Nesta segunda, me deu vontade de compartilhar um texto meu com vocês. Um daqueles que escrevo para não transbordar. Ele foi escrito a partir de um sentimento – e uma frase – que tem me habitado nos últimos tempos. Muitos textos nascem assim. De um incômodo, saudade, amor, tristeza etc. Daí, no lugar de nos apegarmos ao sentimento, a melhor saída é buscar uma cena, conversa, gesto do cotidiano que o represente. Assim, a gente não se perde por entre as palavras. E constrói um texto que é um contar de histórias, mas ainda assim carrega a sensação que lhe deu origem. Aqui está o texto:
Gostaria que alguém tivesse me dito. Contado que é difícil ver os filhos crescerem e que isso dói. Será que teria vivido, abraçado, amado mais? Olho para a foto do porta-retratos do quarto. Eles deviam ter 4 anos. Ela está de Maria-Chiquinha. Eu adorava fazer Maria-Chiquinha nela. E ele está com o cabelo cheio de cachinhos. Os dois sorriem, agarrados em mim. Nessa época, gostava de ler pra eles à noite. Mas às vezes eles não queriam as histórias dos livros. Queriam que as inventasse. Dormiram? Não. Então cantava, cantigas antigas que aprendi com minha mãe. As camas eram próximas do chão. Pequenas. Ficava ali esmagada entre eles até pegarem no sono.
Gostaria que alguém tivesse me dito. Mas será que teria ouvido? Estava sempre exausta. Agora eles vão dormir com um “boa noite, mãe”. Desejo boa noite e digo “te amo”. Às vezes respondem “eu também”, às vezes não. Tem dias em que a casa apenas fica silenciosa e, quando me dou conta, já foram deitar. Então abro a porta do quarto de cada um e fico observando, da mesma forma que fazia quando eles eram bebês. Me aproximava dos berços e me certificava de que estavam respirando. Me detinha enquanto pensava “são meus filhos”. Esses sempre foram meus pequenos momentos eternos.
Gostaria que alguém tivesse me dito. Mas provavelmente isso não mudaria muita coisa. Talvez só aumentasse a cobrança que já me impunha.
Gostaria que alguém tivesse me dito. No entanto, isso não teria diminuído o que sinto agora. A adolescência pode ser cruel para uma mãe que sente demais. É entender que o que foi vivido existe apenas naquele instante. Não mais. Mesmo que a gente queira só permanecer ali. De novo e de novo. A adolescência é esse adeus que me faz chorar numa tarde de sexta-feira qualquer.
Gostaria que alguém tivesse me dito que ser mãe é colecionar camadas de amor. Uma nova pele que se acomoda, uma sobre a outra.
Gostaria que alguém tivesse me dito que a gente pare um filho uma única vez. Mas que pare a si mesma a cada nova fase da vida daquele que, um dia, foi parte de você.
Escrever é também saber mergulhar em nós. E essa é uma parte que falha na maioria das formações e nos cursos habituais de escrita. Por isso vou aproveitar e te fazer um último convite. Nesta segunda, dia 10 de agosto, às 19h30, começa meu curso A Jornada. São 8 encontros, ao vivo e online, para você aprender, amadurecer e encontrar a sua voz na escrita. Aprender com quem já sabe o lugar em que você se encontra agora e como sair dele para crescer pelas palavras.
Save the date
Não costumo usar expressões em inglês, mas algumas entraram para o nosso dia a dia de uma forma que não existe caminho de volta. Save the date é uma delas. É basicamente um “reserve, coloque, salve esta data na sua agenda”. Meu Save the date é para o lançamento do meu livro “O problema não é o leitor. É o texto”, que acontece dia 20 de agosto, das 18h30 às 21h, na Livraria da Vila, unidade da Vila Madalena: Rua Fradique Coutinho, 915, em São Paulo. Uma noite pra gente se ver e se abraçar. Save the date.
Foto: Kateryna Hliznitsova/Unsplash
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