Bem-vindo à Califórnia. Entre duas falhas geológicas, próximo à Baía de São Francisco, está a região que desde a década de 70 se chama de Vale do Silício. Aqui fica o parque industrial de Stanford, que, começando em 1951, sediou empresas como a HP, a Kodak e a GE – o lugar para onde foi enviada a primeira mensagem via internet. Aqui nasceu Steve Jobs, em 1955, e também o primeiro microprocessador, inventado pela Intel em 1971. A Apple se estabeleceu em Cupertino, em 1976. Algumas das maiores empresas de venture capital, sem as quais não haveria Instagram, Uber nem Chat GPT, estão localizadas todas na mesma rodovia, a Sand Hill Road – que nos leva a Palo Alto, agora em 1991, ano da fundação da IDEO. Alguém lembra da IDEO? Por culpa deles, nos meus primeiros anos de graduação só se falava em design thinking. Por culpa deles, colei muitos post its, aprendi muitas buzzwords e aturei por anos os delírios megalomaníacos que homens de camiseta preta importavam de São Francisco para a Barra da Tijuca.
A Califórnia era território mexicano até a invasão americana que culminou na sua anexação, em 1848. Naquele ano, um homem chamado James W. Marshall encontrou ouro no atual condado de El Dorado. A subsequente Corrida do Ouro legitimou uma brutal campanha de extermínio, que hoje se reconhece como um genocídio: a população nativa foi reduzida a nem 10% do que era antes da chegada dos invasores. Era apenas o destino manifesto, justificavam os americanos, a justa expansão da civilização. E que civilização eram os Estados Unidos, né? Um exemplo de liberdade, democracia e prosperidade cuja fundação só podia anunciar um novo tempo, um Novo Mundo. Conquistar o (far)oeste em nome do progresso era só o início do que, no século seguinte, tornaria-se um projeto de imperialismo global, conduzido não só com poder de fogo, mas acima de tudo, de comunicação. O verbete “destino manifesto” na Wikipedia é ilustrado com a pintura American Progress: nela, a personificação da “América” não por acaso é retratada carregando um fio telegráfico, enquanto carroças, carruagens e cowboys perseguem, para fora do quadro, quem já morava alí muito antes.
A história dos Estados Unidos é a história de uma cultura com pressa para alcançar o futuro, um povo que confundiu inovação com virtude. O domínio da energia elétrica, o primeiro plástico 100% sintético, o telégrafo, o telefone, a televisão e o transistor são todas invenções reivindicadas pelos Estados Unidos que, conforme foram adotadas em todo o mundo, mudaram a paisagem, nosso modo de vida e nossas mentes, irreversivelmente. Novidades cintilantes disseminaram o louco otimismo liberal americano pelo mundo afora, fazendo do século XX, como diz Franco Berardi, “o século que acreditou no futuro”. Um século de promessas e de febre tecnológica, à direita ou à esquerda. O comunismo soviético antagonizou o capitalismo americano oferecendo uma versão alternativa de progresso – mas progresso de qualquer forma, com usinas nucleares, foguetes espaciais e tudo o mais. A questão é que, se a URSS tinha foguetes, nunca teria Bruce Willis salvando a Terra de asteroides ao som de “I don't wanna miss a thing 🎵”. Nunca teria Hollywood. Os EUA entenderam como ninguém o poder de hipnose das telas. A grande guerra vencida por eles foi pela nossa imaginação, a guerra pelo futuro que poderia ser – e foi decidida na Califórnia.
O chamado “Golden State” era a Utopia dos colonizadores, uma paisagem selvagem – planícies de arbustos dourados, cadeias de montanhas à beira mar e ventos ferozes – a ser domada pela engenharia. Utopia, explica Ursula Le Guin, é o Lugar Nenhum, eternamente “não-aqui e não-agora”, para onde se quer escapar, seja em busca de ouro, de uma chance no show business ou de uma comunidade alternativa. Para que da Califórnia fosse feita a Utopia, era preciso transformar um lugar que existia em outro que não existia. Onde bem alí estavam, há milênios, morros e vales, rios e pedras, povos com seus afetos, histórias, línguas e ritos, de repente era tudo novo, sem nome e sem dono. O “descobrimento” é um “método de esquecimento organizado”, diz Ursula. Uma cultura voltada para o futuro, ao dominar outra que cultiva o estar no presente, impõe sobre ela o esquecimento. É mais fácil se livrar de um povo sem passado.
Quem leu ou está assistindo Cem Anos de Solidão pode se lembrar da epidemia da insônia. Quando a doença invade Macondo, mantendo todos no povoado acordados, José Arcadio Buendía a princípio comemora que sem dormir “a vida rende mais”. Quem alerta sobre o efeito mais grave da insônia são os indígenas: a falta de sono faz perder a memória. Os habitantes de Macondo então vão se esquecendo do nome das coisas e de para que elas servem, passam a se orientar por lembretes, conscientes de que tudo estaria perdido quando não soubessem mais ler. Essa passagem sempre foi uma das minhas favoritas, e tenho pensado muito nela. A vida hoje é uma constante vigília. Rendemos (ou queremos render) muito, dormimos pouco, sonhamos nada, olhamos sempre em frente, para a próxima coisa, nunca para o chão ou para o céu. Saltamos de novidade em novidade – Fernanda Torres, Zuckerberg, incêndio na Califórnia, saudação nazista do Elon Musk, Fernanda Torres de novo. A internet é nosso “método de esquecimento organizado”. Primeiro esquecemos do nome das coisas porque podíamos perguntar ao Google; agora esquecemos para que servem, contando com o Chat GPT para nos dizer. Vivemos como o povo de Macondo vivia, “numa realidade escorregadia momentaneamente capturada pelas palavras, mas que haveria de fugir sem remédio quando esquecessem os valores da letra escrita”.
