[Tempo estimado do encontro: 13 minutos]
Abri os olhos em um templo com o maior pé direito que já vi. Quase não enxergava o fim do teto, que se estendia em abóbadas côncavas pintadas com estrelas douradas. As paredes estavam cheias de desenhos de deuses e deusas e inscrições de hieróglifos egípcios. Era imponente e colorido: azul, vermelho, dourado e branco brincavam nas colunas, nas paredes, no chão. Fiz uma viagem no tempo e me senti flutuando em outra dimensão.
Cheguei ali por um convite-convocação de Seshat, a deusa egípcia da escrita, dos registros e da arquitetura. Que roupa se usa numa ocasião dessas? Optei por um vestido longo marrom e leve — chique, mas não em demasia. Imaginei que pudesse fazer calor. Seríamos abraçadas pelo vento do deserto?
Quando cheguei à mesa de madeira preparada para nós, sentei à cadeira reservada para mim. Para comermos, vi figo, tâmaras, pãos — e não deixei de reparar em vários papiros apoiados de frente à cadeira na qual ela sentaria. Ela iria escrever durante o café? Do fundo do espaço, vi Seshat, com cerca de 1,60 m, caminhar em minha direção. Os cabelos negros pendiam até o ombro, lisos. A roupa era simples: um macacão justo de pele de leopardo. Na cabeça, ela exibia sua famosa tiara com um heptagrama, a estrela de sete pontas.
Ela, cujo nome significa “aquela que escreve” e “aquela que registra”.
Ela, que rege a biblioteca cósmica: os registros akáshicos.
Ela, que era convocada a escrever o nome dos faraós na Árvore da Vida, registrar a duração do reinado, eternizar a inscrição de nascimentos e mortes.
Ela, que carrega a chave, que governa sobre a magia da palavra.
Ela, que mede os templos e as construções – e, por consequência, rege a arquitetura da Vida, da memória, do legado.
Ela escrevia com cálamo em papiros, ostracas, paredes e pedras. Superfícies que poderiam registrar, memorizar. Perdurar. Regia os escribas, treinava-os ao lado de Thoth, sua contraparte masculina — ainda hoje mais lembrado do que ela.
Seshat não sorri. Ela avança calma e grave, com o olhar fundo e penetrante. Lembra os olhos enigmáticos de Cleópatra em obras cinematográficas. Ela tem a pele amendoada e os olhos castanhos estão protegidos por um delineado preto perfeito — até hoje eu não deixo os lados simétricos desse jeito em mim. Ela chegou e sentou-se à sua cadeira de ébano, incrustada de hieróglifos que não decifro. Pelo menos, não ainda. Ou não mais nesta vida. No topo do encosto, brilhava em dourado o mesmo emblema que ela carrega no topo da cabeça.
Que nervosismo. Será que sorrio para ver se ela esboça uma reação? O que ela vai falar?
Na mão esquerda, ela segura um cálamo. Ainda impassível e com o rosto imóvel, ela toca minha palma esquerda com a mão direita. Imediatamente, recebo um download.
— Tudo o que você escreve, você lembra – ela disse.
Nem um “oi” antes? Fiquei atordoada com a rapidez do início do encontro e confusa com o duplo sentido da frase. Eu sei que ela percebeu. Com o rosto ainda imóvel e o olhar fundo em mim, completou:
— Vou explicar melhor: tudo o que você coloca no papel é lembrança. A escrita não cria, ela recorda. Se você escreveu, é porque você lembrou.
Fiquei em silêncio, processando o que ouvi. Passaram-se cinco eternos segundos. Acho que vou ter que tirar a repórter do bolso; mas não tem problema, o que eu mais tenho na vida são perguntas.
— Tudo o que escrevo é magia?
Notei que ela começou a registrar com o cálamo sobre o papiro. Ergueu a cabeça e respondeu:
— Sim. Alta magia.
Fiquei esperando que haveria algo mais. Ela era assim lacônica mesmo? Vou tirar a dúvida:
— Por que você é tão direta?
