A velocidade com que as coisas se propagam, fogem do nosso controle, escapam de nossas mãos feito água em estado líquido. Sobrevoam. Alcançam lugares múltiplos e invisíveis. Se caminho na praia e grãos de areia grudam em minha pele, os carrego para longe, levo para outra cidade. Se meto as roupas com os grãos dentro duma mala, levo a areia do Brasil para a Suécia, China, Tailândia. Ali as coisas se misturam e talvez novos organismos comecem a se propagar.
Não sei se é exatamente isso que acontece, sou apenas cientista da linguagem; fatores químicos e físicos continuam a me escapar das mãos feito líquido incolor, refletem ao sol e se deixar, vão embora num rodopio sem fim.
Há dez anos entrei no grupo Asemic Writing: The New Post Literate, onde criamos a cultura de compartilhar pensamentos acerca da busca infinita e insensata do que seria esta “escrita assêmica”. Já faz um bom tempo que acompanho o descontentamento de alguns artistas pesquisadores do grupo, e há alguns anos observo a busca quase obsessiva por um novo termo, vinda principalmente de artistas mais velhos, que provavelmente trabalham com a assemia a muito mais tempo do que eu.
É preciso explicitar que a maior parte dos pesquisadores assêmicos são artistas que tem lá entre seus 50-70 anos, e por isso alguns deles se prenderam ao princípio que deu início ao movimento: a escrita à mão, longe dos aparelhatos virtuais e/ou digitais. Já li muitos posts ali que relatam, com certo ar melancólico, a banalidade que tem acompanhado o crescimento do termo “escrita assêmica”.
Entendo a frustração de ver algo que, com carinho, nutrimos e quase vimos crescer, ganhar o mundo com tanta naturalidade, mas discordo que o nome, termo, ou qualquer que seja a nomenclatura que damos para movimentos artísticos e culturais, deva mudar simplesmente por estar chamando atenção de mais pessoas do que o “pequeno” grupo seleto de pessoas pesquisadoras e amantes da escrita à mão.
Quem me acompanha sabe que tenho preferido me referir a pesquisa como “linguagem assêmica” ao invés de “escrita assêmica”. Não coloquei ou dividi essa mudança em nenhum lugar antes de fazê-la por mim mesma, justamente porque acredito que muitas pessoas também se refiram ao movimento desta forma.
O que mudou foi que, recentemente, o termo “escrita assêmica” começou a aparecer no contexto acadêmico, e jovens artistas tem explorado possibilidades de “devolver o significado à escrita assêmica”, o que para mim, por experiência própria, é uma busca frustrante, um beco sem saída e sem propósito. Mesmo assim, acompanho os seminários emergentes na Alemanha, França, Grécia, Itália sobre o assunto. Me interessa saber o que pessoas implicadas em contextos engessados têm feito com a “recém-descoberta”.
Com certeza a entrada da linguagem em universidades ao redor do mundo começou a preocupar os percursores do termo, alugando um espaço no pensamento crítico que impede que a coisa se desenvolva “formalmente”, é claro, pois temem que a linguagem caia no lugar comum, e se apague das buscas experimentais.
Me parece que justamente por esses motivos, a busca por um novo termo tenta incluir novas possibilidades de englobar as formas de escrever que também se valham de visões digitalizadas, discussão sempre posta de lado para os pesquisadores da escrita à mão per se. Talvez a busca também corra por estradas que tentam se valer apenas a partir das linguagens analógicas, e que queriam construir barreiras cada vez mais fechadas ao redor do que pode ser a escrita assêmica.
Pessoalmente discordo que o termo deva ser mudado, pois sinto que ainda não está maduro o suficiente, não compreendemos ainda o que de fato seria o movimento assêmico, e podemos perder muito ao excluir visões de jovens inclinados à busca acadêmica de incluir a linguagem no meio das artes. Entendo que os meandros da pesquisa estão nos encaminhando para o que Jim Leftwich escreveu em seu blog, quando mencionou sua vontade (antiga) sobre a mudança do termo:
“Minha esperança para meus escritos recentes é que eles possam revigorar uma visão cada vez mais facetada do mundo de todas as coisas assêmicas.”
Corroboro com as visões de Jim, mesmo que tenha minhas críticas, mas não posso ignorar minha formação em Artes Visuais, que me levaram à intensos anos de estudo formal, prático, teórico e acadêmico.
Me lembro de uma conversa profunda que tive com minha professora de performance, onde para mim estava claro que a linguagem (em 2012) em breve se tornaria algo parecido com o que entendemos como vanguarda. No alto de seu mestrado, ela educadamente me explicou que discordava da minha suposição.
Anos depois, em 2019 (ou 2018, não me lembro ao certo), fui assistir a apresentação de sua pesquisa de Doutorado no SESC CPF, onde ela se debruça sobre a Performance de Dados, e a Coreografia da uberificação, dos carros e deslocamentos. Conversamos novamente. De fato, a performance poderia se encaminhar em alguma instância para se tornar uma vanguarda, se não fosse pela falta de manifestos ou objetivos ideológicos comuns, que a impede de constituir um movimento unificado, a deixando estagnada como linguagem artística em eterno desenvolvimento, desde o século XX.
