RSS Amplifier

Ana Holanda · Jul 13, 2026

Ler nos torna escritores melhores

0
Sign in to vote or save

Ana Holanda · Ana Holanda

Ouvir música, independente do estilo, faz de mim um músico? Não. O fato de adorar e consumir muito rock nunca me fez guitarrista, baterista, baixista, pianista… Seria maravilhoso se fosse assim. Poderia ir a diversas exposições e me transformar em uma desenhista. Assistir a dezenas de séries e virar roteirista. O mesmo vale para a escrita. Ser um ótimo leitor, desses que leem um livro atrás do outro, não é garantia de se tornar um escritor dos bons.

A escrita demanda aprendizado e muita prática, mas muita mesmo. Vale a máxima: “quanto mais se escreve, melhor se escreve”. No entanto, consumir literatura pode nos ajudar a aprimorar a construção das narrativas. Um livro nos ensina do básico ao elaborado. Quando lemos, aprendemos sobre a estrutura do texto: início, meio e fim. E de que forma as ideias vão se encadeando para desenvolver uma composição. Há escritores que têm uma forma de narrar fora do padrão e, dessa maneira, inauguram um novo estilo. Esse foi o caso da inglesa Virginia Woolf. Em seu livro Mrs. Dalloway, ela traz o que se chamou de “fluxo de consciência”. Uma maneira de construir a narrativa da forma mais próxima do nosso jeito de pensar, algo não linear. Na prática, a protagonista está contando uma história no presente e algo ali (um encontro, uma cena, um cheiro) a faz lembrar um acontecimento passado. E fica tudo misturado no mesmo parágrafo, por exemplo. Ler Woolf é, assim, uma aula sobre construir um texto de forma não linear do ponto de vista da cronologia.

Existem pessoas que produzem textos com uma estrutura muito bem dividida entre passado e presente. Na obra O Mapeador de Ausências, de Mia Couto, ele traz o passado e o presente do protagonista divididos por capítulos. Há escritores que colocam as falas de um jeito padrão, com travessão. E outros em que as conversas não possuem nem travessão, nem aspas, como faz a portuguesa Isabel Figueiredo no livro A Gorda.

Cada livro me ensina algo novo sobre a escrita. A questão é que, para isso, precisamos nos tornar leitores ativos – expressão que acabei de inventar. Percebo que a maior parte das pessoas, quando lê, adora grifar frases bonitas ou que geram algum tipo de impacto nelas. Fazer isso é bacana. Mas precisamos ir além. É preciso observar, analisar aquilo que lhe agrada. Sabe quando você tem a sensação de que algo na forma de o autor escrever lhe satisfaz demais? Então, é disto que estou falando.

Quando leio e algo me chama a atenção, me detenho e penso: por que gostei tanto? Às vezes é a maneira como foi feita a construção narrativa. Estou quase terminando de ler Se não fossem as sílabas do sábado, da escritora Mariana Salomão Carrara. A maneira como ela costura o assunto é incrível. O livro conta a história de Ana, uma arquiteta cujo marido morre de forma quase inacreditável. Ao longo das páginas, Ana tenta lidar com esse luto. Além de uma escrita muito bonita e poética, Mariana se aproveita do fato de que André, o companheiro de Ana, era biólogo. Em muitos trechos, ela utiliza, por exemplo, informações sobre como é uma mãe polvo ou como as plantas se reproduzem para alinhavar a narrativa. E isso torna a obra bastante interessante, curiosa, inteligente, sem perder a sensibilidade.

Ser um leitor ativo, então, lhe torna alguém que copia o jeito de escrever do outro? Não. Quando prestamos atenção nos caminhos de narrativa de diversos escritores, temos ao nosso alcance um arsenal, cada vez maior, de recursos para produzir textos. É ter em mãos um mapa de acesso para experimentar, a partir do seu olhar e da sua voz. E assim descobrir se o resultado funciona ou não para a sua escrita.

Por isso, quanto mais você lê, mais mapas de acesso tem e mais maneiras de percorrer o caminho da escrita. É um trabalho árduo, minucioso, mas que vai, ao longo do tempo, lhe tornando um escritor ou uma escritora mais madura – não de idade, mas na arte de compor narrativas. Meu melhor conselho, neste momento, é: leia aquilo que puder e conseguir. Sempre com o olhar de um leitor ativo.

Oito aulas de mergulho profundo na escrita. Muita prática e aprendizado. Leitura de textos, um a um, comentados por mim. Acompanhamento bem de pertinho. Assim é A Jornada, uma série de oito encontros em torno da escrita criativa e afetuosa. As aulas acontecem todas às segundas e quartas, das 19h30 às 21h30, ao vivo e online. O início será em 10 de agosto e o término em 2 de setembro. Todos os encontros serão gravados e disponibilizados aos inscritos. Aproveite.

Quero garantir minha vaga

A pré-venda do meu novo livro, O problema não é o leitor. É o texto, está chegando às livrarias na semana que vem. Ainda dá tempo de comprar com preço reduzido na pré-venda. Para quem mora em São Paulo – ou bem pertinho – já vou adiantar a novidade: dia 20 de agosto vai ter lançamento na Livraria da Vila (unidade da rua Fradique Coutinho). Uma oportunidade pra gente se abraçar, se conhecer ou se rever, e você levar seu livro com uma bela dedicatória minha. Anote na agenda para já deixar a data reservada para o nosso encontro.

Quero muito

Nesta sexta, dia 17 de julho, às 19h, vou bater um papo online para contar como meu processo criativo acontece, a convite do Grupo Constância. Para participar e receber o link de acesso à sala, é preciso se inscrever. Gratuito.

Preciso

Foto: Luisa Brimble/Unsplash

Nenhuma publicação

Read the original on anaholandaoficial.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.