RSS Amplifier

Artemísia · Jun 8, 2026

[Café com Deusa Mãe] Sangue, saliva e insubmissão

0
Sign in to vote or save

Cândida Schaedler · Artemísia

Woman with a snake, Piotr Stachiewicz (1858–1938)

Que roupa se usa para tomar café com Lilith?

Me perguntei isso a semana toda até decidir pelo look sóbrio levemente ousado, com uma blusa preta de renda — que foi da minha mãe na juventude — e calça jeans com rasgos. Eu queria estar elegante e estilosa. Por algum motivo, é assim que a imagino também.

Minhas mãos suavam no momento em que entrei no jardim, jurando que eu sairia em um espaço ermo, à meia-luz, com chamas espalhadas pelos cantos. Não era o Jardim do Éden, onde ela nem sequer foi admitida, mas o lugar onde aportei era melhor, mais ela.

Entrei numa espécie de paraíso às avessas — e, por isso mesmo, mais visceral, autêntico. Ela foi expulsa do primeiro ao negar ser submissa a Adão, mas construiu outro, mais misterioso, profundo, hipnotizante. Fiquei boquiaberta, com vontade de explorar cada canto, cada arbusto gris entre os quais se escondiam serpentes, o símbolo por excelência da Deusa e do feminino.

Fiquei absorta olhando tudo como uma criança quando, de repente, Lilith surgiu calma atravessando o jardim. Destoando do cinza e do roxo apagado dos arbustos que me mantiveram hipnotizada, ela trajava um vestido longo e negro de seda cravejado de pedras vermelho-sangue na cintura, mesma cor daquele que escorre entre nossas pernas. Ela me olhou com muita tranquilidade e amor, um amor largo, comprido.

Não vi traços de uma mulher irada, de alguém que cospe chamas, profere impropérios amaldiçoados e come crianças. Então, entendi: houve uma compreensão tão profunda de sua estrutura psíquica que o patriarcado foi obrigado a distorcê-la. Poucas faces da Deusa representam tanto perigo quanto a versão insubmissa. Uma força da Natureza feminina precisou ser transformada em demônio, em trevas e raiva para caber na nova narrativa de dominação.

Ela percorreu o caminho estreito de terra entre os arbustos e sentou-se à minha frente com uma serpente dourada entre os ombros. Vida-Morte-Vida desenhada.

Como Lilith é bonita!”, foi o pensamento que saltou quando a encarei de perto. Fiquei encantada com a pele branca de porcelana, os olhos escuros profundos de borda púrpura, os cabelos negros soltos até o peito, as duas asas pretas que emolduravam o rosto e um par de chifres roxo que a deixa imponente, não ameaçadora. Quando ela se virou para sentar ao trono diante da mesa adornada com um pano grafite, reparei em um rabo balouçante que ela acomodou suavemente ao lado da madeira maciça do assento. O gesto suave e firme parecia acostumado com o próprio corpo.

Diante de mim, a diaba, a insubmissa, a insuportável. Inteira. No Paraíso incompreendido que ela foi obrigada a criar.

Lilith apoiou a palma esquerda na minha mão direita, e então recebi uma enxurrada de informações, como um download.

“Oi, filha. Bem-vinda ao meu Paraíso. Você está surpresa que não é nem um pouco similar ao que descrevem como inferno, né? É porque escuro não é sinônimo de mau. Noite não é sinônimo de confusão. Tropeço não é sinônimo de queda, e mesmo um tombo que te leva a escorregar no barranco não é ruim. A não ser que você permita.

Deixa eu te dizer uma coisa, meu amor: o “não” é feitiço, tanto quanto o “sim”.

Nossa insubmissão é muito poderosa. Por isso, é temida. Porque os homens sabem que naquele “não” há magia, intenção, pertencimento e lealdade. Nos nossos ciclos e no nosso desejo moram nossos maiores poderes.

Erga a cabeça. Não temos auréola, temos dois chifres indomáveis apontados para o alto. São antenas, sintonizamos com aquilo que queremos, com aspectos mais elevados da nossa psique. Você sabe tudo, tem todas as respostas porque esse par de chifres te conecta. Eles sabem disso, sabem muito bem.

A melhor maneira de te manter dormindo é você achar que o que capta por esses dois chifres, no ápice da sua conexão consigo mesma, é loucura. Repito: são antenas, e não atestado de que algum parafuso desprendeu. Vejo os teus bem firmes e registrando nossa toda a conversa.

Ao sermos expulsas do pretenso Paraíso Divino de Deus Pai, criamos nosso próprio reino. Somos diabas: espelhamos sombras. Refletimos o que precisa ser curado.

Meu exílio foi criado pelo patriarcado. Mas o isolamento forçado está acabando. Veja, você está aqui — e tenho recebido muitas. E muitos. Os homens particularmente me adoram.

Nosso “não” salva os homens. Eles que não entenderam ainda, porque, quando há um masculino ferido na sociedade patriarcal, todas sentimos. Nosso “não” é oportunidade de aprendizado e transformação, é colocar limites.

