Estou aqui em um domingo — sentada ao pé de uma criatura estranha que se alimenta de luz, nós duas rodopiando no vazio do espaço a bordo de uma bola de lava crocante por fora e macia por dentro, que inclusive levou alguns bilhões de anos até se tornar habitável por organismos multicelulares como a gente, o que por sinal poderia nunca ter acontecido —, estou aqui me perguntando se eu tenho que fazer um TikTok.
Muito importante.
Pra mostrar “pro mundo” o que a gente acha que é a nossa personalidade, ou gostaria que fosse, tem que filmar e fotografar de vários ângulos, posar de um jeito diferente pra cada rede social, de acordo com o que performa melhor naquele código. Digo a gente, mas estou falando de mim — todo mundo está falando de si. Aí é torcer pra que os outros consigam juntar tudo, o seu lado espontâneo e o seu lado profissional, os memes e os artigos acadêmicos, pra formar uma imagem tridimensional do seu eu. Olha que nem sou tão presente nas redes sociais, e mesmo assim sinto que, em boa parte do tempo, só penso em mim. Mas não em mim: na Dominique. Me vejo de fora, de várias perspectivas simultâneas — é como estar sempre dentro de um provador de loja desses que tem espelho na quina, sabe? Pavoroso. Não é natural se ver de perfil, e ainda flipada pro lado certo, acaba com o dia de qualquer um. Até por isso mesmo que não sou presente nas redes sociais, porque muita coisa que penso em mostrar ou dizer, eu vejo no espelho da quina e já acho que tá péssimo, que não tem nem porque sair com aquilo do provador. Quem trabalha com imagem, então, além de tudo também é quem instala os espelhos. Tudo é um trabalho de direção de arte — tudo tem que ser uma prova de que eu sou boa no que eu faço.
Eu comecei aqui no Substack há três posts atrás com uma decisão: usar a plataforma para escrever textos tão longos quanto eu quisesse, sobre assuntos tão obscuros e nichados quanto eu quisesse, em vários formatos e com a maior frequência que eu conseguisse, sem me importar com engajamento — até porque achei que ninguém ia ler. É claro que queria que lessem. Mas antes de tudo fiz um compromisso com o exercício de escrever. Uma das coisas que sempre amei sobre escrever é como o que aparece no papel é sempre uma surpresa, mostra que não tenho ideia de quem eu sou. Mostra que eu nem sou nada, só estou aqui pra deixar umas coisas entrarem pelos meus olhos e ouvidos e terminações nervosas e saírem pela ponta dos dedos — não tão diferente de uma árvore. Lembra dos gráficos do livro de ciências, sobre fotossíntese? Setinha vermelha entrando, setinha azul saindo. Algo assim.
Essa edição do atraso é uma encheção de linguiça, porque eu inventei coisa demais pra fazer, tudo ao mesmo tempo, e me atrapalhei no planejamento do que queria escrever. Mas não leve a mal, eu adoro embutidos, fiz com capricho. Como é um formatinho mais breve, direto e sincero, só pra não perder o ritmo entre textões, resolvi chamar de desculpe o atraso.
Estou fichando o livro Immediacy or, The Style of Too Late Capitalism (Verso, 2023), da pesquisadora de teoria literária, e de cultura em geral, Anna Kornbluh. Ela investiga como o imediatismo se tornou um estilo, um atributo estético de tudo que vemos por aí. Por imediatismo ela está falando de velocidade, mas também de falta de mediação. A arte é um projeto de mediação, ela diz, de representações e símbolos dos quais se tenta fazer sentido. Não é a forma mais eficiente de passar uma mensagem, e essa é justamente a força da arte: jogando uma luz indireta, permite ver as coisas de outro jeito. Mas no tempo do imediatismo, estamos perdendo a valiosa ineficiência da arte — trocando o imaginário pela literalidade, pela “sinceridade” da primeira pessoa. Encontrei essa entrevista aqui com a autora, em português.
Bem antes de pensar em ser designer ou ilustradora, eu ajudava minha avó a passar os “riscos” (como ela chamava) das revistinhas de artesanato para a madeira, pano ou papel — o que quer que ela estivesse inventando. Minha avó experimentou todas as artes manuais, desde tricô até um tipo muito específico de artesanato, que nunca mais vi, em papel vegetal (muitos desenhos de carneirinhos, flores e borboletas, com molduras rendadas picotadas no papel). Faz só uns dois ou três anos que percebi a influência que esses modelos de copiar tiveram no meu trabalho, tanto nas formas, bem demarcadas e bidimensionais, quanto nos temas — frutas, flores, animais. Outro dia, passando comigo debaixo do viaduto, o Brunno Balco apontou pra uma sacola que tinha só a pontinha de um livro de artesanato pra fora (que olho, viu?). Acontece que não era um, era uma coleção, do fim dos anos 70, início dos 80 — levei tudo pra casa.
Mais um achado no chão. A caixa estava bastante arrebentada, mas era um kit de impressão para crianças. Os menores tipozinhos móveis do mundo e uma pinça para compor as linhas; se não me engano, tudo de metal — ótimo para engolir. A embalagem estava em não lembro qual língua, e claramente tinha algumas coisas faltando, mas mesmo assim fiquei fascinada. Eu sou péssima documentarista, não fiz foto e não levei pra casa. Mas nas semanas seguintes cismei em pesquisar outros brinquedos parecidos. Encontrei vários.
Inclusive um vídeo mostrando um deles em uso.
Acho que na cabeça de uma criança a distinção entre brincadeira e trabalho não é mesmo tão evidente. Minha mãe trabalhava lendo, por exemplo, e pelo tanto que ela se concentrava, eu concluía que só podia ser muito divertido. Quando eu era bem pequena, lembro de atravessar a Editora Vozes de mãos dadas com ela. As máquinas pareciam enormes e as pilhas de papel, altíssimas. Adorava ver o pessoal passando pra lá e pra cá carregando embrulhos em forma de livro, gostava até do barulho — mas o cheiro, de papel e tinta, era minha parte favorita. Tenho uma foto do meu avô naquele mesmo lugar, quando ele ainda era uma criança, mas já trabalhava de verdade.
Alguns dos brinquedos mais cobiçados da minha infância eram versões coloridas de ferramentas de trabalho. A famosa máquina de fazer sorvete da Eliana, por exemplo, qualifica. Lembro também de uma cabeça, só a cabeça, de boneca, feita para cortar cabelo e maquiar. Os kits de lâminas e microscópio eram um luxo, para as crianças torturarem insetos em nome da ciência. Alguém lembra de mais algum? Há meses estou com essa curiosidade engavetada, afim de pesquisar mais sobre a história dos brinquedos que imitam trabalhos, e pensando sobre trabalhos atuais que não dariam brinquedos muito bons.
Estarei na Feira Canastra Pocket, dia 10 de maio em Belo Horizonte. Vou participar com o coletivo Elogios & Sugestões — que somos eu e Ju Montenegro, amiga e também ilustradora que compartilha muitas inquietações comigo. Como disse para alguém, gosto de pensar que ela é Elogios e eu sou Sugestões, uma coisa meio dupla sertaneja. Quem for de BH ou estiver procurando uma desculpa pra visitar essa cidade muito bacaninha, passa lá e dá um oi.
Até já 🕒
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