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Artemísia · May 7, 2026

100. Morrer é divertido?

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Cândida Schaedler · Artemísia

The death of Cleopatra (1673), Caspar Netscher (1639-1684)

Fui uma criança como as outras: tive medo de fantasmas. Por sorte, nunca vi nenhum de olhos abertos. Chorava à noite com receio de espiar um vulto pelo espelho, de encontrar um espírito no corredor de madrugada, de topar com minha tia recém falecida no caminho do banheiro. Meu pai muito já levantou às três da madrugada para me dizer: “fantasmas não existem”, enquanto a luz do corredor devolvia ritmo à minha respiração.

Só que sim, fantasmas existem. Em forma diferente do que eu imaginava na infância, mas existem. Eles não são tipo o Gasparzinho. Não são translúcidos, não voam com cauda esvoaçante, não se assemelham nem um pouquinho ao Bicho Papão, sequer se parecem com múmias enfaixadas.

Muito pior. Eles assumem a forma dos nossos medos.

A Cândida de cinco anos não sabia que, na casa dos 30, teria pavor de encontrar, embaixo da cama, o Complexo de Abandono, a autossabotagem, a insuficiência, o receio de ser desinteressante e a paranoia de viver uma vida insuportável. Se eu soubesse, teria poupado alguns chamados pelo meu pai na infância e levantado à noite para fazer xixi sozinha.

A tarefa da Vida Adulta é, à primeira vista, mais ingrata: convidarmos cada um desses monstros para tomar café e segurar o ímpeto de sair correndo ao encará-los bem no fundinho do olho.

Em sonhos, fantasmas podem representar o que não conseguimos deixar morrer em nós. Mais uma vez, meu Inconsciente foi cirurgicamente didático nos últimos dias. Ao acordar, até dei uma risada.

Estava dormindo em um hostel todo branco que parecia um hospital, e um colega me disse que todos os hóspedes estavam vendo espíritos ali. Fiquei apavorada e quis fugir para não topar com uma alma penada. Então, fiz exatamente o contrário: inspecionamos um quarto, onde eu quis intimidar possíveis fantasmas e deixar claro que eles deveriam se manter bem longe de nós. (Notem que, mesmo apavorada, ainda me resta coragem e cara de pau!) Fechando aquela porta, meu colega percebeu que vi duas mulheres de relance. Uma delas se aproximou de mim. Era uma fantasma que poderia se chamar Cleide — tinha cara de Cleide e era simpática que só. Uma mulher normal, com roupa normal, com quem eu conversaria animada na fila do supermercado sobre o preço dos tomates e a previsão do tempo para a semana. Ela abriu a porta que estávamos fechando, chegou mais perto de mim — que a via — e engatamos um papo alegre. Ao final, ainda a perguntei:

Morrer é divertido?

Abri os olhos de fora antes de descobrir a resposta.

Vivo há quase um ano e dez meses sem endereço fixo, permanecendo no máximo três meses em cada cidade e me deslocando com duas mochilas. Meu corpo físico, emocional e espiritual está demonstrando, há muito tempo, sinais de desgaste, pedidos sinceros de integração de todas as experiências – incríveis, maravilhosas, extraordinárias – e um desejo profundo por rotina de novo.

Quero acordar e saber onde vou dormir na semana seguinte. Quero comprar uma bicicleta. Quero voltar às aulas de skate. Quero ter mais opções de roupa. Quero minha cama, meu banheiro, meu jardim, minhas plantas. Quero comprar os meus temperos, armazenar tudo em potes bonitos, usar as louças de cerâmica feitas pela minha irmã. Quero a mesma academia, o yoga com hora marcada, o cheiro de café num lugar cuja decoração eu planejei — não mais um Airbnb pasteurizado que pendura quadros de gosto duvidoso em paredes brancas.

Mais do que isso, anseio por um lugar em que eu possa descansar de verdade e conhecer a nova eu, construindo e sustentando projetos com base em tudo o que descobri sobre mim na estrada.

O que é louco: relutei com a decisão. Relutei muito. Eu queria continuar sendo nômade, mochileira sem endereço fixo, incorporar o free spirit visto no Instagram como a Vida Perfeita — coisa que sei muito bem que não é. A Vida Extraordinária é imperfeita, porque são as imperfeições que abrem caminho ao extraordinário.

