Hora de interromper o breve hiato não plenajado desta Newsletter. E o assunto não poderia ser outro, a não ser motivo da minha ausência repentina: mudança. Ou melhor… mudanças, no plural.
Quando eu era um jovem poeta costumava ler muita poesia (hoje, raramente), e era apaixonado por uma de Luiz de Camões que subscrevo:
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
Até me espanto que o pequeno Bito de 16 anos valorizava tanto esta mensagem de impermanência. Ou, como brinco, de mudança permanente. Mas é a realidade. Desde cedo cantarolei o “nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia…”, do querido Lulu Santos, uma canção prima do poema de Camões.
O fato é que até relatei aqui, aqui e aqui nessa Newsletter sobre minhas jornadas de descoberta, e hoje quero falar apenas das mudanças físicas mesmo, com caixas, caminhões, latas de tinta e muita saudade.
Em 41 anos, me mudei de residência 14 vezes e estou no momento num gerúndio. Minha esposa e filhos hóspedes na casa do pai dela na Bahia. Eu, hóspede na casa de dois amigos queridos em Brasília, nossas coisas encaixotadas num apartamento em obras. E mudar-se é sempre um caos: decidir o que vai e o que fica, o que vende e o que doa, além de encontrar coisas que julgávamos perdidas para sempre.
A falta de 4 paredes para chamar de minhas não me deixa a sensação de não ter um lar, no entanto. O que me incomoda é a falta da família por perto. Quando fiz o quadro acima (e ele foi ganhando novas ruas ao longo do tempo), foi para que a gente se lembrasse sempre que todos esses lugares passam, mas a gente fica.
A primeira vez que saí de casa, com 18 anos, fui morar em Natal, no RN. Um calouro do curso de Ciências Biológicas completamente despreparado para viver longe do conforto da casa dos pais, completamente despreparado para aulas de Química Inorgânica, Química Experimental, Bioquímica e Fisicoquímica no primeiro semestre. O que sobrava de química na grade da UFRN, faltava na minha relação com a cidade. Não durou um ano e voltei para Salvador sem nem trancar o curso. Larguei de mão, literalmente.
Da segunda vez, aos 26, formado em Jornalismo, depois de começar outros 3 cursos universitários, saí para passar 1 ano fazendo uma pós em São Paulo. Comecei a namorar com Vanessa, fiquei 3 anos e meio na selva de pedra, depois fomos pra Brasília, onde moramos por 2 anos. Mas todo esse tempo eu carregava uma Salvador imaginária em minha cabeça, o lugar para onde eu iria voltar e jamais voltei. O lugar onde estavam meus pais, meus irmãos, meus amigos, onde eu ia para o estádio ver jogo de futebol, a Ilha… movido por essa fantasia de voltar, voltei.
Da terceira vez que saí de Salvador, foi para Brasília novamente. E já são quase 7 anos morando no quadradinho mais lindo (e seco) do Brasil.
Hoje, momento em que estou mudando - no gerúndio mesmo, como disse - vivo no DF, mas meu coração, alma e mente (e filhos, e esposa, e livros e todas as minhas coisas) estão em Salvador. Me preparando para novas mudanças. Louco para estar com eles de novo, para sempre, seja onde for.
Rapaz, tem. Lembrei aqui do livro Lá e Aqui, escrito por Carolina Moreyra, ilustrado por Odilon Moraes, da editora Pequena Zahar.
Lá e Aqui é narrado por uma criança que descreve a sua casa. Lá “tem lago cheio de peixes, sapos no jardim, muitas flores coloridas, um pai e uma mãe”.
O plot, no entanto, é que, de repente, uma casa viram duas. Uma tem o pai, a outra tem a mãe. Olhos cheios d’água, um alagamento, e cada casa com suas próprias coisas, com suas próprias vidas e identidades, e a criança ali no meio.
O livro é delicado ao apresentar a dor, o sofrimento, mas, sobretudo, a realidade da separação. Lá e Aqui é um livro que pode funcionar muito bem para os adultos, inclusive, que poderão usar o texto e as ilustrações para elaborar seus próprios pensamentos sobre essa vida dividida, essa vida de mudança.
Este e outros livros infantis estão à venda na Livroteca Story Time, uma livraria dedicada à literatura infantil que fundei junto com a Vanessa, minha esposa e sócia. Entregamos em todo o Brasil =D
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OBS: Nenhuma Pista é uma newsletter semanal, enviada toda segunda-feira, feita com muito amor e quase sempre estourando o deadline :)
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