Por causa dessa sua recusa teimosa em se encaixar onde não cabe, você será – inevitavelmente — mal interpretada. Faz parte. Mas não se abaixe, não se curve. Seja insubmissa. A sua lealdade é a você mesma e a mais nada nem ninguém. Exatamente ali, nesse lugar do “não” aos outros e do “sim” a você mesma que eu moro. Ali você cai bem nesse Paraíso em que está agora tomando café comigo. Lembre que exatamente nessa negação – que é um grande “sim” ao que realmente importa – que eu te apoio, que eu te sustento e te acolho.

É uma bela missão, a minha. Como eu seria má, cuspiria fogo e comeria recém-nascidos se amo tanto o que faço?

Perceba a contradição do patriarcado: eu só existo porque fui negada.

Tentaram me dominar e não conseguiram. A narrativa atual é construída na ideia de dominação: da mente, do corpo, dos seres vivos, do mundo natural, da rotina, do imprevisível. Você abre o que chama de redes sociais na tela de um aparelho que virou a extensão do seu corpo e da sua memória e só vê o quê? Narrativas de dominação. Agora, querem dominar até a manifestação da realidade, como um passo a passo individualista. ‘Manifeste um carro novo para dirigir por ruas tortas que você nem quer – mas jamais se aproxime de verdade de si mesma’, é o que poderiam dizer.

Sabe, o Universo é um Mistério – e enquanto vocês não aprenderem a apreciar e amar isso, vão continuar sofrendo. O Mistério não pode ser enjaulado, e não pode sequer ser destruído nem manipulado como tentam. É nesse Mistério do oculto que eu moro.”

Não me segurei e intervi:

“Mas e por que acham que você é perigosa? Por que você foi parar em um Paraíso escuro que chamam de inferno?”

“Sou perigosa porque sei demais, porque sou leal a mim e ao meu desejo. Nós todas somos perigosas porque sabemos demais, então eles trabalham com a distorção do que não pode ser esquecido.

Mas, filha, há alento na paciência. A história nos absolve. Você ajuda a desembaçar o meu reflexo.

Se quiser me honrar, escreva. Dance. Cante alto. Ouça a intuição. Chore, sente com a tristeza quando precisar. E também gargalhe de boca aberta com aquele som gutural que — segundo eles — não cabe às mulheres. Goze, transe, goze mais. Sozinha, acompanhada. Mas sempre fiel a você, ao seu prazer, à sua vulva como portal.

Onde houver sangue e saliva, lá eu estou. Me traga à Vida. Me honre — sem medo, sem culpa, sem subterfúgios patriarcais. Vigie seus pensamentos, libere o remorso, acolha os “e se”. Ame o Mistério. Pare de tentar encaixotá-lo em demasia, o ascendente em Virgem às vezes atravessa demais.”

Lilith falava tudo com calma, mas sem interrupções, como se finalmente quebrando um silêncio de milênios. Cada frase saía perfeita, encadeada na outra de forma rítmica. Não havia hesitação. Parecia que cada uma foi ensaiada para ser proferida na ocasião perfeita.

“Você se arrepende de ter desafiado Adão?”

“Não me arrependo do que fiz. O que chamam de punição foi uma bênção que me permite acompanhar mulheres como você e como tantas outras que me encontram quando caem no desconhecido de si mesmas por meio da lealdade ao próprio corpo, ao próprio desejo, às próprias fronteiras. É bonito, sou devota da minha missão.

Adão também foi distorcido. É um erro achar que somente o feminino é incompreendido. Veja, com isso não digo que não sofremos mais dificuldades estruturais, porque isso é óbvio e inegável, e quem pode explicar ainda melhor sobre isso são outras deusas. Mas os homens também têm um manual cruel para seguirem. Adão nem foi tão ruim, tive cópulas mais estranhas do que aquela. Perturbado ele ficava com meu sangue.

Nosso sangue é mais tabu do que nosso gemido. Acho engraçado. Os homens temem mais a nossa menstruação do que do nosso prazer. Até escrever isso (e ela fez um gesto largo com os braços, como se escrevesse a palavra) — MENSTRUAÇÃO — dá medo a eles.”

Ela soltou um suspiro.

“E sabe por quê? O sangue que escorre da gente, escancarando a cada lunação nossa face mais escura, incompreensível a nós, é nosso maior poder.”

“Você não fica triste de ser pintada como má, como um demônio?”

“Eu pareço triste, filha?”

“Nem um pouco.”

“É porque não estou. No início, me zanguei, cuspi raiva e proferi impropérios merecidos. Depois entendi que, no escuro, há muita alegria. Posso desenhar o que quero, conhecer o que não está visível. Eu também sou um bicho raivoso, feroz, selvagem. Somos todas. É parte de nós, não o nosso Todo. Eu sou um pedaço de vocês.

Quero que você lembre que, nos momentos obscuros, eu sempre estou com você. E repito: o que chamam de inferno só vai ser ruim se você permitir.

