Copa do Mundo, 12 de junho de 2026
Começou a Copa e eu escrevo pouco sobre futebol. Devia escrever mais.
Ao que eu me lembre, assim, de cabeça, foram três histórias.
A primeira, do tempo em que havia picolés, Belchior, galos, noites e quintais, vai assim:
PICOLÉ
Fim de tarde, vento e sol às costas, mar à frente, e eu ali, sentado na areia, no alto de uma duna, tirando o cabelo dos olhos e pensando na vida — como se não tivesse uma história para escrever.
Entretanto, foi assim, sentado, pensando na vida, ouvindo o barulho do mar e do vento, que pude assistir, ninguém me contou, a história de hoje.
Como disse, era fim de tarde: aquele horário em que o sol já perdoa a pele mas ainda ajuda a vista. Horário, fiquei sabendo depois, de um tradicional futebol entre veranistas bem conceituados.
Os participantes — atletas seria um exagero —, iam chegando em lustrosos automóveis e trocavam efusivas saudações. Todos abraçavam todos. Dividiram os times por algum misterioso critério e, uniformizados, foram à luta, ao jogo, com uma seriedade digna de espanto.
De minha parte, do alto da minha duna, a coisa mais notável ao longo dos primeiros vinte minutos, além de algumas ameaças e xingamentos, foi a aproximação, olhos fixos no jogo, do vendedor de sorvetes, vestido de palhaço. Estacionou seu carrinho, tirou a peruca e o colarinho, deu-se ao luxo de um picolé e virou assistência.
O jogo, com regras muito assemelhadas com as do futebol, diferenciava-se deste, até onde pude perceber, pela ausência total da lei do impedimento e pelo fato que, na falta de um juiz, todas as decisões eram disputadas, literalmente, no grito.
A normalidade das ações vai até o momento da lesão de quem parecia ser o craque do time onde jogava a maior autoridade em campo, o dono da bola — suas decisões não eram contestadas aos gritos. Ali, começou meu interesse.
Lesão constatada — dois aparentes médicos acorreram —, jogo parado, falta gritada e aceita, bola sob o braço da autoridade que, ansioso, dita a nova regra:
— O jogo não recomeça com um a menos!
Diante da absurda opção sentada em uma duna, restava o palhaço.
— Ô Picolé! Você joga?
Dez minutos em campo, segundo contra-ataque do time adversário e a segunda falta de cobertura ao seu avanço, o novo jogador não se fez de rogado. Diante da perplexidade de todos, abriu os braços em direção a quem o havia convidado e gritou:
— Ô Doconvite! Dá pra correr? Vai cobrir minhas subidas ou não?
O silêncio só foi quebrado pela ofegante resposta, acompanhada de uma sacudida cabeça baixa:
— Certo! Cubro nas próximas!
Mais tarde, quando o sol e os gritos decidiram que a prorrogação teria apenas alguns minutos, o jogo estava empatado e a bola estava com Picolé.
O dono da peruca e do colarinho ouviu o vento, não ouviu o que gritavam, não passou pra ninguém, não largou a bola, driblou tantos adversários quantos apareceram e, sorrindo, estufou as redes adversárias.
Correram todos para abraçar Picolé. Fim do jogo.
Enquanto os carros lustrosos faziam barulho ao ir embora e o carrinho de sorvetes começava a sair da areia que se acumulara em suas rodas, desci da duna e vim escrever essa história.
A segunda tentativa não é uma história. Antes, é o testemunho de uma tristeza.
O texto ia bem. Morreu Pelé. O texto não faz mais sentido. Perdoem.
Obrigado, Pelé.
A terceira história, minha segunda crônica, mais recente, meio confessional, meio cozinha que intitula esta ladainha, abre seus trabalhos afirmando que não existe defesa redentora. Este é seu cantar:
VIDA DE GOLEIRO
Um dia, noutra vida, fui goleiro.
Ser goleiro é diferente de jogar no gol. Jogar no gol é ocupação temporária: é aceitar ficar lá pela goleira, usar preferencialmente as mãos e ter uma certa disposição emocional — alguma coisa entre a humildade e o altruísmo — para não perder amigos.
Já o goleiro é gente de outra espécie: ele tem a consciência orgulhosa dos seus privilégios e a certeza grave das suas obrigações. Se veste diferente. Tem um território em que é intocável e uma área para chamar de sua. Vê o jogo de frente, comanda barreiras e lê os olhos dos adversários. Tem a obrigação de defender as bolas fáceis, a hipótese do heroísmo nas difíceis e a tenebrosa perspectiva da catástrofe diante de qualquer erro.
Isolado na sua individualidade, raramente junta-se ao aglomerado das comemorações. Seu comedimento é do tamanho das suas responsabilidades. Em jogos fáceis, contenta-se com a alegria superior de ver seus meninos brincarem felizes. Nas falhas, ouve o silêncio morno da sua torcida — não existe defesa redentora. Falhar é para mortais. Goleiro não tem vida fácil.
Lembrei desta outra vida na semana passada, lendo uma extraordinária matéria escrita por invencíveis jornalistas esportivos: as notas dos jogadores do Grêmio após uma vitória fácil por 3 a 0.
Depois de breves considerações e um travessão, a nota: um simples e implacável veredito de zero a dez — frio, preciso, rigoroso.
“Fulano: Poderia ter apoiado mais. Deu a assistência para o primeiro gol. Nota: 6
Beltrano: Tentou coordenar o sistema defensivo. Atuação segura. Nota: 6,5
Goleiro: Não teve trabalho. Nenhuma defesa. Nota: 5”
Não sou mais goleiro. A vida segue difícil.
Antes de dizer que fui, conferi a última frase: é… segue difícil.
Boa Copa.
Fui.

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