Eu nunca pisei na Califórnia nem em nenhuma outra parte dos Estados Unidos. Mas fiquei convencida de que o melhor jeito de entender a internet e, por consequência, os nossos cérebros nos últimos vinte anos ou mais, é desenhando um mapa desse lugar nenhum. Sinto que, sem perceber, fui sugada pelo monitor de tubo que minha mãe trouxe pra casa em algum momento dos anos 90. Fui tirando os pés do chão até que estivesse flutuando nessa realidade virtual, e agora estou, estamos, procurando o caminho de volta. Por indicação da Clara Browne, li “A ideologia Californiana” e aprendi que esse nosso presente foi um sonho de hippies e yuppies trabalhando em conjunto: a atitude faça você mesmo dos hippies, o oportunismo empreendedor dos yuppies e o financiamento dos militares. A definição distintamente americana de “liberdade de expressão” é levada às últimas consequências, em uma terra ainda sem lei — a internet é um outro faroeste, para onde você também pode se aventurar em busca de ouro, fama ou comunidade. Só que é um faroeste do tamanho do mundo; maior até. Enquanto escrevia isso, me veio à cabeça um episódio de Pinky e o Cérebro, em que o Cérebro convence o Pinky a criar uma duplicata da Terra em papel machê. A ideia é atrair todo mundo pra lá, e finalmente dominar o planeta, quando não tiver mais ninguém nele. Não tem uma metáfora aqui em algum lugar?
A coisa sobre as utopias é que elas são inabitáveis – tanto Ursula Le Guin quanto Franco Berardi chegam a essa conclusão. “A utopia se realiza”, diz o último, “mas com um signo contrário àquele com o qual ela se formou na vanguarda” – quer dizer, vira distopia. Estamos só na segunda década do milênio e o cenário já é outro para as startups de tecnologia, que há dez anos atrás não tinham a menor pressa em lucrar e levantavam generosas rodadas de investimento. Uns três ou quatro magnatas acabaram com qualquer ilusão de livre concorrência. Em 2023, o banco do Vale do Silício colapsou, depois de um pânico bancário que esvaziou os seus fundos. O papo do design thinking não cola mais (no mesmo ano, a IDEO mandou embora um terço dos funcionários). Enquanto isso, a OpenAI, lá em São Francisco, consome nossos recursos naturais para alimentar um robô miserável que faz regra de três para você, e Donald Trump promete anexar a Groenlândia para, entre outras coisas, extrair minérios usados em carros elétricos. Assisti a uma matéria sobre isso no Fantástico, seguida de um comercial de The Masked Singer Brasil. Ninguém aguenta mais o futuro.
A conclusão está escrita. Todo mundo viu imagens da Califórnia em chamas. Não é nada inédito: os incêndios em Malibu são um fenômeno recorrente por uma combinação específica de baixa umidade, ventos fortes, cadeias de montanhas e o tipo de vegetação local. Quem diria, parece que aquele lugar nunca foi apropriado para construir mansões. A contenção dos incêndios, na qual a administração local e os moradores trilhardários despejam fundos anualmente, é ineficaz, desperdício de dinheiro. Talvez os antigos habitantes pudessem avisar, se alguém ouvisse, que era preciso deixar queimar: o fogo é natural nesse ecossistema, renova a vegetação, que renasce mais variada — e menos inflamável. Se não estivéssemos tão apegados às utopias, poderíamos reaprender o que já se soube, ainda a tempo de escapar do incêndio.
Não, em vez disso, como prometeu a cenoura embolorada que os Estados Unidos elegeram pra presidente de novo, vamos conquistar Marte, e manifestar lá também essa desgraça de destino.
Aqui vai uma listinha fora de ordem e inadequada para a ABNT de tudo o que mencionei:
O ensaio da Ursula Le Guin sobre as utopias e a Califórnia.
O livro Depois do Futuro, de Franco Berardi.
Essa ótima explicação de como a internet começou.
A Ideologia Californiana, que é a versão mais rebuscada e menos recente da explicação acima.
Essa matéria mó deprimente do Fantástico sobre a Groenlândia.
Esse episódio de Pinky e o Cérebro.
Vou deixar de fora o discurso bizarro do Trump porque mostrar a cara dele uma vez já é mais do que o suficiente.
Razões para deixar Malibú queimar, de Mike Davis.
Um artigo da Universidade da Califórnia sobre como os povos indígenas usavam o fogo para restaurar a terra. Tem em vídeo também.
Meia dúzia de páginas da Wikipedia (fé).
Entrar num cômodo e já começar a falar de um assunto aleatório é tão a minha cara que até desisti de escrever um oi e uma introdução, mesmo essa sendo minha primeira publicação no Substack. Não serão todas assim, sobre atualidades — é que por acaso a pesquisa pro mestrado me trouxe pra temas que têm muita relação com o que está rolando agora… deu vontade de comentar. Na próxima, vou contar um causo.
E se você chegou até aqui embaixo, obrigada!
Até já! 🕒
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