante dessa indicação é absolutamente compreensível, e não se trata aqui de defender o governo Lula. Esqueçam que é o Lula que está lá. Qualquer pessoa naquela cadeira, indo a uma eleição complicada e sofrendo pressão de outro país para interferir nela, estaria fazendo o mesmo.
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Sobre a situação concreta da embaixadora, deixo uma explicação, porque disso eu conheço um pouco. Quem entra nos Estados Unidos com visto diplomático recebe uma autorização de permanência válida durante a missão, chamada “duration of stay”. A Embaixadora Maria Luiza Viotti não pode sair dos Estados Unidos porque não conseguiria voltar sem solicitar um novo visto, mas pode continuar vivendo e trabalhando aqui, e o próprio Departamento de Estado deixou claro que ela continua sendo considerada chefe da missão diplomática do Brasil. Ou seja, a revogação é uma atitude hostil, mas não inviabiliza o trabalho dela. O ponto é que essa história não acabou. Se o governo brasileiro, de fato, segurar a aprovação do nome do Perez até depois das eleições, como indicou que fará, essas tensões vão continuar a escalar. Vem chumbo grosso em cima da gente no decorrer deste mês e do mês de setembro.
2. A agenda é do Rubio, e sobrevive ao Trump
Quem toca a agenda latino-americana deste governo é o Marco Rubio. O Trump delegou a América Latina ao seu Secretário de Estado porque ele próprio não tem grandes interesses na região. Lembrem como ele se referiu aos países africanos no fim do primeiro mandato, de forma intensamente pejorativa. Na cabeça dele, a América Latina vem acompanhada de um termo quase tão pejorativo quanto aquele. O Rubio, ao contrário, tem uma agenda ideológica clara para a região e também um cálculo político doméstico. Ele foi candidato à presidência em 2016, quando o Trump o chamava de “Little Marco”, e hoje está mais próximo do presidente do que o próprio vice-presidente, J.D. Vance. Depois da ação na Venezuela, vista aqui dentro como uma grande vitória do governo Trump e, dentro do governo, como uma grande vitória sua, o Rubio despontou como potencial herdeiro do trumpismo em 2028. Para se estabelecer nesse papel perante o movimento MAGA, ele precisa de vitórias na América Latina. As campanhas dele na nossa região são, portanto, também campanhas eleitorais aqui nos EUA.
Isso importa por uma razão que precisa ficar clara. Para quem imagina que, com o Trump saindo da Casa Branca, essas coisas revertem ou se suavizam, a má notícia é que isso não é verdade. A agenda está instalada numa ala inteira do Partido Republicano. E acreditem, se quiserem: qualquer alinhamento brasileiro com o Marco Rubio é pior do que o alinhamento com o Trump. Tampouco adianta esperar refresco do outro lado. Os democratas permanecem desestruturados e sem narrativa própria, e a ala que está surgindo no extremo do partido é o espelho da radicalização à direita, sem oferecer soluções por enquanto. Nos temas que nos interessam, como comércio, tarifas e a investida sobre os minerais críticos da América Latina, os dois partidos são praticamente iguais, salvo um ou outro nome. O Brasil vai precisar se posicionar com muita clareza diante disso, porque não existe caminho que não passe por decidir se queremos ou não permanecer sob a influência dos Estados Unidos.
3. Calma com a invasão: o que pode acontecer daqui até outubro
Muita gente me perguntou sobre a fala do ministro da Defesa, José Múcio, de abrir as portas em caso de invasão dos EUA. A declaração foi extremamente infeliz por duas razões. A primeira é que não é necessário falar uma coisa dessas. A segunda é que essa invasão não é lá tão realista, porque há interesses econômicos demais em jogo, inclusive de empresas americanas no Brasil, e discutir esse cenário é botar o carro na frente dos bois. Tem milhões de coisas que podem acontecer muito antes disso, e são elas que exigem planos B, C, D e assim por diante. A crise diplomática pode se agravar. Os Estados Unidos podem, por exemplo, decidir sancionar alguma instituição financeira brasileira por um alegado vínculo com organizações que agora designaram como terroristas, o que teria impacto na nossa economia e no funcionamento do nosso sistema financeiro, com o Pix na mira. São essas as discussões que precisamos fazer para nos defender, sem terrorismo absoluto nem falsas esperanças. Nem uma coisa, nem outra.