— Porque não desperdiço palavras. Há coisas que não vou explicar, porque você precisa sentir.
E aí, surpreendentemente, ela emendou:
— Também não falo muito porque não gosto dessa língua patriarcal que você usa. Palavras e línguas têm energia. Por isso, o símbolo é tão poderoso. Ele condensa muito mais com energias elevadas. A interpretação varia, mas o que está condensado tem alta frequência. Eu também registro em símbolos. Tudo neste templo está registrado sob a minha esfera de proteção.
— A escrita é mais importante do que a fala, do que a oralidade?
— Por que a hierarquia? A fala é registro cósmico da palavra. Se você soubesse a importância do que fala e de como vibra e ressoa cada nota no cosmos, utilizaria cada palavra com mais cuidado e intenção.
Lembrei que ela é a guardiã da biblioteca cósmica, que pode ser vista como os registros akáshicos — a energia do mundo, nossas lembranças mais profundas que desafiam o espaço-tempo.
— Como acesso a biblioteca do mundo?
— Não tem fórmula. Precisa ser com respeito. Só deixo entrar quem respeita, sabe usar e vai devolver os livros em bom estado.
— Quando posso saber se vou ter acesso?
— Você já teve, mas é intermitente, sempre preservando a segurança do teu corpo físico. E só a salas muito específicas.
— E por quê?
— Você não precisa saber tudo. Só chegam informações que, por algum motivo, precisam ser processadas no teu campo. Vocês todos já vivem confusos e dispersos demais com telas e informação 100% disponível.
Isso é verdade. Tomei um gole da bebida fermentada à minha frente: espessa, lembrava uma cerveja sem tanto álcool. Ela continuou:
— Todo mundo que tem newsletter ou uma publicação online é regido por mim e por Thoth, minha contraparte masculina. Somos a complementaridade do feminino e do masculino. Mas eu vou ainda mais fundo no não dito, e a caneta – ou cálamo — capaz de gerar inscrições eternas, que perduram na Árvore da Vida, ainda é feminina.
— E esse feminino e masculino estão além do gênero, né?
— Claro. Só uma sociedade desconectada precisa perguntar isso.
— Como assim?
— Essa pergunta foi para evitar mal entendidos, que só podem ocorrer onde o patriarcado dominou. Gênero não é sexo biológico muito menos dual. Deveria ser óbvio para quem observa a Natureza.
Senti que ela segurou uma irritação.
— Por que você parece irritada?
— Porque estou um pouco.
— Por quê?
— Porque nem nos momentos mais patriarcais do Egito uma pergunta dessas teria sido feita.
— Mas e se entenderem mal o que uma pessoa que publica escreveu?
— A palavra tem que ressoar em você. Essa é a base da magia. Por que você escreve?
— Porque preciso. E porque lembro.
— Então por que te importa tanto se vão interpretar mal?
— Traumas de cancelamento coletivo. E o que você recomenda para quem tem publicações e escreve?
— Nada.
— Nada?
— Nada. Cada um sabe da sua maestria. Só facilito o acesso à biblioteca. O que se faz a partir disso é de arbítrio interior.
— Mas é que você também é a deusa da arquitetura, do que toma forma.
— Sim, mas não digo o que tem que ser construído. Só faço as medições, auxilio a segurar a corda. A maestria sempre é interior.
Fiquei em silêncio, mirando ela ainda imóvel. Seshat pegou um figo e começou a comer.
— Vocês, nesse espaço-tempo, sempre querem conselhos. Que curioso.
Eu queria me enterrar na cadeira.
— É… — respondi, envergonhada.
— Seria bom segurar a própria caneta e parar de olhar o que os outros escrevem em seus papiros – ou telas, ou seja lá o que for. Você nunca sabe o que escrevem na própria mente. A escrita mental é da mais extrema importância.
— Mas por que você cuida dos registros?
— Porque o registro, no Antigo Egito, era regido pela precisão. Um símbolo um milímetro fora do lugar, uma construção um centímetro desalinhada — e a energia não fluía mais. Era intencional.
