[Identifico com a letra E o entrevistador; e AR sou eu mesmo]…
E: Como você explica a relação entre ética e política no Brasil de hoje?
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AR: Não tem explicação. O filme é de gato e rato. Onde a ética põe o pé, a política foge espavorida. Onde a política avança, a ética é estrangulada. É uma coisa impressionante. Quando você liga a televisão e sintoniza o noticiário político, tem certeza de que errou de canal e caiu no noticiário policial. E políticos, quando se unem, não é nalguma aliança em defesa do povo ou do país, mas para salvar a própria pele. Enfim, hoje, no Brasil, ética e política são uma contradição em termos. Nunca, em toda a nossa história, elas foram tão distantes, tão estranhas entre si. Tornaram-se antípodas.
E: Você, desde algum tempo, deixou de frequentar as urnas. E prega não querer mais votar em “filho da puta nenhum”. Será que você não vislumbra um não filho da puta em quem votar? - e já aqui, ressalvemos, juntos, o nosso maior respeito e apreço por elas, as putas, apesar dos seus - delas - filhos…
AR: Olha, amigo, lembra aquela história de Pelé ter dito ou não ter dito que o povo não sabia votar? Eu acrescentaria que intelectual também não sabe votar. Para você ter uma ideia, cheguei a votar em Waldir Pires pra governador da Bahia e em Dilma Rousseff pra presidenta da República. Ah, não disse “presidenta” pra fazer charme ou média, não. A palavra existe, está dicionarizada e foi usada até por Machado de Assis no Dom Casmurro. Agora, acho que alguém como eu ter votado em Waldir e Dilma é caso para o TSE cassar meu título de eleitor. Como eles não cassaram, eu mesmo cassei. Joguei o meu título de eleitor no lixo, que é onde hoje se encontra a política brasileira. Cito, em outro contexto, dois versos do Faust de Goethe: “Auch auf Parteien, wie sie heissen,/ Ist heutzutage kein Verlass”. Acho isso mesmo, com relação à nossa conjuntura. Nossos partidos, tanto os que bajulam quanto os que atacam o governo, não merecem, igualmente, a mínima confiança. E nunca precisei do título de eleitor para nada. Nunca me pediram o distinto na burocracia do casamento, na compra de um imóvel ou de um carro, na entrada do prédio de uma instituição do poder público e muito menos, claro, num boteco. É um documento que só exigem para emitir passaporte. Mas, como já arquivei qualquer projeto de viajar para o exterior (detesto aeroporto, detesto avião, me recuso a fazer qualquer viagem que dure mais do que três horas), nem aqui o título me serve. Mas o principal não é isso, obviamente. Votei pela última vez em 2010, na desastrada e desastrosa Dilma. Foi decepção suficiente. Depois disso, nada feito. Simplesmente, não vejo em quem votar. Votaria em Eduardo Campos, mas ele se foi antes da hora. Hoje, como disse, só temos um vasto e pantanoso espaço político no Brasil, que é o centrão. De “direita” ou “de esquerda”, mas centrão, com todos se lixando para o real bem-estar da população – seja na saúde, na alimentação ou no direito à cidade –, mergulhados na corrupção mais desenfreada (no Brasil, o crime compensa – e como!), totalmente impunes e lutando exclusivamente pela permanência no poder. Como sempre digo, o PT e a União Brasil são a mesma merda. Sara Victoria vai lá no dia e vota, nem pergunto em quem. Mas ela é obrigada a cumprir o ritual, a fim de viajar, visitar seus primos e sobrinhos em Berlim, essas coisas. Eu, como nada tenho a fazer fora do Brasil, posso me dar ao luxo de mandar todos os políticos profissionais e seus cúmplices marqueteiros à puta que os pariu. Acho, na verdade, que deveríamos fazer uma grande campanha nacional contra o pagamento do imposto de renda. A gente paga essa merda para que? Não é para ter boas escolas, bom serviço de saúde (a ideia do SUS é excelente, a prática é um horror, desrespeito total com as classes populares brasileiras), uma boa política habitacional. Nada disso. Pagamos imposto de renda única e exclusivamente para os políticos profissionais encherem o cu de dinheiro. Então, acho que a população brasileira deveria fazer um grande movimento, cancelando essa prática de desconto de imposto “na fonte” e se recusando a pagar o dito cujo, com o objetivo de deixar os políticos na merda, isto é, fazer com eles o que eles fazem com o povo. Até lá, por tudo isso, em dias de eleição, me deleito ficando em casa, lendo algum livro, passeando na beira do mar. Porque não tenho dado e não mais darei voto meu a nenhum dos rebentos fedorentos da atual podridão política nacional. É isso.
E: Fala-se que quem não vota ajuda a eleger crápulas.
AR: Quem vota, também. Tenho esperança de que um dia isso mude. Afinal, ao contrário do que hoje se vê, já tivemos, em nossa história, muitos políticos sérios e honestos – mesmo bem recentemente, a exemplo de Ulysses Guimarães, Saturnino Braga, Darcy Ribeiro. E não é impossível que isso volte a acontecer. Daí, eu teria em quem votar. Hoje, não. Não vejo ninguém que mereça o voto de nenhum brasileiro sério. Afora isso, o voto não é o único caminho que o cidadão tem para se expressar, ainda mais que é prática muito espaçada, quadrianual, quando, para atenuar o imenso déficit democrático brasileiro, teríamos de adotar alguns meios e modos de democracia direta. Por outro lado, se não voto, eu atuo das mais variadas formas. Escrevo, gravo vídeos, faço palestras, dou entrevistas, participo de iniciativas da coletividade, formulo e executo projetos públicos, etc. Para mim, mil vezes isso do que, de quatro em quatro anos, dar meu voto a um filho da puta qualquer, que só vai se preocupar realmente consigo mesmo, se lixando para os desejos e as necessidades da população.
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