4. A escolha colocada nas eleições de outubro
Há tempos venho dizendo, inclusive em artigo que discutimos aqui numa live, que estas eleições deveriam estar muito mais focadas na política externa, porque a política externa e a pauta econômica são quase indissociáveis. O quadro que se desenha é de contrastes muito evidentes. De um lado, o Flávio Bolsonaro defende claramente um alinhamento subserviente aos Estados Unidos, em que o Brasil vira capacho. Do outro, pensem o que pensarem do Lula, e eu também tenho as minhas implicâncias, a candidatura dele representa a continuidade da política externa brasileira tal qual ela sempre foi: esse multilateralismo pragmático de não se alinhar automaticamente a ninguém e de fazer parcerias que sirvam aos nossos interesses, com os Estados Unidos, com a China, com a União Europeia e agora buscando outros mercados. O que falta em muitas análises é entender que a pressão americana vai existir de qualquer maneira, seja quem for o eleito. Com o Lula, seguiremos com uma política de enfrentamento. Com o Flávio Bolsonaro, entraremos numa política de coerção sobre um governo alinhado, porque estes Estados Unidos são uns bullies e bullies não respeitam a subserviência de ninguém. As relações não vão melhorar, vão apenas mudar de canal, com os interesses brasileiros jogados pela janela.
Aqui cabe inverter uma velha história. Fico vendo gente ainda falando da venezuelização do Brasil, naquela ladainha antiga de virar a Venezuela do Maduro. Esse medo acabou. Hoje, venezuelização é outra coisa. O governo de Delcy Rodríguez é um fantoche, operado de fora. O presidente de fato da Venezuela, neste momento, é Marco Rubio. Alguém sabe para onde estão indo as receitas do petróleo venezuelano? Para os cofres públicos da Venezuela é que não é. A venezuelização do Brasil, hoje, nos seria entregue pelas mãos do Flávio Bolsonaro. E o nosso empresariado, que anda defendendo falas de alinhamento, precisa pensar com mais cuidado sobre o que isso significa na prática. Viriam exigências diversas, pressão imensa pela exploração dos nossos minerais críticos e pela abertura do nosso mercado à indústria de inteligência artificial americana. Esse governo dos Estados Unidos não tem aliados nem amigos. Todo mundo vai perder muito dinheiro nessa história de alinhamento subserviente, principalmente as empresas que vivem penduradas no governo. O Brasil é grande, tem envergadura para não precisar se casar com ninguém, nem com Xi Jinping, nem com Putin, nem com Trump. Mas, em algum momento, vamos precisar responder aos Estados Unidos com altivez se quisermos manter a nossa independência. O antilulismo de alguns, que eu até compreendo, inclusive entre diplomatas que muito admiro, não pode passar por cima dos interesses do país. O que está sob pressão neste momento é a nossa soberania eleitoral. As eleições brasileiras são dos brasileiros, independentemente do resultado.
5. O Mercosul diante de um risco sério de ruptura
Uma coisa tem rodado na minha cabeça: como fica o Mercosul nesse tiroteio entre Brasil e Argentina? As recentes investidas do Milei contra autoridades brasileiras são calculadas, e calculadas em duas direções. Servem para ele ficar bem na foto com o Rubio e com os Estados Unidos e para manifestar o grande problema que existe hoje entre os dois países. E vamos lembrar, para manter o equilíbrio necessário nas análises, que o Lula também provocou. A visitinha à Cristina Kirchner em julho de 2025, logo após ela ser colocada em prisão domiciliar, foi uma provocação que não precisava ter acontecido. O Milei, por sua vez, precisa politicamente dos Estados Unidos como ninguém, porque o calcanhar de Aquiles da economia argentina continua sendo a extrema dependência do dólar. Em outubro do ano passado o governo Trump liberou uma linha de swap de 20 bilhões de dólares para a Argentina, tratando como sistêmico um país que não é sistêmico, e já disse que dará os dólares que forem necessários para apoiá-lo. O horizonte do Milei é a sobrevivência política dele, com as eleições de 2027. Se o Mercosul implodir no caminho, ele não está nem aí.
