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astrolirismo · Jun 29, 2026

Entre uma volta e outra

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lívia · astrolirismo

É curioso perceber como o céu atual, embora pareça bagunçado à primeira vista, esteja traçando um caminho muito bem delineado. Existe um fio condutor atravessando todos esses movimentos, ainda que ele passe despercebido para a maioria. De trás para frente, o céu nos traz o peso do tempo. Trânsito vai, trânsito vem, e os horóscopos continuam falando sobre recordar. Através de uma trajetória taciturna e introspectiva, emerge o que antes foi: a memória. A astrologia, às vezes, é prolixa. Bem como a vida, que é cheia de repetições às quais, crivelmente, denominamos coincidência. Mas eu não acredito muito no acaso, não.

A começar por Marte em Gêmeos: o desejo e a linguagem. Atemporal. Mais constitutivo do que isso, só a roda e o fogo. Sempre atual, com a curiosidade fresca de uma criança e com perguntas que emudecem os mais velhos e sua arrogância. O guerreiro, inserido numa atmosfera geminiana, questiona o que ainda desperta em nós a vontade de descobrir, quais são as perguntas que nos impulsionam.

Passeando por seus ares, somos encaminhados a uma viagem no tempo: volta o infantil, o balbucio, o querer apenas porque sim. Esse trânsito nos lembra que existem inúmeras formas de agir. É uma ação que nasce da curiosidade. Uma ação movida pelo desejo de saber, de conhecer, de experimentar o mundo antes mesmo de o conhecermos completamente. Eu o compreendo como um trânsito de revisitação porque ele nos tira daquele lugar endurecido pelo tempo. Aquele lugar pessimista no qual as possibilidades são parcas. É bom lembrar que é possível experimentar outros caminhos, que podemos sustentar mais de uma possibilidade ao mesmo tempo, reinventar a maneira como nos colocamos em movimento.

Em seguida, inicia-se o temido Mercúrio retrógrado. Em Câncer, o céu persiste no mesmo convite: olhar para trás. Reavaliar as nossas raízes. Revisitar tudo aquilo que nos constituiu. Estudar a estirpe. O céu é nostálgico, é saudosista, e agora ele nos conduz de volta para esse território.

Nesse período, somos convidados a reexaminar as nossas emoções, tendo como referência a nossa base, aquilo que aprendemos sobre afeto, cuidado, pertencimento e segurança. É um período que pede uma revisão daquilo que nos formou emocionalmente. Uma investigação sobre o que merece permanecer conosco e o que já cumpriu sua função.

É preciso retornar a um passado mais primordial, para, quem sabe, encontrar partes de nós que ficaram pelo caminho. Recordar para elucidar a percepção daquilo que despertava o desejo. A nostalgia se impõe não como um acalento, e sim como mais uma possibilidade de se reconhecer e se refazer.

E fazemos tudo isso porque, em algum momento, será necessário criar. Será necessário brilhar. Será necessário sustentar uma autoexpressão autêntica. Carregando a bagagem daquilo que nos engendrou, sim, mas também aprendendo a existir para além dela. Para além da nossa casca canceriana.

E, na superfície, temos o recém-chegado Júpiter em Leão, inaugurando um longo aprendizado que se estenderá ao longo do próximo ano. Depois das perguntas de Gêmeos e das memórias de Câncer, chega o momento da criação.

O grande explorador caminha em meio às nossas estruturas e atravessa a fé que sustenta aquilo que criamos. Sempre buscando por um sentido, agora ele descansa e volta-se para si. Esse é o último ato. Porque Júpiter em Leão fala daquilo que somos depois do colo. Tudo aquilo que antes buscávamos fora: o acolhimento, a resposta, a direção. É tudo nosso, tudo nos pertence.

É o momento em que deixamos de apenas procurar a luz e passamos a produzi-la.

E finalizamos hoje mesmo, enquanto escrevo sob a luz de uma Lua Cheia em Capricórnio, imponente, responsável e rígida em sua própria natureza. Chegamos ao momento em que tudo se revela.

As luas cheias sempre falam de culminação, mas há algo particularmente contundente na Lua Cheia capricorniana. Ela nos coloca diante dos resultados. Diante do tempo. Diante das consequências de tudo aquilo que construímos até aqui.

Essa lunação evidencia quem queremos ser e, principalmente, aquilo que fizemos para nos aproximar dessa versão de nós mesmos. Ela ilumina nossas limitações, nossos medos e dificuldades, mas também evidencia a nossa capacidade de persistir, construir e amadurecer.

É uma Lua que fala sobre aquilo que passa, aquilo que permanece e aquilo que ainda está por vir. Justamente por isso ela é tão exigente: porque nos lembra que crescer é inevitável. Essa Lua Cheia nos coloca cara a cara com o que fizemos de nós, independentemente do antes. Não há narrativa que nos absolva da responsabilidade de ser.

Frente a tantas repetições e recordações, que possamos, enfim, ocupar outros espaços ou, ao menos, ressignificá-los. Ainda bem que não se banha duas vezes no mesmo rio. Ainda bem que tudo muda ao mesmo tempo em que tudo se repete. A vida insiste em nos oferecer segundas chances.

Sem constância alguma, volto sempre no meu tempo e, sem querer, para falar dele. Quanto tempo! Que saudade.

A astrologia sempre foi, para mim, uma linguagem. Talvez a linguagem que melhor me permita compreender o mundo e atribuir sentido às experiências que atravessam a vida. A astrologia é a língua através da qual aprendi a conversar com o mistério. E, como toda linguagem, ela só se realiza plenamente quando encontra o outro.

Por isso, sinta-se sempre à vontade para compartilhar as suas percepções, experiências e discordâncias. Gosto de saber como esses textos chegam até vocês, o que ressoa, o que provoca perguntas e quais caminhos cada pessoa percorre a partir das mesmas imagens e símbolos.

Obrigada por ler até aqui, por acompanhar os meus retornos — mesmo quando eles acontecem sem muita regularidade — e por tornar essa troca possível.

Prometo tentar aparecer com mais frequência. De qualquer maneira, se surgir a necessidade de uma análise mais pessoal, a agenda está sempre aberta.

Até logo!

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