O feminismo foi, durante três séculos, o assunto mais comentado e mais vendido da história intelectual do Ocidente. Sobre ele se ergueram impérios filosóficos e financeiros, escreveram-se livros de ótima vendagem, produziram-se cursos de extrema qualidade por autoridades de reputação elevada e ilibada. Sabia-se onde moravam as principais feministas, o que comiam, de quem eram meio aparentadas. Se havia um assunto sobre o qual as pessoas se julgavam informadas, esse assunto era, definitivamente, o feminismo.
Contudo, durante todo esse tempo, proporcionalmente ao seu connaissance, o “feminismo” nunca chegou a ganhar uma definição unificadora e pacífica. Dentro do próprio movimento de emancipação feminina, esse “ele” sempre foi tratado como um ser informe, uma substância escorregadia que ninguém ousava nomear com precisão. Alguns diziam que era qualquer coisa; outros preferiam não dizer coisa alguma, para poderem dizer, amanhã, que era outra, transfomando-o assim em um conceito elástico o bastante para engolir tudo (inclusive seus próprios críticos).
Mas se o feminismo nunca foi devidamente definido por seus praticantes, tampouco o foi por seus críticos, uma vez que o antifeminismo sofre, em grau ainda mais agudo, da mesma afasia conceitual que denuncia no adversário.
Do lado antifeminista, a recusa em definir o adversário produziu consequências políticas previsíveis: o feminismo tornou-se, nas mãos de quem o odiava, um espectro adaptável ao medo de cada um, um bicho-papão que não precisa aparecer ao vivo e a cores para que se saiba que vive e reina. Com esse monstro fluido e onipresente era possível fazer muita coisa. Era possível mobilizar bases, vender livros, construir carreiras. O que não é possível fazer é combatê-lo com precisão, porque um adversário sem contornos não pode ser derrotado, apenas evocado.1
Foi por isso que, quando alguém saiu gritando que o feminismo estava morto, a reação inicial foi de pânico, não de luto. Perguntavam, em desespero: quem morreu? E a resposta, como a do bêbado da piada, era sempre a mesma: ele.
Logo, a crítica ao feminismo, se quiser ser algo mais do que o eco invertido do discurso que combate, precisa começar por onde todo exame sério começa: pelo objeto. A tarefa de dizer quem morreu, ou se morreu, continua sendo nossa. Não porque seja simples, mas porque sem ela não há autópsia possível. Há apenas o falatório de sempre, muito barulho sobre um cadáver que ninguém examinou.
O feminismo não é, e nem deve ser tratado, como um bicho-papão.

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