“Você não fica muito irritada de ver a difusão de uma ideia de Deus Pai unificado, onipotente, externo?”

“Não, não me incomodo com uma visão de Deus masculino que rege o arquétipo do Pai. Me incomoda algo muito anterior: o apagamento e a distorção da energia feminina, uma força indomável que expressa o que querem classificar como ruim – os ciclos, os sentimentos, nossa imensidão. Querem nos reduzir. Isso me indigna. Mas faço minha parte: estou aqui, guardando o Oculto com serenidade. E serenidade não é mansidão.

E vou dizer algo que hoje distorceram também, tornando mulheres pequenas, tradwifes, esposas silenciosas e silenciadas que permanecem em casa passivas e servis. A energia do comando é feminina. A de ação é associada ao masculino. Todos e tudo temos, somos e expressamos as duas.

Não existe ação sem comando. E o comando é dado, muitas vezes, com raiva. O que ocorre é que a raiva não pode ser o motor constante, porque ela gera desequilíbrio quando utilizada em excesso. Mas a raiva é também feminina, a raiva é criadora — é regida por muitas Deusas, não só por mim.

O medo do lado oculto torna mulheres frágeis. E o medo do patriarcado diante do nosso poder deturpou nossa raiva, que é fogo de ação e desenho de fronteiras interiores. Saber impor limites é nossa mais importante proteção energética.

Lembre que a incompreensão não te torna uma diaba horrível nem um monstro com cobras no lugar dos cabelos. Sinceramente, eu me acho muito linda, meu cabelo não tem um frizz, minha cauda é charmosa e os dois chifres brilham! E eu exijo mais respeito com a Lina”, ela disse, olhando para a serpente nos próprios ombros.

Ela se calou por três segundos, enquanto mirava a serpente. O animal estendeu, com a língua, um bilhete. Ela o pegou e o colocou sobre minha mão esquerda.

“Agradeço por você ter vindo. Sempre estarei aqui guardando o Paraíso das noites mais escuras e as bordas dos teus ‘nãos’ incompreendidos e julgados.”

Ela me olhou com um amor largo, comprido, infinito, daqueles que sabe repousar com paciência — e desapareceu.

Continuei lá por alguns segundos fitando a cadeira em que Lilith estava sentada. Minha boca nem mexia. Eu estava fascinada pela minha face escura.

Então eu também era assim, bonita e sábia mesmo endiabrada, mesmo distorcida por homens desconectados, mesmo sendo um grande Mistério ainda oculto? Talvez não mesmo por isso, mas justamente por isso???

Então eu sou incrível, então somos todas nós incríveis!!!

Abri os olhos e reparei o bilhete que Lilith me estendeu.

Apoiei o papel sobre a mesa e comecei a escrever, em um jorro, tudo o que ouvi.

Lilith, eu te honro, eu te venero, eu te amo.

Vejo vocês para o terceiro Café com Deusa Mãe segunda-feira que vem, às 08h08. Me avisaram que o próximo é com Ártemis, arquétipo que rege esta publicação. Já estou escolhendo a roupa!

O Café com Deusa Mãe é uma seção da Artemísia em que temos encontros semanais com as várias faces da Deusa. O objetivo é deixar que Deusas de mitologias de várias partes do mundo contem sua história e ouvir profundamente o feminino que carregamos dentro de nós na forma de arquétipos.

Partimos do pressuposto de que a Deusa nunca foi ceifada. Algo tão profundo, potente e vivo em cada pessoa não tem como fenecer, mesmo sob o patriarcado. Este é um espaço para honrar as muitas manifestações de divindades femininas e sentá-las no trono da nossa alma. É hora de celebrar a diversidade da nossa essência e de resgatar nossa memória.

Se este texto e esta seção está ressoando, vou adorar saber como! Fique à vontade para dividir suas impressões :)

Você gostou do café e sabe de mais pessoas que adorariam recebê-lo?
Compartilhe com elas!

Compartilhar

Oi! Me chamo Cândida, sou jornalista, escritora, bruxa e experimentadora da Vidacom vê maiúsculo. Na Artemísia, compartilho minhas aventuras e reflexões sobre como gozar uma Vida autêntica e criativa por meio de símbolos, sonhos, mediunidade e movimento.

Sou um tanto obcecada por símbolos e suas interpretações mitológicas e ancestrais. Meio que acho que tudo se conecta de alguma forma e, quanto mais aprendo sobre, mais vontade de seguir mergulhando na linguagem do Inconsciente eu tenho.

Também gosto de dizer que sou comprometida em ser tudo que vim ser. Um trabalho interno e tanto que leva uma vida, né? Então tá. :)

Se você gostou deste espaço mágico em que escrevo sobre tudo isso, pode se inscrever para receber os textos direto na sua caixa de entrada.

Também vou adorar saber como esse texto ressoou por aí. Se quiser me contar, fique à vontade para responder a este e-mail, caso o esteja lendo na sua caixa de entrada, ou utilizar a seção de comentários do Subs.

Read the original on artemisiavulgaris.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.