Continuei em silêncio.
— Aqui está uma virada de chave. O que você acha que não planejou também foi arquitetado. Não por uma força cósmica externa, mas pelas suas palavras. Por lembranças em formas de palavras. Tudo o que eu rejo é a mesma coisa: palavra, números, inscrições, construções, a biblioteca cósmica.
Já vi que vou sair mais confusa do que entrei na conversa. A carapuça de repórter não é muito útil quando a entrevistada responde com enigmas. E pior: eu queria que ela gostasse de mim. Será que o fato de ela não sorrir e permanecer com o rosto impassível, mexendo-se somente para comer ou registrar rapidamente com o cálamo sobre o papiro, significava que eu era uma… chata? Ai, as sombras…
— Por que você não sorri?
— Eu preciso?
Fiquei em silêncio com vergonha de terminar de levar uma tâmara em direção à minha boca.
— Sou séria por proteção energética. Você é simpática com todo mundo?
— Mais ou menos — disse, pensando “que resposta ridícula” na sequência.
— Desaconselho. Quem deseja agradar o tempo todo derruba a sua proteção. Perde a maestria sobre seu campo, formado de palavras que honram a própria energia. Minha roupa é uma proteção também. Visto um animal de poder para lembrar que meu campo é soberano.
— Entendi. E voltando às construções arquitetônicas, por que a precisão é tão importante?
— Construções existem em outros planos energéticos também, para além desse que os humanos registram com as retinas. A matemática é a linguagem cósmica. Tudo precisa ser alinhado. Por que você acha que as pirâmides se alinhavam com constelações? Construções perduram. Rejo tudo o que perdura.
Assenti. O templo em que nos encontrávamos era muito imponente, colorido, cheirava à canela e incenso de mirra.
— Então tudo o que existe é uma forma de registro?
— Sim. E tudo o que existe foi registrado — ela respondeu, escrevendo de novo com cálamo sobre o papiro — Preciso ir. Estenda sua mão.
Abri a palma direita. Ela apoiou uma caneta e fechou a minha mão. Continuou me olhando fundo e, pela primeira vez em nossa conversa, esboçou o que eu poderia classificar como um sorriso. Levantou-se e saiu.
Abri os olhos e vi: a caneta-tinteiro tinha uma inscrição e a estrela de sete pontas.
Seshat, eu te honro em cada palavra que coloco no mundo. Com esta caneta, passo nosso café.
Sobre o Café com Deusa Mãe
O Café com Deusa Mãe é uma seção da Artemísia em que temos encontros semanais com as várias faces da Deusa. O objetivo é deixar que Deusas de mitologias de várias partes do mundo contem sua história e ouvir profundamente o feminino que carregamos dentro de nós na forma de arquétipos.
Partimos do pressuposto de que a Deusa nunca foi ceifada. Algo tão profundo, potente e vivo em cada pessoa não tem como fenecer, mesmo sob o patriarcado. Este é um espaço para honrar as muitas manifestações de divindades femininas e sentá-las no trono da nossa alma. É hora de celebrar a diversidade da nossa essência e de resgatar nossa memória.
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Na próxima edição, vamos nos encontrar com Cerridwen, deusa celta da inspiração e da magia. Estou muito curiosa! Quem vem?
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Quem está operando a cafeteira
Oi! Me chamo Cândida, sou jornalista, escritora, bruxa e experimentadora da Vida — com vê maiúsculo. Na Artemísia, compartilho minhas aventuras e reflexões sobre como gozar uma Vida autêntica e criativa por meio de símbolos, sonhos, mediunidade e movimento.
Sou um tanto obcecada por símbolos e suas interpretações mitológicas e ancestrais. Meio que acho que tudo se conecta de alguma forma e, quanto mais aprendo sobre, mais vontade de seguir mergulhando na linguagem do Inconsciente eu tenho.
Também gosto de dizer que sou comprometida em ser tudo que vim ser. Um trabalho interno e tanto que leva uma vida, né? Então tá. :)
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