UM ARTIGO DO CINEASTA FABRÍCIO RAMOS SOBRE “QUARTO CAMARIM”,
CENSURADO PELA ANCINE EM NOME DO FASCISMO IDENTITARISTA
# nota sobre Quarto Camarim - Filme e sua desobediência à norma ideológica identitária
Há um momento em que o cinema deixa de ser apenas narrativa, registro ou entretenimento e se converte em pensamento. Não pensamento discursivo, mas uma forma sensível de interrogação do mundo. Porque pensar não é esclarecer — é aceitar não compreender plenamente. Esse momento, contudo, é cada vez mais raro em um cenário cultural submetido à exigência constante de alinhamentos morais prévios, de posições identitárias codificadas e de respostas previsíveis aos dilemas da representação. O que se observa é a substituição da experiência estética pela vigilância ideológica.
Nesse contexto, certos filmes passam a ser julgados não por sua capacidade de produzir pensamento, mas pela docilidade com que reproduzem discursos legitimados. O cinema torna-se, então, menos um espaço de criação do que um instrumento de confirmação. A obra já não é interrogação, mas demonstração; já não é ambiguidade, mas pedagogia; já não é tensão, mas cartilha.
Quarto Camarim, por sua recusa orgânica em adaptar a vida à teoria, surgiu como um corpo estranho nesse regime. Ao não enquadrar sua personagem dentro dos códigos discursivos dominantes sobre identidade de gênero, o filme desloca o foco do campo das nomenclaturas para o campo da presença. Luma não aparece como emblema, mas como existência. E é exatamente essa existência irredutível que incomoda.
Essa tensão revelou-se de maneira concreta quando o filme foi censurado em um edital de distribuição da ANCINE, sob o argumento de que “não plasmava adequadamente a identidade de Luma como travesti”. Trata-se de um caso emblemático: não se tratava de uma objeção estética, mas de uma exigência normativa, como se a obra tivesse falhado em representar corretamente o modelo identitário esperado. O parecer não julgava o filme — julgava sua obediência a um enunciado prévio. A vida mesma, sob essa prescrição da ANCINE, tornava-se insuficiente frente à teoria.
É provável que essa recusa de alinhamento a narrativas ideologicamente previsíveis tenha contribuído para a exclusão do filme de determinados circuitos e festivais. A ideologia contemporânea — particularmente em sua variante identitarista — opera por uma lógica paradoxal: ao mesmo tempo em que proclama a diversidade, exige uniformidade moral; ao mesmo tempo em que reivindica a complexidade, simplifica. Ela transforma sujeitos em funções discursivas, corpos (sic) em signos, experiências em categorias estabilizadas, aparências em essências. Tudo deve ser legível, classificado, determinado. A opacidade, o silêncio, a contradição — elementos constitutivos da experiência humana — tornam-se suspeitos, quase ofensivos.
Neste regime, o cinema deixa de ser lugar do não-sabido para tornar-se arena de correção simbólica. A obra não pode revelar o mundo em sua densidade, mas tão somente reafirmar uma moral já estabelecida. O artista, por sua vez, passa a ser julgado não por sua idiossincrasia formal, mas por sua adesão a um repertório de signos politicamente validados, como se a criação estética devesse obedecer à lógica da militância.
O gesto de Quarto Camarim é radicalmente outro. Ele não converte sua personagem em bandeira nem em vítima exemplar. Tampouco redistribui culpas em esquemas fáceis de antagonismo. O que ele oferece é um espaço raro de encontro, onde o afeto, o respeito, a franqueza, o constrangimento, a memória familiar e o desconcerto coexistem sem solução didática nem falso moralismo virtuoso. Posso dizer, olhando para a própria trajetória do filme, que ele restitui ao cinema uma dimensão que o discurso ideológico frequentemente suprime: a da incerteza ou a do pensamento.
Aliás, essa trajetória é reveladora de que há brechas nessas grades do circuito cultural. A seleção do filme pela III Seção ABRACCINE, com sessões realizadas em vários cinemas culturais do país e debates conduzidos por críticos especializados, permitiu que a obra encontrasse públicos diversos e produzisse retornos complexos, muitas vezes comoventes. A circulação via ABRACCINE reposicionou o filme no debate, demonstrando que há situações onde a reflexão ainda prevalece sobre a patrulha. Análises mais cautelosas e rigorosas, como as publicadas pela Folha de S. Paulo e pela Carta Capital, e a entrevista para o Caderno 2 de A Tarde, feita pelo crítico João Paulo Barreto, evidenciaram a densidade sensível do trabalho.
A própria figura da travesti, no contexto brasileiro, revela outro paradoxo cruel. Ao ser absorvida pela linguagem genérica do “trans”, corre-se o risco de apagar sua história específica, sua corporalidade dissidente, sua existência cultural singular. Sob o pretexto de inclusão, produz-se, muitas vezes, uma nova marginalização simbólica. Quarto Camarim não verbaliza isso como discurso: ele o inscreve como presença — e essa é sua força. Quando um filme opta pela autenticidade sensível em vez da “verdade” ideológica, ele não se posiciona contra causas: ele reconhece a complexidade humana.
Quarto Camarim, com todas as suas imperfeições e sua forma fragmentária, se inscreve nessa zona rara: não quer dizer, quer mostrar; não quer disciplinar, quer expor; não quer transformar a vida em código, mas preservá-la em sua instabilidade constitutiva. E é justamente nessa instabilidade que ele afirma o cinema como lugar de pensamento.
Talvez a questão decisiva não seja se um filme é corretamente político, mas se ele ainda é capaz de nos retirar do abrigo das ideias prontas. Quando uma obra nos torna menos seguros, mais atentos, mais conscientes da complexidade do real, ela cumpre uma função que nenhuma ideologia pode substituir: a de devolver ao mundo sua densidade e sua verdade trágica.
E é aí, precisamente aí, que o cinema ainda pode permanecer vivo — não como extensão de discursos dominantes, mas como abertura e aventura que se lança contra toda forma de pensamento domesticado.
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Fabricio R.
Co-diretor de Quarto Camarim, junto com Camele Queiroz.

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