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Entrelopos · Jul 28, 2025

A humilhação como arquétipo

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Bolívar Escobar · Entrelopos

Esta é a sua costumeira & periódica newsletter Cartas do Bolívar, agora com novo nome. Fora isso, nada mudou. Continuam sendo cartas e continuam sendo do Bolívar.

O humanista escocês George Buchanan teria escrito, em meados do século XVI, que a diferença entre um rei e um tirano é que, enquanto o primeiro governa para seus súditos, o outro governa para os que o recusam. O jogo mudou: em uma era sem reis, encontramo-nos cercados de tiranos seguidos com entusiasmo por súditos fiéis. Para compensar, propostas de entendimento para esse fenômeno de tirania representado por Trump (e outras figuras que transmitem a mesma notória ausência de escrúpulos) surgem diariamente. Os seguintes parágrafos tratam de mais uma tentativa.

Em 14 de junho desse ano, o presidente dos Estados Unidos transmitiu ao mundo cenas do desfile militar organizado em homenagem aos 250 anos das forças armadas (coincidentemente, no mesmo dia do seu o aniversário, fato que deixou um tanto de gente coçando a cabeça em desconfiança).

Das várias notícias que reportaram o acontecido, uma delas me chamou a atenção. Enquanto as tropas marchavam e os tanques de guerra se enfileiravam para o público tirar selfies, o DJ responsável pela trilha sonora ia soltando o play. Dentre as obras selecionadas, estava a Fortunate Son, da banda Creedence Clearwater Revival. Em tradução livre, ela começa assim: “Algumas pessoas nascem para balançar a bandeira; elas são vermelhas, brancas e azuis. E quando a banda toca ‘Salve o Chefe’ (hino pessoal ao presidente); oh, eles apontam o canhão para você, Senhor. Não sou eu, não sou eu: eu não sou filho do senador”.

Não precisa muito para perceber que a música é um ataque direto ao militarismo, sublinhando a hipocrisia dos belicistas que travam guerras por meio dos seus canetaços enquanto jovens de famílias pobres vestem a farda. Fortunate Son serve como crítica precisamente ao próprio Trump, que já chegou a forjar incapacitações para não precisar servir na guerra do Vietnã. É uma música que expõe como a guerra afeta com mais impacto a vida dos menos favorecidos, enquanto as classes mais abastadas se valem de proteções injustas para não serem afetadas.

O jornalista Chris Willman, da Variety, elabora algumas hipóteses para explicar por que justo essa música seria escolhida para um desfile militar. A primeira seria supor que um esquerdista infiltrado estava encarregado de montar a playlist. Aproveitando a brecha, esse herói anônimo teria escolhido músicas especialmente provocadoras para os nervos do laranjão. Outra hipótese seria o simples descuido: a equipe do presidente, por deliberadamente não prestar atenção a tais detalhes, enfileira músicas quaisquer, desde que sejam populares ou de fácil aceitação pelo público. Essa hipótese é atraente porque ela engloba também o fenômeno do fã de Pink Floyd que vai pro show do Roger Waters reclamar que ele está sendo “político”. Trata-se do consumo da arte restrito a um nível apenas, pela sua melodia ou pelo estilo da roupa que o artista usa em isolamento ao seu contexto, sem gastar energia para interpretar outras camadas como as estrofes das letras.

Willman ainda investiga uma terceira possibilidade. Após o compositor John Fogerty vir a público, em 2020, reclamar que o governo não deveria usar suas músicas para eventos militares, Donald Trump começa a encomendar covers de Creedence propositalmente. Só para irritar o artista e mostrar quem é que manda. Eu gostaria de propor mais uma leitura para o evento, próxima desta última. Eu também acredito que a escolha dessa música não foi acidental. Fortunate Son tocando enquanto soldados marcham para o presidente foi uma combinação proposital, porque Trump queria humilhar esses soldados. E Trump queria humilhar as tropas que o servem, não porque não gosta delas ou porque precisa transmitir ao mundo alguma crítica construtiva: a humilhação, para pessoas como Donald Trump, é um “canal”, um modo de vida, de comportamento e de comunicação.

Pode ser estranho, em um primeiro momento, pensar na humilhação como algo tão banal e gratuito. Acredito que, quando pensamos em humilhações, as cenas que nos chegam são de momentos extremos, nos quais pessoas passam por traumas ou constrangimentos. É necessário, portanto, deslocar a humilhação como fim para pensá-la como meio, como método.

Recordemos outro momento: nos últimos dias de fevereiro desse ano, o presidente da Ucrânia Volodymyr Zelensky visitou os recém empossados Trump e seu minion, J.D. Vance. Com o país invadido por tropas russas desde 2022, Zelensky teria provavelmente concordado em se reunir com a dupla para negociar uma renovação do apoio americano à resistência que vinha liderando. O que o mundo presenciou, entretanto, foi uma verdadeira fritada promovida pelo Rei Laranja e o vice.

O custo de uma interlocução com Trump é a humilhação. Ele precisa humilhar para sentir que sua mensagem está sendo transmitida, para se certificar que seu argumento está sendo entregue. É a forma pela qual ele se relaciona com outros seres humanos. Tal e qual homens que desejam se relacionar com mulheres “submissas”, a humilhação surge como esse elemento necessário para se fazer entender e para firmar seu próprio lugar na dinâmica. É uma espécie de molde ou “arquétipo” pelo qual uma interação é travada.

