Hipóxia (ambiente)
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A hipóxia ambiental é um fenómeno de baixa concentração de Oxigénio que ocorre em ambientes aquáticos. Ocorre quando a concentração de oxigénio dissolvido (OD) encontra-se a níveis reduzidos, ao ponto de causar danos nos organismos aquáticos presentes no ecossistema. A concentração de oxigénio dissolvido geralmente é expressa em quantidade de O2 dissolvido na água em mg.L−1, sendo que os valores normais situam-se a volta de 8 mg L−1 a 25 oC entre 0 e 1 000 m de altitude[1][2]. A hipóxia é convencionalmente definida como concentrações de OD abaixo de 2 mg·L⁻¹, embora esse limiar varie conforme a temperatura, salinidade e pressão local.
Ocorrência
[editar | editar código]O fenómeno da hipóxia pode ocorrer em toda a coluna de água, desde a camada mais superficial até junto dos sedimentos do fundo, embora ocorra mais facilmente ao longo de 20 a 25% da coluna de água, dependendo da profundidade e das mudanças súbitas da densidade da água com a profundidade. [3]
O inventário global de oxigénio oceânico tem declinado de forma contínua [4]. O oceano perdeu pelo menos 2% do seu estoque total de oxigênio desde meados do século XX [5], e as projeções indicam que essa tendência continuará por séculos. Sob o cenário de emissões mais pessimista (RCP 8,5), estima-se uma redução adicional de cerca de 4% até 2100 em relação aos níveis do ano 2000. Nas chamadas Zonas de Mínimo de Oxigénio (ZMO), predominantes nas profundidades médias dos oceanos Pacífico, Atlântico e Índico tropicais, a taxa de declínio mais intensa já registrada chega a 0,5 µmol·kg⁻¹ por ano. Estas zonas expandiram-se para uma área equivalente à metade do território do Canadá.
Nas águas costeiras, o número de sítios hipóxicos aumentou exponencialmente, a uma taxa de cerca de 5,5% ao ano nas últimas seis décadas, aproximadamente duplicando a cada década, e já afeta uma área total superior a 250.000 km² nos oceanos costeiros. [6]
Causas da sua ocorrência
[editar | editar código]Causas naturais e climáticas
[editar | editar código]O balanço de oxigénio oceânico é regulado pela diferença entre a sua produção, via fotossíntese na zona eufótica e troca com a atmosfera, e o seu consumo pela respiração aeróbica de organismos marinhos. A reposição das camadas mais profundas depende de mecanismos físicos de ventilação oceânica, influenciados por advecção, vento, marés, aportes fluviais e temperatura. [7]
Eutrofização e poluição por nutrientes
[editar | editar código]Para além dos efeitos naturais, a hipóxia resulta da eutrofização causada pela poluição por nutrientes vegetais como o amónio, nitratos e fosfatos. Na presença destes nutrientes, a concentração de algas aumenta com a saturação do oxigénio dissolvido, e após completarem o seu ciclo de vida, são decompostas por bactérias, o que causa uma redução de OD substancialmente superior a normal. Se esta diminuição de OD levara hipóxia, pode causar a morte de peixes e invertebrados, afectando assim o ecossistema aquático, o que pode causar igualmente danos nos seres vivos terrestres e nos pássaros cujo ecossistema depende do aquático.[8]
O enriquecimento antropogênico de nutrientes, proveniente de resíduos humanos, efluentes de esgoto, fertilizantes agrícolas e aquicultura, levou à eutrofização em águas costeiras e estuarinas em todo o mundo [9]. Atualmente, 65% dos estuários globais exibem eutrofização moderada ou severa, e estima-se que mais de metade dos estuários mundiais piore nas próximas duas décadas. O uso global de fertilizantes sintéticos aumentou mais de cinco vezes desde 1961, chegando a 200 Tg·ano⁻¹ em 2020, com a Ásia a representar mais de metade desse consumo. As cargas totais de nitrogênio e fósforo cresceram 40–45% entre 1980 e 2015.
