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Ao Deus Desconhecido · Jan 26, 2024

Algoritmo Glutão

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YouTubers, Dinheiro e Escravidão


Um fenómeno recente que tenho notado são os Youtubers que decidiram deixar de o ser. Falo de pessoas que têm milhões de subscritores e que fazem da criação de vídeos o seu trabalho há vários anos. A razão deste abandono não podia ser por eles mais candidamente pronunciada: Burnout. Estão esgotados, afirmam.

Os algoritmos que regem estas redes de conteúdos demandam uma capacidade de produção enorme. Desumanamente enorme. Para “alimentar o algoritmo”, as publicações têm de ser constantes, inovadoras e com boa qualidade de produção.
Como o mundo natural nos revela, nós não estamos sempre a frutificar. Há tempo para ficar caduco, ser podado, polinizado, florir e, novamente, frutificar. Sem respeitar este equilibrado ciclo, os criadores esfumam-se nessa atividade escravizante. 

Byung-Chul Han, no seu livro que parece ter-se tornado um neoclássico — A Sociedade do Cansaço —, aborda como na sociedade contemporânea sofremos de uma compulsão para produzir e como uma pessoa é, simultaneamente, escrava e senhora, “explorando-se a ela própria”. Não existem imposições externas, ninguém obriga Youtubers a publicar vídeos. No entanto, aí estão eles, esmagados pela sua própria compulsão.

A necessidade contínua de excitar o algoritmo leva a um aumento da produção e a uma redução na qualidade. Do ponto de vista do número de visualizações, é mais importante aparecer com mau conteúdo do que ter bom conteúdo e não aparecer. Também se pode testemunhar a proliferação do clickbait, bem como de thumbnails que apelam a instintos primais. 

É preciso relembrar que a razão que motiva tudo isto é a expectativa de aumento dos lucros anuais por parte dos acionistas. Mais vídeos levam a mais envolvimento dos utilizadores; mais envolvimento dos utilizadores leva a um maior consumo de anúncios; e um maior consumo de anúncios leva a uma maior receita da empresa, o que, por sua vez, resulta em lucros para os acionistas. 

É trágico que criadores de conteúdo estejam a esgotar-se a fazer coisas que lhes dão prazer e tenham ficado fartos de falar de temas que lhes são queridos. Como já há muito se diz: “O amor ao dinheiro é a raiz de todo o mal”.

O Substack (até à data) contraria esta tendência, porque funciona num modelo de mailing list. Independente da frequência, sempre que publico algum texto, todos os meus subscritores são notificados. Considera subscrever gratuitamente agora.

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