Tem semanas no mercado de luxo em que o que mais chama atenção não é o lançamento de uma bolsa nova ou a campanha de uma maison. É o movimento das pessoas. Quem entra, quem sai, quem decide — depois de anos dentro de uma instituição — que chegou a hora de criar algo com o próprio nome.
Esta semana foi assim. Dois homens com trajetórias sólidas, formadas dentro de casas que definiram o luxo contemporâneo, escolheram novos caminhos. E os dois dizem algo importante sobre o momento em que o setor vive.
Pieter Mulier é o novo Versace
Desde 1º de julho, a Versace tem um diretor criativo. E não é qualquer um.
Pieter Mulier passou pelos bastidores de Raf Simons, pela Dior, pela Calvin Klein. Mas foi na Alaïa que construiu uma das carreiras mais respeitadas da moda contemporânea — dez anos transformando uma marca de culto em objeto de desejo real para uma geração nova, sem abrir mão da identidade original da casa.
Agora ele chega à Versace. Uma marca barulhenta, carregada de símbolo, de história e de contradição. Uma marca que o Prada Group adquiriu em 2024 e que precisava, mais do que de um novo logo ou de uma nova campanha, de uma nova direção de olhar.
A escolha de Mulier diz tudo sobre o que Lorenzo Bertelli quer para essa Versace. Não mais o espetáculo pelo espetáculo. O que se espera dele é o que sempre entregou: sofisticação contida, desejo construído com precisão, identidade que sobrevive ao tempo. A estreia acontece em setembro, na Semana de Moda de Milão. É lá que saberemos se a aposta vai se confirmar. Mas o sinal já foi dado.
François-Henri Bennahmias quer contar uma nova história, a dele
Quando Bennahmias deixou a Audemars Piguet, no fim de 2023, o mercado perguntou: o que um homem que transformou uma relojoaria familiar numa máquina de dois bilhões de francos suíços vai fazer a seguir?
A resposta chegou no início de julho. Ele vai construir uma marca própria.
A N3W5 — pronuncia-se “news” — nasce com 30 milhões de francos suíços de aporte, dois calibres mecânicos patenteados e preços entre 20.000 e 60.000 francos. O nome é um acrônimo das quatro direções cardeais em inglês. A ideia é construir uma nova perspectiva sobre a alta relojoaria. Não nostálgica. Presente.
Os primeiros relógios serão apresentados na Dubai Watch Week, no fim de 2027, com vendas a partir de 2028. Não há pressa, e isso já é um posicionamento. No mercado de luxo, a lentidão é um sinal de confiança. O segmento de relojoaria foi o mais resiliente do luxo nos últimos dois anos e Bennahmias não escolheu um momento qualquer para entrar.
O que estas duas histórias têm em comum? Pessoas que poderiam ter descansado sobre o que construíram e escolheram não descansar. No luxo, isso é raro. E é exatamente o tipo de movimento que o mercado nota.

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