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( aperte o alt ) · Dec 9, 2025

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Renato Alt · ( aperte o alt )

Ele dormiu sentado na cama, sobre uma das pernas, embalado pelo som repetitivo do trem correndo sobre os trilhos e pela luz dos postes - um aqui, outro lá - que cruzavam seu olhar, fazendo às vezes de carneirinhos, contados um a um.

Estava longe, muito longe, de quem o pudesse entender, atravessando a madrugada indiana abraçado à sua mochila, tentando roubar dela alguma lembrança de casa.

Mas não sentia saudade. Não ainda.

Em algum momento, enquanto dormia, sua companhia na cabine mudara de novo. De quando entrou no trem, já não havia mais ninguém: ele seria o único que faria o percurso inteiro. Foi a conversa animada, entre os novos ocupantes, que o despertou. Agora, os quatro leitos estavam ocupados. Quando o viram acordado, tentaram falar, foram simpáticos, e ele os cumprimentou sorrindo e indicando que não falava o idioma. Com o balançar de cabeça que só os indianos sabem fazer, responderam "sinto muito" (sim, ele já conseguia entender), e seguiram conversando.

O trem, agora, atravessava o campo, iluminado apenas por uma imensa — e um tanto exibida — lua.

A fome bateu ao mesmo tempo em que bateram à porta, oferecendo jantar. Ele aceitou sem ter ideia do que seria: muito arroz, molho apimentado e vegetais. Havia experimentado pratos incríveis nesses quase dois meses viajando, mas esse, definitivamente, não era um deles.

Leu um pouco. Ouviu música. Anotou algumas coisas em seu caderno e abriu o guia de viagens para ver as possibilidades que teria ao chegar. Fazia questão de não planejar demais: preferia que as coisas acontecessem por conta própria, aproveitando as oportunidades conforme apareciam, e isso o tinha levado a lugares onde muito poucos turistas tinham chegado — ou mesmo tido a coragem de ir.

Voltou o olhar novamente para os postes e para suas luzes, que indicavam a aproximação de mais uma cidade. Eram já tantas horas na companhia deles, os postes, que pareciam ter se tornado seus cúmplices na jornada, marcando o compasso dos seus pensamentos e trazendo, de novo, relaxamento e sono.

Acordou mais uma vez, e se viu sozinho. Mas quando não esteve? Em breve estaria ali despertando a curiosidade na próxima turma de viajantes que chegasse para dividir a cabine.

Não se queixava: enquanto houvesse postes, e pensamentos, a noite era sua.

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