A produção de livros em sala de aula pode parecer algo inusitado de se pensar, mesmo em um curso de Letras, no ensino superior. Mas foi a partir do conhecimento sobre o cenário independente local, tanto de Belém quanto de Macapá, que entendi a importância de levar a confecção de livros autorais para a sala de aula. Vários outros professores do ensino básico já realizam esse tipo de atividade em suas turmas, conheço alguns que incentivam o conhecimento sobre o zine ou sobre livros artesanais, e é incrível saber como os discentes se envolvem na feitura. As oficinas de zine realizadas em duas turmas do curso de Letras - Língua Portuguesa na UEAP (Universidade do Estado do Amapá), para mim, funcionaram como ferramenta pedagógica para a minha sala de aula, mas igualmente como instrumento a ser utilizado para os futuros professores como ferramenta pedagógica para suas turmas, seja no ensino básico ou superior.
Ao levar artistas convidados, como Gabito e Luana Góes, dois artistas independentes de Macapá, o momento se torna único e especial, pois é a partir, também, do conhecimento de um especialista, que os discentes entraram em contato com essa produção.
A recepção de pessoas de fora do ambiente acadêmico também revela a importância de trazer o âmbito social para dentro da sala de aula, quase como uma prévia ou um vislumbre do que ocorre na sociabilidade artística. Além de tentar valorizar quem já atua no meio literário, o contato tão próximo com eles desmistifica a ideia de que a arte, a literatura e a cultura estão distantes de nós, principalmente considerando discentes de realidades sociais tão distintas entre si.
Nas oficinas, os alunos soltaram suas criatividades na elaboração de textos autorais, com colaboração minha, na revisão e sugestões de edição, mas com pouquíssima intervenção no processo criativo. E, ao mesmo tempo que me surpreendi, fiquei extremamente feliz ao poder ler textos e zines muito bem feitos, de conteúdos especiais, como foi o caso de uma aluna que escreveu seu texto a partir de uma história de seu filho; ou outra que escreveu sobre seu filho; além dos que expressaram sua subjetividade por meio do desabafo sobre angústias, medos, desejos, valores, etc.
No primeiro semestre de 2025, com a primeira turma a realizar um trabalho avaliativo com zines, também tivemos a oportunidade de apresentá-los em um evento na Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), uma experiência emocionante e que reafirmou um dos propósitos do trabalho: levar a autoria literária dos discentes para âmbitos fora da sala de aula, também. Alguns discentes puderam falar com o público sobre como foi confeccionar seu zine, qual era o conteúdo deles e como se sentiram ao confeccionar seu primeiro livro, de forma artesanal. Foi lindo!
Logo após, ao conhecer a Biblioteca de Zines da Luana, também foi possível inserir as produções deles no website, deixando suas produções à disposição de qualquer internauta que deseje lê-los. Essas oportunidades que surgem a nós, principalmente ao se pensar no protagonismo dos discentes, são coisas nem sempre fáceis de conseguir, mas quando acontecem, é preciso atendê-las e, com a colaboração de todos os envolvidos, foi possível que os livros saíssem das quatro paredes da universidade.
O trabalho com a literatura e, especificamente com a literatura independente, a partir da produção autoral, da exposição de obras e presença de artistas locais, é mais do que frutífero em sala, acredito eu; inspira muitos a acreditarem em si mesmos enquanto escritores, artistas, e expõe as diferentes maneiras de se fazer literatura, de ler literatura, de consumir e produzir literatura, maneiras essas muito mais próximas do que aquelas pregadas tão majoritariamente, ainda, em algumas universidades, as quais se baseiam no ensino de literatura somente a partir do cânone literário. Nada contra o cânone, ele precisa ser estudado e conhecido, mas é sempre bom alargar as perspectivas, no sentido de aproximar as artes e a literatura de qualquer público que esteja interessado nelas.
Antonio Candido, mesmo com todas as problemáticas pertencentes ao seu texto clássico (O Direito à Literatura, de 1995), pregou sobre o direito à literatura como um direito inalienável, e tendo a utilizar essa parte em específico para pensar esta minha sala de aula hipotética (que, claro, sempre muda a partir de cada semestre e turma, porque, afinal, estamos lidando com o subjetivo inerente à humanidade) seguindo uma perspectiva-base: a de que a literatura pode e deve estar disponível para todos. Literatura sem a distinção proposta por muitos teóricos e estudiosos da área, literatura sem hierarquias e subdivisões se pensada como ficção, criação artística, trabalho com a linguagem.
Sob essa perspectiva, o zine, enquanto produção artística e literária, enquanto instrumento de resistência e luta a favor de um contradiscurso, enquanto ferramenta didática, entre outras funções que ele pode exercer, torna-se um objeto artístico enriquecedor para a sala de aula quando bem pensado para determinados propósitos.
Jeniffer Yara
Professora e Pesquisadora em Estudos Literários na Universidade do Estado do Amapá
Nota da Idealizadora:
A newsletter da Biblioteca de Zines tem sido um espaço bem legal pra compartilhar textos de diversas pessoas, em diferentes lugares, sobre processos, oficinas, zines e afins. Convido pessoas para compartilharem suas coisas, afinal, toda perspectiva merece ter seu espaço por aqui. Tem sido muito gratificante poder panfletar esses textos e ter essas trocas. Acho importante apreciar as pequenas e grandes conquistas e, assim como zines tem diversos formatos, tem muitas pessoas por aí com coisas diferentes pra se dizer. Se alguém lendo isso tiver interesse em publicar algo com a gente, manda um e-mail em bibliotecadezines@gmail.com!
Essa é a newsletter da Biblioteca de Zines! Acesse nosso site, explore a biblioteca, e mais importante, FAÇA ZINES!
Postado por Luana Góes
Artista multimídia, designer e idealizadora da Biblioteca de Zines

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.