Me parece que há algo fascinante em personagens quebrados. Não acha?
Talvez seja porque em algum ponto da nossa vida, a gente vai se quebrando sem perceber. E nem sempre isso significa algo ruim. Faz parte de crescer. E se projetar em personagens que, por mais fantasiosos que sejam, sentem o que sentimos ao lidar com a vida é como se projetar pra fora da nossa própria existência e ver que ela pode fluir para um lugar de esperança.
Alan Rickman quando estava apresentando o filme “Um Pouco de Caos” no encerramento do 39º Festival Internacional de Cinema de Toronto em 2014 soltou essa frase:
“Isto não é a realidade.
É um romance.
Então respire fundo.
Aproveite.
Foi feito para você.”
— Alan Rickman
Dentro da realidade, nem sempre percebemos quando estamos nos quebrando. Às vezes só dá pra notar quando nossas reações, rotinas ou formas de ver as coisas simplesmente mudam. E assistir personagens passando por coisas parecidas é realmente um respiro.
Dizem que vivemos uma epidemia de solidão. A gente tem acesso a qualquer pessoa do mundo, mas não consegue conectar nem com a pessoa ao lado. A razão, acho, é que estamos numa era em que lidar com o que não funciona é mais cansativo que estar sozinho. Então colocamos muros ao redor dos nossos desejos e deixamos o resto para lá.
Tem também o outro extremo: “eu dou conta sozinha, não vou incomodar ninguém”. E aí a gente segura tudo — dor, frustação, tristeza — até virar uma bomba relógio. É aí que encontramos Peter em Homem-Aranha: um novo dia. Ele fez uma escolha e agora carrega o peso sozinho. Mas é justo esse Peter, o que está mais quebrado, que as pessoas amam assistir.
Peter divide seu tempo entre fazer aquilo que seria seu propósito e responsabilidade com assistir seus amigos sendo felizes sem ele. É uma cena que conecta com muitos de nós que passamos a olhar pra nossas vidas de forma mais triste comparado a dos outros. Talvez seja por isso que muitos estamos abrindo mão das redes sociais — pra conseguir mudar o olhar sobre como vivemos, consumimos e nos enxergamos.
Ao mesmo tempo, assistir o Peter em uma situação de isolamento total, vivendo sozinho e sem amigos, parece algo tão familiar porque reflete medos reais do cotidiano de qualquer pessoa. Torna um herói numa figura igual a nossa.
O mais interessante na figura do Peter (e talvez na do Tom Holland em si) é aquele ar de otimismo, quase puro, que muitos de nós não temos mais. Fleabag pra mim é outro exemplo de personagem quebrado que se tornou tão querida por transformar luto, solidão e desesperança em um humor sarcástico no ponto certo pra se tornar escudo. Característica pela qual mais me identifico — auto depreciação e sarcasmo são minhas especialidade pra lidar com tristeza e frustração.
E talvez precisamos exatamente de uma dose de humor e outra de esperança, na mesma proporção, pra lidar com os cacos acumulados enquanto vivemos. No final, é justamente o acolhimento que salva o dia. É quando duas pessoas quebradas se reconhecem e se conectam que é possível respirar novamente, olhar para o horizonte e enxergar um novo dia.
Pra terminar: assisti Homem-Aranha: um novo dia na primeira semana de estreia e desde então estou com hiperfoco nele — no futuro da minha personagem favorita na Marvel que está no filme, na fofura que é o relacionamento de Tom Holland e Zendaya, em como esse homem está me fazendo acreditar que ainda há caras legais por aí. Não tinha como escapar desse tema. Segui com o que pude essa semana.
Espero te ver por aqui semana que vem.
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