Do lado brasileiro, o campo bolsonarista tem uma visão de desmonte do bloco. Naquela carta que o Flávio Bolsonaro enviou ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) em julho, durante as audiências públicas da Seção 301, o Mercosul foi caracterizado como uma amarra da qual o Brasil deveria se libertar. Desmantelar o Mercosul significa, na prática, desmantelar o acordo com a União Europeia, as tratativas com o Canadá e os acordos costurados com outros parceiros, como Cingapura. Para todo mundo que fala em diversificação de mercados e de novos parceiros, ideia que o próprio empresariado defende, tudo isso vai por água abaixo sem um Mercosul funcionando minimamente bem. E atenção: a ruptura do Mercosul não precisa ocorrer por anúncio. O mais provável é o enfraquecimento do acordo, com cada país negociando por conta própria. O que o bloco oferece em conjunto, mesmo sendo a união aduaneira capenga que sabemos, é um mercado muito atraente para quem negocia conosco, e essa atratividade diminui quando cada membro negocia unilateralmente para si. A Argentina, com os acordos que firmou com o governo Trump, já vem enfraquecendo isso. Some-se que o nosso acordo com a União Europeia é, por ora, apenas provisório, com várias etapas pela frente, inclusive nas cortes europeias. Vejo riscos sérios para o Mercosul, riscos diferentes dependendo de quem for eleito em outubro, mas riscos que existem independentemente de quem for eleito, porque tanto o Milei quanto o Flávio Bolsonaro já se manifestaram contrários ao Mercosul tal qual ele existe. Estamos numa encruzilhada que poucas vezes vimos, numa hora que não nos serve em absoluto. Vou elaborar essa questão com mais cuidado na live de segunda-feira e, no domingo, às 19h30, estarei no programa do Marcelo Lins e do Guga Chacra na GloboNews, falando exatamente sobre essas divergências entre Brasil e Argentina e sobre o Mercosul.
6. Comentários e perguntas do chat
Railton observou que os Estados Unidos querem líderes subservientes na América Latina, e é exatamente isso. Esse governo já tinha líderes com essas características em países da América Central, como El Salvador, Guatemala e Honduras, e agora as investidas chegam à América do Sul por causa dos ciclos eleitorais, com o apoio a De la Espriella na Colômbia, a Kast no Chile e ao Milei na Argentina, os três alinhados ao Marco Rubio. Railton também perguntou se o Trump pode tentar se manter na cadeira. Antes de 2028, temos que ver o que acontece depois das eleições de meio de mandato em novembro. Se os republicanos perderem a Câmara, como parece, o Trump vai tentar criar uma espécie de caos constitucional, questionando a lisura das eleições, e eu não vejo como os Estados Unidos escapam dessa crise. É precisamente por isso que o partido busca herdeiros, e volto à importância do Rubio. E sobre a sabatina do Daniel Perez, em que ele se declarou sem condições de assumir a embaixada, é isso mesmo: a intenção do Rubio é botar um agente dele no Brasil para mexer com as nossas eleições.
Maria Vitória lembrou as designações de grupos terroristas sobre o Comando Vermelho e o PCC. Mesma coisa, do mesmo tipo de tentativa de ingerência política.
Rafael notou que, em muita coisa de política internacional, o Trump não mudou em relação ao Biden, ao contrário do que o senso comum sugere. Exatamente: muitas iniciativas do primeiro mandato do Trump foram mantidas inalteradas pelo governo Biden, ainda que o Trump esteja fazendo muitas coisas adicionais. Rafael também perguntou se o radicalismo do Milei em relação ao Lula agrava a crise com os Estados Unidos, pergunta oportuníssima que me levou à discussão sobre o Mercosul na parte final da live. E lembrou de uma reportagem em que o Flávio defendia a saída do Brasil do Mercosul. Sim, ele já defendeu isso, mas a referência que fiz aqui foi à carta ao USTR de julho.
Florice observou que o silêncio dos democratas é revelador. Com certeza. O partido está desmantelado e desorganizado, sem narrativa própria, e mesmo as alas progressistas que estão surgindo são um problema, pois são o espelho da radicalização à direita e, no momento, não oferecem soluções.
Erivaldo perguntou se há uma função racional e filosófica para a existência dessa turma ou se são apenas perversos milionários. Não é só o dinheiro, embora o dinheiro tenha grande relevância, e não à toa o termo oligarquia vem sendo aplicado aos Estados Unidos. O Trump é um sujeito completamente transacional, interessado no próprio bolso, mas dentro do Partido Republicano existe uma agenda ideológica forte e uma visão de país completamente diferente de tudo o que os Estados Unidos foram até aqui, representada em atores como o próprio Rubio, que não participou do Project 2025, mas claramente tem agenda própria para os Estados Unidos e para a América Latina.
Karine disse que, seja quem for que substitua o Trump, não vai abrir mão do poder que ele exerce na presidência. Exatamente isso. E contou que cresceu achando que os Estados Unidos eram o máximo e só na vida adulta entendeu a propaganda. É verdade, muita gente ainda está sob o efeito do soft power americano.