Mas não consigo mais, neste momento, ser nômade.

Em Floripa, conheci outra viajante em um forró. Ao saber do meu estilo de vida, ela se empolgou: “Como tu te sente com isso?” A resposta que escorregou da minha língua foi somente: “Cansada”.

Liguei o sinal vermelho piscante exatamente ali. Eu respondia isso quando estava à beira de burn-outs. Se o que me preenche começa a me deixar exausta, algo está deslocado.

Decidi voltar a ter uma base fixa, fechar um contrato de aluguel anual, decorar um lugar com meu gosto, comprar estante e escrivaninha novas. Floripa é o lugar escolhido para sustentar projetos, estabelecer uma rotina, viver à beira da praia e voltar para o meu centro.

Morre a Cândida nômade. Nasce outra que ainda não conheço: a viajante com base. Essa já experimentou a sensação de ser livre, tem a chama guardada no corpo e deseja construir uma rotina que integre o desejo de sair pelo mundo com o de ter um lugar para voltar.

Vamos operar, agora, na base da soma, não da subtração de aparentes opostos.

Há outro sonho bonito que tive em um momento disruptivo da minha vida, quando pedi demissão de um emprego “estável” (o que é estável do lado de fora?) e não conseguia admitir, em voz alta, que meu desejo era ser viajante, ter uma vida criativa que me satisfizesse de verdade. Eu não sabia por onde começar a viver o que me empolgava, nem acreditava que meus sonhos fossem sustentáveis. Na minha cabeça, eu queria demais; eu queria o impossível (hoje, eu vivo esse impossível).

Naquele período, sonhei que eu levantava da minha cama no apartamento em que morava, em Porto Alegre, e gritava muito na sala para espantar fantasmas que eu não via, mas sabia que habitavam o espaço. Estava apavorada, mas também decidida a fazê-los sentirem medo de mim.

Agora, tenho pistas do que vai morrer, mas ainda não faço ideia do que vai emergir. Só sei que sou convocada a fincar os dois pés, olhar no olho das almas penadas com o meu olho de dentro e fazer cada uma delas sentir medo de mim.

De verdade, às vezes eu realmente acho que sou meio assustadora – e isso também é bom.

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  • Obrigada por me lerem, gente! 100 edições é algo que me enche de alegria. O lançamento da Artemísia foi o início do retorno à minha Vida Criativa – algo que coloquei no mundo sem grandes pretensões, a não ser dar a devida importância ao que me acende. Agora, nessa mudança e morte interna simbólica, é ainda mais especial comemorar o marco com vocês! Agradeço a cada leitora e leitor que indica, comenta, curte, compartilha, se identifica e está aqui comigo. De coração, obrigada! Eu reverencio cada um e cada uma, e me sinto honrada de tê-los aqui explorando sonhos, símbolos, mediunidade e movimento.

  • A próxima edição da Artemísia chega na caixa de entrada de vocês em uma segunda-feira, 25 de maio, às 08h08. Ela vai contar tudo sobre um novo projeto que teremos por aqui e ao qual tenho me dedicado faz dois meses. Estou muito, muito empolgada!

  • Enquanto isso, estou viajando com minha família. Conto mais sobre o destino e as aventuras quando retornar e me estabelecer na nova rotina de viajante com base em Floripa. :)

Sou jornalista, escritora, bruxa e experimentadora da Vidacom vê maiúsculo. Faz um tempo que não tenho CEP fixo e viajo com duas mochilas pelo mundo. Na Artemísia, compartilho minhas aventuras e reflexões sobre como gozar uma Vida autêntica e criativa por meio de símbolos, sonhos, mediunidade e movimento.

Sou um tanto obcecada por símbolos e suas interpretações mitológicas e ancestrais. Meio que acho que tudo se conecta de alguma forma e, quanto mais aprendo sobre, mais vontade de seguir mergulhando na linguagem do Inconsciente eu tenho.

Também gosto de dizer que sou comprometida em ser tudo que vim ser. Um trabalho interno e tanto que leva uma vida, né? Então tá. :)

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