Outro dia me peguei olhando para uma caixa de texto em branco, com o cursor piscando num ritmo hipnótico e impaciente. Eu precisava responder a um e-mail delicado
Antes mesmo de formular a primeira frase na minha cabeça, meus dedos, num automatismo quase mecânico, abriram uma nova aba no navegador.
“Escreva um e-mail gentil dizendo que…”
Eu parei no meio do caminho. Olhei para a tela. Senti um frio estranho no estômago, um misto de vergonha e constrangimento comigo mesma.
Em que momento da minha história eu terceirizei a minha delicadeza? Desde quando eu preciso de um algoritmo para dizer a alguém que eu, de carne e osso, sinto muito?
Se você tem usado as inteligências artificiais com frequência, sabe exatamente do que estou falando. Não se trata de uma crítica à tecnologia em si ( ela é fascinante, útil, corta caminhos absurdos)
O problema não é o que ela faz por nós, mas o que ela está fazendo conosco. Gradativamente, estamos desaprendendo a desconfortável, porém maravilhosa, arte de pensar por conta própria.
O pensamento original é como um músculo que adora uma preguiça: se você der uma cadeira de rodas tecnológica para ele, ele esquece como se caminha
Quando eliminamos o esforço de raciocinar, de buscar a palavra exata, de bater cabeça com uma ideia até que ela faça sentido, eliminamos também a nossa identidade. Nossos textos começam a soar polidos demais, estruturados demais, limpos de qualquer imperfeição humana ( e por isso mesmo, profundamente sem alma )
Se você também sente que sua mente anda meio amortecida, num modelo de respostas prontas, montei este pequeno manual afetivo. É um convite para reatar o namoro com a sua própria mente. Vamos reabrir esse espaço?
1. Faça as pazes com o vazio
O maior perigo da IA não é a inteligência dela, é a nossa pressa. Nós corremos para o ChatGPT porque não suportamos os três minutos de silêncio que a nossa mente precisa para organizar o caos antes de criar algo. O vazio nos assusta.
Da próxima vez que precisar escrever, planejar ou decidir algo, feche a aba da IA e encare a tela em branco. Ou, melhor ainda, pegue um papel. Deixe o cursor piscar. Sinta o incômodo. É justamente nesse espaço de silêncio e tédio que as sinapses começam a acordar. O pensamento precisa de tempo de incubação; respeite o tempo do seu cérebro.
2. Escreva mal, mas escreva você
A IA nos viciou em um padrão de perfeição artificial. Ela entrega textos sem erros gramaticais, com transições impecáveis e tópicos perfeitamente divididos. Só que a vida real não é assim, e o pensamento humano nasce torto, caótico e cheio de rasuras.
Permita-se o fluxo de consciência. Escreva um parágrafo terrível. Use palavras repetidas, abuse das metáforas clichês se for preciso, mas coloque para fora o seu fluxo. Lapidar um texto feio e genuíno que saiu de você é infinitamente mais enriquecedor do que aceitar um texto impecável gerado por um robô que nunca viveu as suas dores.
3. Troque o "prompt" pelo repertório vivo
Para abastecer uma IA, você precisa de um bom comando (um prompt). Para abastecer a sua mente, você precisa de vida. Se suas referências vêm apenas daquilo que o algoritmo mastiga e te devolve, você vira uma cópia da cópia.
Vá ler livros antigos, daqueles que não têm barra de pesquisa. Assista a filmes que te deixem confuso. Converse com pessoas que pensam radicalmente diferente de você e escute-as sem formular a tréplica mentalmente. Caminhe sem fones de ouvido. O pensamento original se alimenta do imprevisto, do detalhe que você pesca no mundo real enquanto está distraído.
4. Pratique a dúvida intencional
Nós nos acostumamos a fazer perguntas para a máquina e aceitar suas respostas resumidas em tópicos de 1 a 5 como verdades absolutas. Isso nos torna preguiçosos intelectuais. Começamos a aceitar a síntese dos outros em vez de construir nossa própria análise.
Quando ler uma opinião ou receber uma resposta, pergunte-se: Eu realmente concordo com isso? De onde veio essa premissa? Quais nuances ficaram de fora?
Terceirizar a nossa visão de mundo para uma inteligência artificial é abrir mão da nossa soberania pessoal. Duvide mais, pesquise em fontes dispersas, monte o seu quebra-cabeça.
5. O resgate da sua voz única
No final das contas, o que nos torna magnéticos, o que faz alguém ler uma newsletter até o fim, não é a perfeição gramatical ou a estrutura dela.
É o erro honesto, o tom de voz, o sotaque da alma, a vulnerabilidade que só quem vive e sente consegue expressar.
Uma máquina não consegue transmitir os seus sentimentos.
Pensar cansa. Dá trabalho, exige paciência e muitas vezes nos deixa cara a cara com as nossas próprias limitações intelectuais. Mas é nesse exercício incômodo que nos tornamos livres.
Não deixe que uma máquina roube de você o privilégio mais bonito de estar vivo: a sutil, desajeitada e maravilhosa capacidade de pensar por si mesmo.
Abra as janelas da sua mente. O vento lá fora está incrível, e ele não precisa de internet para soprar.
Aqui nesse link você encontra o meu clube de escrita, comunidade no whatsapp, com ideia de incentivar mais você a escrever e compartilhar seus textos do subs : Clube criativo

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