Imagino, pois, que aqueles no entorno de Trump entendam a humilhação como um processo corriqueiro, algo que está sempre subentendido nas conversas, nos comunicados oficiais ou nos pronunciamentos. Não é como se Trump estivesse procurando brechas e oportunidades para humilhar seus concorrentes e adversários políticos: a humilhação é anterior, como uma condição para que tais interações possam existir. Como uma trupe de amigos da onça que estão sempre atentos às falhas e aos problemas dos colegas, trabalhar com Trump deve simbolizar um dia a dia no qual nada é o que parece, e humilhar e ser humilhado fazem parte de uma “cultura”.

Peço licença para esses exercícios imaginativos que, provavelmente, estão indo longe, mas se aceitarmos tal hipótese, outros fenômenos ligados à era da governabilidade internética representada pelo presidente dos EUA transparecem com certa facilidade. O debate político é algo que mudou significativamente. Como já vem sendo percebido, a ideia de debater contra um adversário ideológico parece carregar uma aura de nobilidade que compara tal ato aos confrontos filosóficos dos antigos gregos. Na verdade, o debate é apenas um terreno fértil para plantar e colher humilhações. As pessoas que desejam muito debater não o querem por estarem em busca de explicações ou de um suposto “avanço” para a discussão. O debate é um exercício cuja vitória se garante para o jogador que mais humilha os outros.

Além do debate, outra manifestação do arquétipo pode ser encontrada no “estilo” humorístico que alguns comediantes empregam para arrancar os risos da audiência. Não há nada de genial ou super elaborado nas piadas do Léo Lins. Quem já se sujeitou à degradação de assistir a alguns minutos dos seus stand-ups poderá concordar comigo: a estratégia desse e de tantos outros comediantes que adotam o mesmo estilo é simplesmente detectar potenciais humilhações e explorá-las. Não há sequer trocadilhos ou comédia corporal, o humor pela humilhação reduz o ofício do fazer rir a um estratagema de sinalizações simples. Diferentemente do humor autodepreciativo, pelo qual o próprio comediante se vitimiza e gera empatia nos seus interlocutores, o humor de humilhação evidencia a condição do “outro” que o torna menor, menos humano.

Como um organismo que passa muito tempo exposto a um veneno e começa a desenvolver defesas próprias, a consequência da recorrência do arquétipo da humilhação é também uma adaptação política. O que faz um bom candidato está menos para suas habilidades de governança, conhecimento factual ou pensamento estratégico. A incapacidade de se sentir humilhado se torna, pois, um trunfo que cria os mais aptos ao ambiente da elite política moderna. É o poder de estar errado, saber que está errado e, mesmo assim, continuar defendendo o próprio ponto; é a capacidade de abstrair a presença das piores pessoas nas suas alianças políticas; é a completa incapacidade de retroceder mesmo quando jornais publicam seus mais poeirentos esqueletos. Essa anestesia da humilhação faz bons políticos — e isso deveria ser um sintoma para pensarmos o estado de frangalhos no qual se encontra nosso sistema político.

Imagino, portanto, que perguntas como “pelo que eu aceitaria ser humilhado?” se tornam chave para compreender as dinâmicas do ativismo político. Organiza-se um dispositivo do qual faz parte um treinamento de fruição estética que compreende a humilhação como moeda de troca: algo que é oferecido para que os donald-trumpianos prestem atenção em você ou aceitem “negociar”. O grande problema é que esse cenário é desigual por natureza, já que dispõe pessoas que aceitam se humilhar contra pessoas incapazes de sentirem humilhadas para traçar futuros políticos. Não existe martírio contra os que aceitam a existência dos mártires.

A humilhação é insustentável enquanto arquétipo para manter relações saudáveis. É inviável como nó para formar laços comunitários. É inconcebível como dinâmica familiar. É vergonhosa como recurso humorístico. Deveria ser também, pela lógica, infrutífera como regência política.

Em 1987, Trump publicou sua obra prima, um livro chamado “A Arte da Negociação”. É uma leitura monótona, cheia de detalhes sebosos sobre reuniões de negócios travadas entre empreiteiros e outros personagens que se aproveitaram da crise urbana da Nova York dos anos 1970. Trump trata essas reuniões como performances artísticas: foi onde ele exercitou seu “instinto” para fechar compras e vendas, sempre ganhando mais e gastando menos. Trump não inventou a humilhação. Suas motivações, entretanto, parecem estar sempre alinhadas a esse arquétipo que incita a sobressalência desequilibrada como vantagem competitiva, e não como falha estrutural.

Seus decretos e taxas, no exemplo mais atual, não parecem transmitir arcabouços técnicos e diretrizes econômicas claras. Quando ele decide taxar ilhas inabitadas e países aleatórios com valores arbitrários, tais atos não podem apenas ser vistos como a presidência de um país atuando a favor da sua população. É preciso entender cada canetada como orientada, talvez em grande parte, pelo arquétipo da humilhação que a molda.

Ditado polonês: “você pode colocar um cavalo sentado no trono, mas isso não significa que ele se tornou rei. Significa apenas que você transformou seu castelo em um estábulo”. Se esse breve desabafo servir para alguma coisa, que seja para nos auxiliar a entender tanto o presidente peruca quanto os que surgirem como adeptos das suas afetações. O que a direita brasileira mais quer, no seu fetiche pela humilhação, é um Trump para chamar de seu.

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