As vanguardas artísticas, surgidas no início do século XX são movimentos que romperam com as tradições acadêmicas e buscaram inovações radicais na forma e no conteúdo da arte, dialogando diretamente com as mudanças sociais e políticas da modernidade. Movimentos como o Futurismo, Dadaísmo, Surrealismo e Cubismo expressaram o desejo de desconstruir o passado e propor novas formas de enxergar e representar o mundo, muitas vezes com manifestos que objetivamente declaravam suas intenções revolucionárias e coletivas.
Nos anos 2010, a performance continuou a expandir seus limites, consolidando-se como uma prática interdisciplinar e inovadora, mas sem a estrutura coletiva que caracteriza as vanguardas tradicionais. Movimentos futuros poderiam surgir a partir dela, caso grupos de artistas se organizem em torno de ideologias, manifestos e práticas específicas que questionem radicalmente o status quo de seu desenvolvimento. Mesmo assim, a performance seria mais um ponto de partida do que o centro do movimento em si.
Pois bem, digo tudo isso para explicar que é a percepção sobre o movimento da escrita assêmica é a mesma que tenho sobre o movimento da performance, que inevitavelmente há de cair na mesma poça. E não há nem mal nisso, tampouco algo que possamos fazer sobre.
Em seu blog, Jim Leftwich escreveu:
“Precisamos sincronizar nossos relógios e depois jogá-los fora. Precisamos estar na mesma página do mesmo livro de mapas e, em seguida, jogá-los todos fora. Precisamos ajustar nossas bússolas e jogá-las fora. Devemos prometer um ao outro que vamos nos encontrar daqui um tempo, sem lugar, data ou hora marcada, para definirmos nossos termos e tornar públicas nossas definições de consenso do movimento. Até lá, temos algumas explorações a fazer, alguns pensamentos a traçar, algumas leituras e escritas a investigar.”
Somente este texto poderia se classificar como um manifesto, se assim fosse lido por toda a comunidade de artistas assêmicos, mas ainda estamos tateando as origens e informações sobre a escrita assêmica. Outros manifestos já foram escritos sobre a linguagem, mas realmente duvido que pesquisadores tenham sequer lido tais escritos, espalhados na web, às vezes escondidos sob URLS de difícil acesso. É preciso muita gana para encontrá-los, e como escrevi ao longo deste texto, muitos pesquisadores não tem o conhecimento digital necessario para acessá-los.
Em 2024 novos termos para substituir “escrita assêmica” começaram a vir a tona; foi quando notei os descontentamentos com a nomenclatura. Em janeiro do ano passado, comprei o triplex oferecido por Miekal Ad, participante do grupo que mencionei no começo do texto. Ele escreveu sobre sua ideia de “Pansemic writing”, uma escrita que poderia conter todos os significados possiveis (coisa que por si só se distancia e estremece o propósito assêmico). Na época, me lembro de relacionar este termo aos questionamentos de sexualidade que envolvem a globalização (mencionei esta discussão no segundo texto desta newsletter) e não me pareceu ser profundo o bastante para romper com a nomenclatura que está agora se estabilizando ao redor do mundo.
Seguindo ainda o raciocínio do que seria a consolidação de um movimento vanguardista, entendo que antes de romper com a academia e chegar ao patamar de se autointitular como tal, precisaríamos entrar no balaio formal, e desafiar de dentro para fora as normas que buscam alcançar essa ruptura, caso contrário, estamos apenas co-criando uma linguagem, que pode o ponto de partida para movimentos semelhantes, mas não se firmar como algo realmente revolucionário, apesar de caminhar por campos políticos e filosóficos.
É muito claro que a escrita assêmica dialoga diretamente com mudanças sociais e políticas de nosso tempo, o que já é um ponto a mais para que esta minha ideia tenha algum fundo de verdade, mas como venho escrevendo, não me parece que pesquisadores assêmicos, em sua maioria, tenham ainda relacionado a potência de nossos fazeres como uma ferramenta que desafia a vinda desta quarta revolução industrial que estamos vivendo.
Aqui, neste espaço, me sinto confortável para dividir minhas leituras sobre como esta ferramenta, abstrata, e em desenvolvimento pode combater políticas de censura, e reforçar o propósito da arte como forma de sobrevivência ao retrocesso de tais imposições norte americanas, por exemplo.
A utilização da escrita em sua forma ancestral tem se mostrado como um caminho quase certeiro para o desenvolvimento do pensamento crítico, e o termo “escrita assêmica” não irá desaparecer, mesmo que outros nomes emerjam dela.
Grupo de Pesquisas Assêmicas é um grupo gratuito e aberto, articulado quinzenalmente, às quintas feiras, e esta de volta a partir do dia 30 de janeiro.
Para participar, basta se inscrever neste link.
A newsletter da assêmica mudou:
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assêmica é a menor parte de um significado.
este é o texto número 11.
acompanhe meu trabalho em @assemica e @liapetrelli
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