A eutrofização costeira segue um padrão relativamente previsível: episódios iniciais de depleção de oxigênio evoluem para hipóxia sazonal e, em casos persistentes, para hipóxia perene ou anóxia. A formação de zonas hipóxicas é modulada não apenas pelo aporte de nutrientes, mas também pela estratificação da coluna de água, pelos tempos de residência das massas d'água e pela dinâmica de correntes costeiras, o que frequentemente gera uma dissociação espaço temporal entre os florescimentos algais superficiais e a hipóxia de fundo. [10]
Impactos ecológicos e socioeconômicos
[editar | editar código]Efeitos sobre organismos marinhos
[editar | editar código]O oxigénio é essencial para a sobrevivência de organismos aeróbicos, e os peixes são particularmente vulneráveis à sua depleção. Experimentos laboratoriais demonstraram que[7]
condições hipóxicas moderadas podem reduzir o comprimento e o peso de juvenis de diversas espécies em até 89%. A hipóxia também retarda a desova, reduz as taxas reprodutivas, compromete respostas imunes e prejudica a visão de peixes marinhos. [7]
Uma metanálise abrangendo 721 comparações experimentais mostrou que eventos hipóxicos (1– 3,5 O₂ mg·L⁻¹) causam efeitos negativos mais severos e consistentes do que o aquecimento oceânico (+4 °C) ou a acidificação (−0,4 unidades de pH), projetados para 2100 pelo IPCC [11]. A hipóxia reduziu a sobrevivência em 33%, a abundância em 65%, o desenvolvimento em 51%, o metabolismo em 33%, o crescimento em 24% e a reprodução em 39%, afetando moluscos, crustáceos e peixes de forma transversal, independentemente do estágio de vida ou região climática.
A expansão das ZMOs comprime os habitats disponíveis para espécies pelágicas, tornando-as mais vulneráveis à pesca de superfície. Para o marlim-azul no Atlântico tropical oriental, estima-se uma perda de habitat vertical de 15% entre 1960 e 2010, a uma taxa de aproximadamente 1 m por ano. Espécies bentônicas, como o bacalhau do Báltico, tiveram as suas dietas alteradas e populações reduzidas em resposta à expansão hipóxica de fundo. [12]
Efeitos sobre pescarias
[editar | editar código]A hipóxia tem impactos econômicos diretos e significativos nas pescarias. A compressão de habitat e a redução no tamanho corporal dos peixes alteram a composição das capturas, diminuindo o valor comercial médio. A pescaria de camarão da Carolina do Norte, por exemplo, registou uma perda anual de 12,9% nas capturas, equivalente a USD 1,25 milhões, atribuída à hipóxia entre 1999 e 2005. [13]
Pescadores artesanais e de subsistência, que operam próximo à costa, tendem a ser mais vulneráveis do que frotas comerciais com maior mobilidade. Estima-se que a anchova poderá perder 50% do seu habitat até 2100 devido à redução de oxigénio, com impactos graves para as economias pesqueiras do Peru e da Califórnia, regiões que juntas respondem por cerca de metade dos desembarques mundiais de anchovas e sardinhas. [14]
Soluções
[editar | editar código]Para evitar e controlar os problemas de hipóxia derivadas da actividade humana, é necessário reduzir a quantidade de nutrientes usados na agricultura, que entrando no ciclo da água, transportados pelos rios e canais subterrâneos acabam por ter como destino final os rios e lagos mais sensíveis. Para alem disso, melhorias nos sistemas de tratamento de águas residuais diminuiriam substancialmente a quantidade de nutrientes lançados nos ecossistemas, ou o restauro de sistemas ecológicos como sapais são particularmente eficazes na redução da quantidade de fósforo e azoto.
A experiência de gestão em diferentes regiões, como o Mar Báltico e a Baía de Chesapeake, demonstra que a recuperação dos ecossistemas é mais difícil de alcançar do que a degradação inicial, exigindo reduções de pressão maiores do que aquelas que desencadearam o processo.[15]
O controle precoce das cargas de nutrientes, antes que o sistema atinja um ponto de inflexão ecológica, se mostrou mais eficiente. [15]
As tecnologias ambientais trazem igualmente novas soluções, através da injecção de ar comprimido em colunas de água. Na Inglaterra, esta técnica foi utilizada no canal marítimo de Manchester, à data com baixos níveis de OD resultantes de águas com baixa velocidade e de várias descargas de canais de águas residuais sem tratamento. Com a injecção de ar comprimido, o nível de OD chegou aos 300%, levando a um aumento do número de espécies de invertebrados, como o camarão de água-doce, em mais de 30%. A desova e as taxas de crescimento das espécies de peixes, como a pardelha-dos-alpes e o perca também aumentou de tal forma que actualmente encontram-se entre as mais elevadas na Inglaterra.[16]
Do ponto de vista científico, há um consenso crescente sobre a necessidade de modelos integrados que combinam simulações espaço-temporais de oxigênio com dinâmicas de ecossistemas marinhos e dimensões socioeconômicas, a fim de fornecer subsídios para políticas de gestão eficazes e adaptadas regionalmente.[17]
Referências
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