Helena observou que entregar a nossa soberania é constrangedor e que muita gente não quer o Lula, sendo esse provavelmente um dos motivos do Flávio estar bem colocado nas pesquisas, o antilulismo continua.
Jonathan, que acompanhou a live do Chipre, perguntou o que o Rubio fará diante de uma provável vitória do Lula. Vai espernear, com certeza, e não vai digerir. Os próximos meses vão ser extremamente voláteis. Ele perguntou também se é inocência esperar que o pesadelo fique mais ameno com um democrata na Casa Branca em 2028. Um pouquinho, sim. Do jeito que o Partido Democrata está, sou bem cética quanto a abrandamento, sobretudo nos temas comerciais, no enfrentamento com a China e nas tarifas. A política muda num ritmo que a gente não antevê.
Victor disse que se embasbacou com o Flávio tão bem colocado nas pesquisas, apesar dos escândalos. Eu também, mas olhem o apoio a De la Espriella na Colômbia, a Kast no Chile e ao Milei na Argentina. A única coisa que torna o Brasil diferente é que nós já tivemos a nossa experiência com essa extrema-direita no governo do pai do Flávio, e esses outros países estão tendo a experiência deles agora. O que me deixa mais perplexa é a falta de entendimento, que parece intencional, sobre o que significaria o Brasil ser o capacho dos Estados Unidos, como a Argentina é hoje. O Brasil não é a Argentina. Não temos a dependência nem os problemas que os argentinos têm.
Paulina perguntou se a política de imigração e o ICE podem ter a ver com a diminuição de empregos futuros devido à inteligência artificial. Mais ou menos. O repúdio à imigração remonta ao primeiro mandato de Trump, muito antes da ascensão da inteligência artificial, e é uma pauta ideológica e política. Não é pauta econômica, pois a imigração gerou muito PIB para os Estados Unidos. Existe a possibilidade de os dois discursos se alinharem no futuro, mas ainda não estão definidos nesses termos.
Pedro trouxe o editorial do Estadão pedindo cautela do governo na resposta diplomática. O Estadão não está errado. O momento ficou mais delicado, e um passo em falso agora pode ser muito prejudicial para as eleições. Não estou falando de eleger ou não eleger o Lula, estou falando de manter a nossa democracia e o nosso sistema eleitoral, seja qual for o resultado. O governo do país tem que zelar pelas nossas eleições, independentemente de beneficiar um candidato ou outro. Pedro também lembrou a pesquisa Ipsos, com rejeição de 62% ao Trump, que é alta e está subindo, embora ele tenha, por ora, o controle do Congresso e do Judiciário, e comentou que a sabatina do Perez provocou risos pela ignorância a respeito do Brasil. Ele não conhece o país, e o Rubio tampouco conhece o Brasil em profundidade.
Marco escreveu que o antilulismo permeia a imprensa e que criticar a postura de Trump e Rubio equivale a ser tachado de pró-Lula. Esse é o problema. O Brasil está começando a se ver como uma montanha de grupos de interesse distintos, e o Brasil é um país. Qualquer pessoa que dê dois passos atrás vai ver que criticar o Trump e o Rubio é apenas olhar a realidade tal qual ela é. Tem erros dos dois lados, só que muitas vezes não são os que estão sendo apontados.
Celso perguntou se a escalada inflacionária nos Estados Unidos pode levar a mobilizações populares, como o panelaço. O povo aqui não conhece panelaço. Os Estados Unidos andaram importando várias coisas da América Latina, inclusive a corrupção e o populismo caudilhista, mas o panelaço ainda não chegou. Seria curioso se chegasse.
André citou o gráfico do Paul Krugman, que mostra o efeito isolacionista quase completo da política externa americana, com a China já tendo uma percepção mais favorável junto à maioria dos países europeus, na Ásia e até na Argentina. É verdade, e no Brasil ainda está meio empatado. Perguntou também como os americanos veem o enriquecimento da família Trump. Veem mal, e essa é uma das razões pelas quais eu acho que o Trump vai criar uma crise institucional depois das eleições de meio de mandato, porque se os democratas recuperarem a Câmara, as investigações vão começar a vir à tona.
Itamar perguntou se, com o Lula reeleito, pode haver um aumento das tensões com os Estados Unidos. Sim, com certeza. As tensões vão existir de toda maneira, seja Lula, seja Flávio Bolsonaro. Só a forma muda: enfrentamento num caso, coerção sobre um governo subserviente no outro.
