Eu demorei um pouco para escrever esta edição. Às vezes, as palavras ficam presas em um lugar onde o som não chega, e é justamente sobre esse lugar que eu quero falar hoje. Sabe aquele momento em que você está rodeado de pessoas, as risadas preenchem a sala, mas você sente como se estivesse a quilômetros de distância? É o tipo de sentimento que não faz barulho, mas que pesa mais do que qualquer isolamento.
Escrevi o texto abaixo em um desses momentos de lucidez silenciosos, quando a gente percebe que está apenas ocupando um espaço físico enquanto a vida dos outros acontece em uma frequência que a gente não consegue sintonizar.
É uma sensação estranha, quase irônica. Eu olho em volta e vejo rostos conhecidos, ouço risadas, participação de conversas que fluem como se eu fizesse parte da graça. Mas, por dentro, há um silêncio absoluto. É como se eu estivesse assistindo à minha própria vida através de um vidro protegido: eu vejo o movimento, mas não sinto o calor.
Estar acompanhado e, ainda assim, sentir-se sozinho é uma solidão muito mais cruel do que o isolamento físico. Quando você está sozinho no seu quarto, a solidão é esperada. Mas estar no meio de uma multidão, ou em uma mesa com amigos, e perceber que a sua ausência não mudaria o tom da conversa... isso fez de um jeito silencioso.
"A pior solidão não é aquela que você sente quando está sozinho, mas a que você esmaga quando você percebe que é invisível para quem está ao seu lado."
Às vezes, eu me pego observando vocês e me perguntando como é a sensação de se sentir parte de algo. Para mim, a experiência de estar acompanhada se tornou um exercício de atuação. Eu sorrio nos momentos certos, concordo com as opiniões e preencho o espaço físico, mas por dentro, me sinto invisível. Sinto como se eu fosse uma nota de rodapé em uma história que todo mundo está lendo com pressa.
O que mais dói não é a solidão em si, mas a sensação de ser desimportante . É o medo constante de que, se eu parasse de me esforçar para estar presente, ninguém notaria minha partida. É sentir que a minha existência é um detalhe irrelevante na rotina de quem eu mais preço.
Eu não quero atenção por caridade. Eu só queria, por um instante, sentir que meu peso faz diferença, que minha voz ecoa em alguém e que, se eu não estivesse aqui, o mundo de vocês ficaria um pouco mais vazio.
Sabe o que é se sentir um figurante na própria vida? Eu passo grande parte do meu tempo observando a conexão entre as pessoas. Vejo como elas se olham, como entendem piadas internas, como se buscam com o olhar quando algo engraçado acontece. E eu fico ali, na periferia desse calor humano, tentando aquecer as mãos em uma fogueira que não é minha. Eu sorrio para não parecer estranho, eu respondo para não parecer rude, mas sinto que sou apenas uma sombra projetada na parede, alguém que ocupa um espaço físico, mas cujo emocional é nulo.
Muitas vezes, eu me pego testando o mundo. Fico em silêncio por um tempo mais longo para ver se alguém me puxa de volta para uma conversa. Me afasto um pouco do grupo para ver se alguém percebe que a distância aumentou. E a resposta, quase sempre, é um silêncio ensurdecedor do lado de lá. É nesse momento que a ideia de ser “desimportante” deixa de ser um medo e se torna uma verdade dolorosa. Eu me sinto combinado. Sinto que sou aquela peça extra que sobra quando você monta um móvel: você sabe que ela veio na caixa, mas não sabe bem onde ela se encaixou e, no fim, acaba guardando-a em uma gaveta qualquer, onde ela será esquecida.
Eu percebi que a minha presença é apenas um detalhe decorativo. Eu não quero ser o centro das atenções, eu não quero aplausos. O que eu queria era sentir que minha ausência faria falta, que meu silêncio seria notado e que meus pensamentos tivessem valor para alguém além de mim mesmo. É exaustivo carregar esse vazio enquanto todo mundo ao redor parece tão preenchido, tão conectado, tão... real. Às vezes, duvido da minha própria realidade. Se ninguém me vê, eu realmente estou aqui?
É engraçado como a gente se acostuma a ser o "ruído de fundo". Não é que as pessoas sejam mais ou me ignorem de propósito; é só que a vida delas parece ter uma engrenagem tão bem ajustada que eu acabei sendo apenas um detalhe na paisagem. Eu participo, comento sobre o clima, rio do que é engraçado, mas no fim da noite, fica aquela sensação de que eu fui apenas um espectador privilegiado da vida dos outros. É como se existissem conversas acontecendo em uma frequência que eu não consigo sintonizar totalmente, deixando aquele especial estranho onde deveria estar a conexão.

Comments
Nothing yet. Say the first thing.
Sign in to join the conversation.