De cara, já vou entregar a minha principal lição ao ouvir livros: parar de ter preconceito de algo sem ao menos experimentar. Se uma pessoa me perguntasse há seis meses o que achava dessa modalidade, diria um sonoro “eu acho um absurdo”. Daí vem a vida e me joga isso na cara: virei uma consumidora voraz de audiolivros. De uma forma tão intensa que às vezes me surpreendo comigo mesma.
Escrevi há algumas semanas sobre este mesmo tema, contando como estavam sendo as minhas primeiras experiências com essa modalidade. Senti agora vontade de contar o que aconteceu na sequência. Poderia ter sido uma empolgação inicial. No entanto, foi exatamente o oposto. Gostei tanto que tenho ouvido um livro atrás do outro – a saber, isso não significa que tenha largado os livros físicos.
Baixei o aplicativo em 4 de maio – quem me contou foi o próprio aplicativo. Neste tempo, consegui percorrer obras que havia começado e parado; aquelas que queria ler, mas nunca me animava; e algumas desejadas, mas que ainda não havia comprado a versão em papel. De acordo com os dados disponibilizados, estou há 11 semanas seguidas ouvindo livros e faço isso quase todos os dias. Neste tempo já percorri 11 livros: Se não fossem as sílabas de sábado, Mariana Salomão Carrara; Laços, Domenico Starnone; Orgulho e Preconceito, Jane Austen; Persuasão, Jane Austen; Um teto todo seu, Virginia Woolf; A Pediatra, Andrea Del Fuego; O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde; Clube de leitura dos corações solitários, Lucy Gilmore; Se deus me chamar não vou, Mariana Salomão Carrara; As viúvas passam bem, Marta Barbosa Stephens; A cachorra, Pilar Quintana. Isso dá um livro por semana – e eu mesma me impressionei com isso. Nunca nos meus 53 anos de vida li um livro por semana. Só como curiosidade: neste meio tempo li o livro (papel) Tarântula, de Eduardo Halfon.
Sei que não devemos ler livros numa lógica de produção. Minha intenção não é essa – até porque livros precisam ser vividos. Mas a verdade é que comecei com os audiolivros para combater meu tempo exagerado nas redes sociais. Você já parou para contabilizar quantas horas por semana passa navegando no TikTok, Instagram ou YouTube? É muita coisa. No entanto, o mais grave é que não nos damos conta disso. Há 11 semanas reduzi isso drasticamente. E passei a colocar o fone de ouvido conectado ao aplicativo de audiolivros. Às vezes faço isso cozinhando, dirigindo, desenhando ou apenas deitada na cama ou sofá depois de terminar o trabalho.
Tenho visto alguns escritores criticando os audiolivros. De verdade, se não gostasse de ouvi-los, apenas diria isso e só. Minha desconfiança é que tem gente que os nega sem nunca sequer ter experimentado, o preconceito – que eu também tinha – e citado no início deste texto. Vivenciei experiências bem interessantes e únicas ouvindo livros. É rico demais, por exemplo, quando o autor da obra faz a leitura. Foi assim com A Pediatra, de Andrea Del Fuego, e Se não fossem as sílabas de sábado, de Mariana Salomão Carrara. Este último me emocionou profundamente. Ter a oportunidade de ouvir o autor lendo a própria obra é algo precioso. Porque é a chance de experimentar o livro em toda sua inteireza: o tom das frases, a velocidade da fala dos personagens, os graves, os agudos. É beber na fonte do criador. Diversas vezes me peguei pensando: “nossa, é assim que ela imaginou que Ana (a protagonista) estaria falando essa frase”.
De todas as obras que ouvi, a única que senti falta por não ter o livro físico foi Se não fossem as sílabas de sábado. Quero ter o livro, o papel, para poder anotar, grifar e rever trechos que considerei belíssimos – devo comprá-lo em breve. Mas veja só, de todos, apenas esse e Um teto todo seu, de Virginia Woolf, me interessaram a compra. Minhas estantes, já abarrotadas de livros, agradeceram.
Agora, estou finalizando – faltam 53 minutos de áudio – O caderno proibido, de Alba de Céspedes. Eu tinha começado a lê-lo no Kindle, mas não consegui seguir em frente. Não sei dizer, mas às vezes apenas não consigo seguir com uma ou outra leitura. E isso nem sempre tem a ver com o conteúdo. No entanto, queria muito terminá-lo. Estou fazendo isso neste momento e o mérito é da plataforma.
Escrever novamente, em tão pouco tempo, sobre audiolivros, não é nenhuma manobra para convencê-la a fazer o mesmo que eu. É que me incomodo, de verdade, com a defesa ferrenha de que um livro só pode ser lido ou só tem valor se for assim, no papel, com os olhos vendo palavra por palavra. Em um país como o nosso, em que há tantos não leitores, fico imensamente feliz de incentivar qualquer formato de percorrer um livro. Desejo apenas que as pessoas tenham acesso à literatura. Quase todo mundo tem um celular e um fone de ouvidos. Pronto, já tem tudo o que precisa para ter o conteúdo de um livro nas mãos (ou nos ouvidos). Pensando em dinheiro, também é bem mais barato. Livros ampliam nossos horizontes, às vezes nos tiram de lugares estreitos onde nos enfiamos, nos ajudam a pensar e a escrever melhor. Nos ensinam algo novo, de uma habilidade a uma lição de vida. Nos abraçam, afagam, afetam. São companheiros. Leiam, ouçam livros. Abram essa porta, do jeito que for.
Isso mesmo. Você não leu errado. Meu curso mais longo e completo, A Jornada, está de volta. São oito semanas para percorrermos juntos cada cantinho da escrita. Um baita curso bacana, ao vivo e online, com muitos aprendizados e prática. E eu, ao seu lado, lhe orientando para que você tenha um crescimento ou amadurecimento real no seu texto. Qualquer um pode fazer. O único pré-requisito é a vontade de escrever, de saber mais, aprimorar. Vamos passar por diversos estilos literários, como crônica, relato, poesia. E aprender detalhes e miudezas que fazem uma baita diferença no texto.
A Jornada: Escrita Criativa e Afetuosa é uma série de oito encontros, ao vivo e online, que tem início em 10 de agosto e término em 2 de setembro. As aulas são sempre das 19h30 às 21h30, às segundas e quartas. Todos os encontros serão gravados e disponibilizados aos participantes.
Esta semana, estarei na FLIP, Feira Literária Internacional de Paraty. Por isso, farei, em breve, uma edição especial apenas sobre o evento. Brinco com meu namorado, que a FLIP é a minha Disney. Me sinto em êxtase com a quantidade de debates e com encontros ao acaso com aquele escritor ou escritora que a gente admira. Irei postar de lá, principalmente nos meus stories do Instagram, tudo o que estarei vendo, ouvindo e aprendendo. Acompanhem.
Foto: Evgeniy Smersh/Unsplash
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