Paulo lembrou que o Ray Dalio já apontava, no primeiro mandato de Trump, o processo de mudança institucional nos Estados Unidos como sinal de decadência e perguntou se esse apego ao controle da América Latina é sinal disso. Com certeza é.
Mônica trouxe a declaração do Lula de que não analisará nenhuma indicação de embaixador de nenhum país até o fim das eleições. Exatamente. De novo: esqueçam que é o Lula. Qualquer pessoa naquela cadeira faria a mesma coisa.
Carlos Tadeu perguntou sobre as notícias de que o Lula pretende conversar diretamente com o Trump, talvez por telefone, e se isso pode dar certo. Até pode, porque essa crise tem as impressões digitais do Rubio, e não necessariamente as do Trump. O Trump delegou a América Latina ao Rubio porque não quer lidar com a região. As ações têm respaldo do Trump, claro, mas se têm respaldo completo, eu não sei, e é exatamente nesse espaço que talvez valha a pena o governo brasileiro sondar uma conversa direta.
Ana Elisa perguntou se o indicado vem com uma missão especial de golpe. Golpe não é a palavra que eu usaria. Ele certamente vem com a missão de se intrometer e jogar dúvidas sobre a higidez do processo eleitoral brasileiro, e por isso o governo tenta segurar a aprovação para depois das eleições. Sobre a possibilidade de interferência numa anulação das eleições, aí já é especulação demais; vamos ter que esperar as próximas semanas.
Nicolay levantou um ponto excepcional: o Paraguai pode servir de base para data centers, aproveitando o excedente de energia de Itaipu, vendido ao Brasil, o que causaria um imenso déficit energético para nós, e ninguém está falando disso. É mais um ponto de pressão no Mercosul, e reforça a encruzilhada de que falei.
Jorge perguntou se a Argentina poderia ser suspensa do Mercosul e se isso representaria o fim do bloco. No momento, não há motivo para suspender a Argentina, e o Mercosul é uma união aduaneira, o que torna essas questões mais complicadas do que parecem. O que me angustia é outra coisa: os dois principais países do bloco hoje não o veem com os mesmos olhos, e os olhos do Milei e do Flávio são francamente contrários ao Mercosul.
Luiz perguntou se o eleitor americano ainda vai dar palco para essa loucura na próxima eleição. Francamente, acho que sim. Estamos muito longe de uma desarticulação do movimento MAGA, que segue grande, forte e bastante bem integrado.
Júlio observou que o Lula segue o Itamaraty num movimento de não alinhamento, mas acaba rompendo com isso ao tentar exercer liderança internacional, criticando diretamente o Trump, e que a Índia parece mais pragmática nesse não alinhamento. Você tem toda razão, e concordo que a Índia vem fazendo isso um pouco melhor do que nós.
Mariela perguntou se os Estados Unidos estão cometendo um tipo de golpe, já que um golpe como o de 1964 não seria possível. Eu não chamaria isso de golpe. É uma intromissão indevida, assim como foram indevidas as intromissões americanas em várias eleições latino-americanas até aqui.
Teresa comentou que as diferenças entre republicanos e democratas são pouquíssimas. Mais ou menos. Tem divergências, e algumas maiores do que outras, mas, nos temas que nos interessam — comércio, tarifas e minerais críticos —, os dois partidos são iguais.
Geraldo comentou que não dá para ter muita esperança nesse sentido, e é verdade, não dá.
O Antônio, que segunda-feira passada participou direto do hospital, chegou avisando que está bem melhor, recebeu as melhoras de todo mundo e prometeu que na próxima live estará tomando água de coco no quiosque da praia. Vamos cobrar. Ele brincou que a solução é Dona Flor casar com Putin e Xi Jinping, e a resposta é que não precisamos casar com ninguém, como argumentei acima, e lembrou ainda o dado que passou na TV de que os Estados Unidos estão com 106 embaixadas sem indicação até hoje, que é verdade e reforça a pergunta sobre a pressa no caso brasileiro.
Ficam os agradecimentos e o abraço a quem chegou cumprimentando e acompanhando: Joel, Hugo, Ricardo, Vera, que está sempre aqui, Marisa e André, que me socorreram na dúvida sobre a conexão, Eri, pelas palavras generosas, e a Dorrit Harazim, que admiro e leio muito, muito bem-vinda. Ficaram muitas perguntas no ar, inclusive uma do Victor que prometi retomar, e voltamos a elas na live de segunda-feira.
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