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Nenhuma pista · Sep 21, 2021

Você não tem futuro... aqui!

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Bito Teles · Nenhuma pista

Semana passada entrevistei algumas candidatas à vaga de estágio na equipe de Design que coordeno. Conversar com estudantes traz sempre uma carga de frescor e nostalgia. Duas meninas talentosas, cheias de vontade de crescer e que me fizeram pensar no século passado, quando eu mesmo ia bater na porta das empresas com meu portfólio debaixo do braço, movido pelo sonho e pela esperança.

Durante toda a minha faculdade de jornalismo eu investi no desejo de me tornar “fotógrafo da National Geographic”. Coloco assim entre aspas mesmo porque este era um tipo de mantra repetido à exaustão. Dois TCCs sobre fotojornalismo, dois prêmios de jornalismo ainda como estudante e o destino certo era São Paulo.

Me formei no dia 5 de janeiro. No dia 10 eu já estava pelas bandas da Ipiranga com a avenida São João. Pós-graduação em Fotografia na pauta do dia, trabalhando como repórter para pagar as contas, e muitas mudanças. Resumi muito a história para chegar no ponto em que estou com meu portfólio debaixo do braço, a caminho de uma entrevista num coletivo de fotografia super premiado, que produzia muita coisa pra… TCHARAN! National Geographic.

Naquele dia, saí um pouco mais cedo do trabalho e estava pronto para a grande virada. Finalmente iriam descobrir o meu talento, uma jóia a ser lapidada. Cheguei e fui recebido pela Carol, uma colega de pós-graduação que trabalhava lá e que tinha me aberto o canal. Ela estava editando um material produzido pelo coletivo para a Vale do Rio Doce. Eu babando enquanto aguardava minha chance.

A entrevista não foi longa. Um dos fundadores do coletivo folheou minha pasta com cuidado, sem falar nada. Olhava cada detalhe das fotos impressas, passava a mão delicadamente. De vez em quando cerrava os olhos, indecifrável. Eram 24 fotos, principalmente de manifestações culturais e reportagens especiais que eu tinha produzido enquanto estudante e freelancer. Uma delas com menção honrosa na Bienal de Artes Fotográficas - Cor em Andorra. Outra selecionada para um Salão de Fotografia na Pinacoteca de São Paulo. Poxa! Não tinha como dar errado, né?

Foram essas as primeiras palavras do meu entrevistador, após fechar o meu materia e me olhar nos olhos. Claro que pode, por favor. Respondi.

Ouvi, a palo seco, que as fotos não eram ruins, veja bem… mas faltava identidade no material. Faltava estilo. A técnica era aceitável, mas nada apurado o suficiente para chamar atenção, nem elementos de linguagem utilizados sistematicamente. Ele me perguntou se eu conhecia as fotos da “Flávia” (uma amiga em comum). Falei que sim. Ele disse: “você olha para as fotos da Flávia e sabe que são dela. Mesmo tratamento de cor, mesmos efeitos de iluminação, mesmo enquadramento nada ortodóxo. Agora olhe para as suas fotos e diga o que vê? Eu vejo futuro, mas não aqui”.

Engoli. Foi duro, mas engoli. Acho que foi a primeira vez que recebi uma crítica negativa ao meu trabalho. Construtiva, acredito, e negativa, certamente.

Para muita gente, esse golpe seria duro demais. Mas, estranhamente, caminhei leve de volta para casa naquela tarde nublada de São Paulo. Refleti muito sobre o que estava acontecendo e sobre todas as minhas tentativas de me expressar. Num exame aprofundado, percebi que, ao longo do tempo, eu vinha mimetizando o cenário à minha volta, algumas vezes com bastante sucesso, me fazendo passar por fotógrafo e músico, por exemplo. “Eu vejo futuro, mas não aqui”. Talvez ele estivesse se referindo ao coletivo, que meu futuro era em outra empresa de fotografia, mas interpretei à minha maneira e acredito que foi uma epifania importante. Eu tinha futuro, só precisava descobrir qual era.

Dali em diante passei a buscar um pouco mais de indentidade nas coisas que eu fazia, passei a tentar entender como imprimir minha própria marca no mundo, e acredito que ainda estou nesta trilha sem fim. Não deixei de sonhar, só estou tentando ouvir melhor as vozes da minha cabeça.

Ah! Antes de passar para o próximo tópico, uma curiosidade. Alguns anos depois dessa entrevista tive a oportunidade de trabalhar na Editora Abril. Fiquei um ano por lá. Quem editava a National Geographic Brasil era a Editora Abril e, por mais que tivesse desistido do plano de me tornar fotógrafo, achei ali uma oportunidade… vai que, né? Dessa vez não levei pasta de portfólio. Carregava apenas o meu crachá de funcionário. Peguei o elevador para chegar ao andar da revista, atravessei uma porta de vidro e cheguei num grande corredor escuro. Uma protinha tinha a placa “National Geographic” e meu coração disparou. Bati de leve na porta e girei a maçaneta para espiar por dentro. Quatro computadores, tudo meio bagunçado e uma pessoa ao telefone não parou para me atender. Era o fim. Sem glamour, sem fotos maravilhosas plotadas na parede, sem fotógrafos planejando uma próxima exibição. Aquele era o futuro com o qual sonhei tanto? Ufa! Meu futuro não era ali, eu teria que achar outro canto de um jeito ou de outro :)

Uniforme, de Tino Freitas e Renato Moriconi – Editora Gato Leitor

Você pode até demorar um pouco para conhecer o Clóvis, protagonista do livro Uniforme, escrito por Tino Freitas e ilustrado pelo Renato Moriconi, editado pela Gato Leitor, mas não perde por esperar. “Clovis nasceu livre e pelado, como todo camaleão. E, como todo camaleão, aprendeu a se camuflar para sobreviver”. Pronto. Já deu para entender onde vamos chegar?

Particularmente me identifiquei muito com Clóvis em sua jornada de se esconder na multidão e o texto do Tino permite que a gente se sinta acolhido. Afinal, não é errado tentar se adaptar, não é mesmo? Às vezes seguimos para a direita, às vezes para a esquerda, muitas vezes escondemos nossas fraquezas e não existe uma pessoa neste mundo, seja grande ou pequena, que não tenha feito isso uma pá de vezes, né?

E as ilustrações do Moriconi são uma delícia. O preto e o branco predominam, mas parece que as cores brotam na nossa imaginação. Para dar a ideia de uniformidade, cada página tem um padrão bem harmônico e só prestando bem atenção a gente consegue identificar o Clóvis por ali, escondidinho, no fluxo.

E é aí que entra um ponto bem legal de Uniforme. Por mais que tente passar incógnito a cada situação, a personalidade de Clóvis emerge e parece lutar para aparecer. Ele veste o uniforme, sim, mas não deixa de ser ele mesmo por trás daquelas máscaras.

E depois de dançar conforme a música tantas vezes, Clóvis terá a oportunidade de ser livre por um momento e seguir seu coração. Tem ideia do que pode acontecer? É mágico =D

É isso, pessoal! Até a próxima!

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