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O Substack de Antonio Risério · Mar 13, 2026

P/ FRONTEIRAS DO PENSAMENTO

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Antonio Risério · O Substack de Antonio Risério

INTERVENÇÃO INICIAL NO EVENTO FRONTEIRAS DO PENSAMENTO/ SÃO PAULO – PARQUE DA ÁGUA BRANCA

Antonio Risério

Em qualquer conversa sobre identidade nacional, é bom partir de um tripé. Primeiro, a configuração cultural brasileira não é estática. Segundo, além de móvel, ela é múltipla. Terceiro, quando alguém congela determinados elementos como as verdadeiras encarnações da nossa identidade, está marginalizando a invenção. E a invenção é condição indispensável à afirmação nacional de qualquer país. Em nosso caso, a invenção tem sido fundamental, do Aleijadinho a Niemeyer, de Santos Dumont a Pelé.

Quando penso na natureza processual, dinâmica, da identidade, costumo dar um exemplo baiano. Hoje, quando alguém fala de identidade cultural, a propósito da Bahia, cita logo os orixás, embora o candomblé seja professado por apenas 2.7% da população de Salvador. Mas, durante um bom tempo, não existiram orixás na Bahia. Não é coisa do tempo de Gregório de Mattos e Antonio Vieira: os orixás só começaram a desembarcar na Bahia a partir de meados do século XVIII. E foi só no século XIX que se formou o primeiro terreiro do candomblé jeje-nagô na Bahia. O que quer dizer que, mesmo ainda no século XIX, se alguém fosse definir uma identidade baiana, não teria como se referir a orixás.

O segundo ponto, como disse, está na multiplicidade. Não devemos incidir no erro de tomar o que é característico de uma região ou de uma parcela da sociedade como se fosse definidor geral da nação. É o equívoco em que incorre o meu querido amigo Roberto DaMatta. Ele toma a sociabilidade praieira, a escola de samba, a umbanda e a feijoada como os elementos que formam a identidade nacional. Acontece que um habitante do vale amazônico pode preferir sua comida no tucupi, dançar carimbó, curtir histórias de botos e anhangás, jamais ter ido a uma praia marinha, não dar a mínima importância à Mangueira ou à Portela, menos ainda à umbanda e orixás – e nem por isso ele deixa de ser e de se sentir brasileiro. O Rio de Janeiro é apenas uma das nossas regiões culturais e não o próprio Brasil.

De outra parte, tentativas de definir as regiões culturais brasileiras, na base da régua e do compasso, têm sido exercícios simplificadores. Como no caso de um outro querido amigo, Darcy Ribeiro. Darcy nos fornece um esquema útil para a leitura do Brasil, mas seu alcance é limitado, excessivamente preso a seus recortes geográficos. Com isso, ele passa ao largo de situações e processos que explodem o seu quadro explicativo, apaga diferenciações intrarregionais relevantes, não leva em conta migrações populacionais e simbólicas que modificaram o país, e acaba sem ter muito o que dizer a respeito do Rio e de São Paulo, nossas principais metrópoles. Além de abolir a complexidade antropológica de Minas Gerais, onde nasceu. Porque Minas, de uma parte, integra o mundo cultural caipira. De outra, apresenta uma face negromestiça nítida e, também, uma nítida face nordestina, como se pode ver no romance de Guimarães Rosa. É interessante, aliás, que Darcy e DaMatta, ambos mineiros, não tenham feito uma reflexão profunda sobre Minas...

Por fim, como disse, temos a invenção. Se a gente se prender a Euclydes da Cunha, por exemplo, vai se prender ao dualismo simplificador entre a autenticidade sertaneja e a degenerescência mestiça e cosmopolita do litoral, para azar de Santos Dumont. Porque a essência ou o cerne da nacionalidade estará na vida sertaneja, jamais em meio às nuvens, vencendo um desafio milenar da humanidade. E Santos Dumont tinha perfeita consciência de que era um corpo absolutamente estranho no horizonte intelectual brasileiro de sua época. Ele falava que o seu projeto de voar soava, aos ouvidos brasileiros, como uma espécie de pecado social. E o seu 14-Bis, um prodígio de estética e funcionalidade, uma obra prima do design mundial, foi a maior invenção brasileira de todos os tempos, a meio caminho entre os balões esféricos de Bartolomeu de Gusmão, no século XVIII, e os jatos que a Embraer hoje espalha pelo mundo.

Enfim, o Brasil não é samba de uma nota só. Mas um espaço polifônico e polissêmico, um texto pluridimensional, articulando-se em planos plenos de sinais e de sentidos. Esta é a nossa verdadeira diversidade. O colorido vário da nossa trama de cultura. Uma diversidade que, antes que desagregar, aparece como traço distintivo da nossa personalidade cultural. Uma diversidade marcada pela mestiçagem física e simbólica, ao som e à luz da língua portuguesa do Brasil. Falemos de identidade, então, como de uma constelação viva, dinâmica, em viagem perpétua – como um mesmo verbo, conjugado por pessoas variadas, em tempos e modos distintos.

E eu penso que, diante deste nosso Brasil, devemos ter sempre uma relação crítica, mas nunca uma relação hostil, como tenho visto hoje. Uma relação que, sem eliminar as aproximações amorosas, permaneça essencialmente crítica, mas jamais hostil.

E digo isso porque a nação se vê hoje sob um bombardeio político-ideológico identitarista. O marxismo clássico já via a nação como uma fantasia perversa para manter os oprimidos anestesiados. Hoje, o identitarismo esquerdista vai muito além disso. Reza que toda nação é feita de várias “nações”, a dominante e as dominadas. O objetivo é mostrar que não existe uma nação brasileira, mas um conjunto desconjuntado de “nações” dentro de uma mesma extensão territorial. O irônico é que tal fantasia venha à luz justamente num momento histórico em que a sociedade brasileira atingiu o seu mais alto grau de integração cultural. E não há retorno possível. Não há como fazer com que descendentes de índios voltem a ser como os antigos tupinambás, porque eles já são também “brancos”, em pelo menos dois sentidos: são mestiços brasileiros ou são personagens sincréticos. Falam português, circulam entre aldeia e cidade, produzem audiovisuais, usam celulares, ostentam diplomas universitários. De resto, embora todos os nossos índios digam que não podem viver fora de suas terras, o IBGE informa que 63% deles vivem fora das terras já demarcadas – e elas são uma imensidão fundiária.

A militância racialista, por sua vez, considera que o Brasil é uma ficção e que os pretos formam, aqui dentro, uma espécie de nação negra no exílio. É a fantasia “afrodiaspórica”. Mas a verdade é que todos esses negros são brasileiros. Participaram e participam ativa e criativamente da construção nacional. Participação que se intensificou sempre que escravos e ex-escravos abandonaram projetos coletivos de retorno à África, como no caso de jejes e nagôs que aqui reinventaram suas formas religiosas. Quem quiser que se fantasie de “africano” (um ser mítico, inexistente no real histórico), deite falação sobre “outras epistemologias”, etc., pois continuará sendo brasileiro e ocidental, não raro citando sociólogos norte-americanos e filósofos franceses. Essa conversa de que o Brasil não é uma nação, mas um “pluripaís”, é retórica política furada. A verdade é que já é tarde demais, muito tarde, para abrir mão de nosso país.

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