Há muitas maneiras de começar este texto.
Posso contar de quando um taxista me buscou na casa de minha mãe, para me levar ao aeroporto, onde eu pegaria o voo de volta para casa, e aproveitou o ensejo de que eu tinha ido visitar minha mãe no fim do ano para contar que o pai tinha morrido há pouco e que só via o pai no Natal e na Páscoa. Que, se ele soubesse três anos atrás, prosseguiu o taxista, que o pai só viveria até tal idade, teria feito o cálculo que, como ele o via duas vezes ao ano, isso significava que só o veria mais seis vezes na vida. O que, argumentava o taxista, muda tudo.
Posso também contar de planejamento financeiro com um assessor. Já fizeram? O assessor, gentil e barbeado, vai te ajudar a calcular se vale a pena ter uma VGBL ou um seguro de vida. E a pergunta que ele começa fazendo, meio desconfortável em seus sapatos engraxados, é a seguinte: até quando, mais ou menos, você se imagina vivendo. Eu respondi 75. Ele falou que não, veja bem… Expliquei que eu tinha uma doença crônica e que os homens da minha família não duram muito. Ele me convenceu a botar 85. Assim, “para fins de cálculo”.
Mas eu gostaria mesmo de começar esse texto pela história de Roberto Bolaño. Analisemos a sua bibliografia com data de publicação original ao lado, levando em conta que ele faleceu em 2003:
1984 - Consejos de un discípulo de Morrison a un fanático de Joyce (con A. G. Porta; reeditada en 2006 junto al cuento Diario de bar)
1984 - La senda de los elefantes (reeditada en 1999 como Monsieur Pain)
1993 - La pista de hielo
1996 - Estrella distante
1997 - Llamadas telefónicas
1998 - Los detectives salvajes
1999 - Amuleto
2000 - Nocturno de Chile
2001 - Putas asesinas
2002 - Amberes
2002 - Una novelita lumpen
Ediciones póstumas
2004 - 2666
O que aconteceu entre os anos 1980 e 1996? Bolaño publicou poesia aqui e ali, contos em concursos de cidadezinhas, planejou e tramou romances, iniciou falsas tentativas que desembocariam em seu romance mais importante… Mas e entre mais ou menos 1994 e julho de 2003, quantas milhares de páginas de altíssima qualidade não foram escritas? Quantas novelas avassaladoras e romances monstruosos não fez? Por que sua bibliografia se encontra concentrada em um espaço de tempo tão breve?
Foi porque, mais ou menos na minha idade, Roberto descobriu uma doença: insuficiência hepática. Entraria na fila de transplante de fígado, mas nada era garantido. Sua existência provavelmente seria mais curta do que a média, e a morte poderia chegar em qualquer ano. Por isso, debruçou-se obsessivamente no objetivo de escrever tudo o que planejou na juventude. Conta Enrique Vila-Matas, parafraseando Kafka, que tirar Bolaño de sua escrivaninha “era como tirar um morto da sua sepultura”. E assim ele foi de um precário vendedor de bijuterias na costa catalã para um escritor premiado. Morreu aos 50 anos sem saber que se tornaria o escritor latino-americano mais influente de quase um século. Daria uma história de coach se não fosse tão triste.
Foi necessário esse memento mori, esse “saber que vai morrer”, para que Bolaño disparasse. Lembro-me também de Philip K. Dick. Em 1963 e 1964 ele escreveu o total de onze (11) livros. Ele digitava THE END numa página, tirava-a da máquina de escrever, puxava outra folha e começava com o título de um novo romance.
Alguém pode argumentar que “livro de gênero é mais fácil”, o que seria de uma ignorância espetacular. Ainda mais porque PKD escrevia, acima de tudo, romances de ideias, e esses livros, que incluem grandes clássicos como Os três estigmas de Palmer Eldritch estão plenos de ideias revolucionárias e de material autobiográfico transformado em ficção delirante. Por que ele produziu tanto em tão pouco tempo? Porque tinha dívidas, pagava pensão para ex-mulheres, e porque consumia anfetaminas.
PKD, estamos cansados de saber, teve uma experiência mística em 1974, quando começou a se comunicar com uma entidade que ele supôs ser alienígena, e que teria salvo a vida de seu filho, avisando-o da doença grave que ele tinha e levando Philip K. Dick a conduzi-lo ao hospital a tempo. A revelação divina ocorreu 8 anos antes de sua morte e levou-o a produzir o seu melhor romance, VALIS, uma espécie selvagem de autoficção no qual Philip K. Dick, o personagem, divide-se em dois, um deles que acredita no que vivenciou e outro que é cético e desconfia da própria sanidade. Paralelamente a isso, como Bolaño, ele pariu mais de mil páginas num diário alucinado que ficou conhecido como Exegesis. Sabia PKD que ia morrer aos 53 anos? Provavelmente não. Mas ele escrevia, à sua maneira, contra o tempo.
Agora eu aperto o botão de inverter a câmera no celular e transformo numa selfie. Minhas publicações:
Areia nos dentes (2008)
A página assombrada por fantasmas (2011)
F (2014)
As perguntas (2017)
Uma tristeza infinita (2021)
Como se pode observar, eu tinha o hábito de publicar um livro a cada 3 anos; a distância entre uma obra e outro aumentou para 4 anos depois: ou seja, começou uma tendência de espaçamento. Estamos em 2025 e me encontro muito longe de publicar algo. Somente se um milagre acontecer algo sairá em 2027, mas o mais provável é 2028, ou 2029. Para fins de cálculo, consideremos 7 anos.
Se, como Roberto Bolaño, eu viver até os 50 anos, isso significa que me restam dois livros. Ou como PKD, até os 53, quem sabe deixo rascunhos obsessivos de alguma loucura além desses livros.
Se HaShem sorrir para mim e eu não apenas tiver uma vida longa até, digamos, os 95 anos, e mais do que um lifespan, eu tiver saúde e lucidez, um healthspan, podemos imaginar que escreverei ainda 7 livros; mas, se levarmos em conta a tendência atual de espaçamento entre publicações, o número mais provável é de 5 livros.
Terei ainda cinco boas ideias nessa vida?
Quando eu escrevia contos, ideias eram coisas simples que me invadiam com a frequência que um enfermo tem seus surtos. Eram tantas que eu podia até fazer algo improvável: escrever contos, que a cada poucas páginas exige a criação do zero de um novo universo, com um novo ponto de vista, com novos personagens. Hoje em dia, escrever um conto me parece absurdo. Se eu tenho uma ideia, preciso agarrá-la e espalhar a manteiga pelo pão até que se torne um romance. A quantidade de manteiga nem sempre é suficiente, caso do meu romance atual, que tem personagem, tem narrador, mas talvez não tenha história o bastante, não ainda.
Ou, é claro, posso tomar a atitude oposta, ser atingido por um raio, uma revelação divina como PKD ou um memento mori como Roberto Bolaño e escrever freneticamente. Sinceramente, prefiro viver mais e com menor angústia do que esses dois.

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.