RSS Amplifier

Ana Holanda · Aug 3, 2026

Escrita é artesania

0
Sign in to vote or save

Ana Holanda · Ana Holanda

“Está difícil.” Mandei a mensagem para o namorado, seguida de: “Não sei se vou conseguir. Eu não devia ter inventado algo assim.” Vou te colocar a par desta história. No começo do ano, fui procurada por um grupo empresarial enorme que está comemorando algumas décadas de existência. O pedido: desejavam um livro, mas não um livro como habitualmente é feito pelo mercado, para falar sobre os feitos de uma empresa. Queriam algo diferente, na linguagem e no olhar. Pensei e pensei. Procurei referências. Nada. Tudo igual. Com uma linguagem chata, padrão, daquelas com que você não consegue se manter na leitura por mais de duas páginas. Parte do pedido era que, além da história do Grupo, trouxesse os valores de uma forma não burocrática.

O que significa isso? Traduzindo o pedido: eles querem mostrar os valores e as práticas da organização da forma como são vividos no dia a dia das pessoas. É mais ou menos como dizer “acreditamos nas pessoas”, “nossos valores são o que temos de mais importante”, e ficar apenas nisso. O que alguns já percebem é que frases deste tipo são vazias. De alma. Não significam nada, porque não contam histórias. Não mostram de que forma cada valor faz parte do dia a dia da empresa pelos gestos, conversas, atitudes. O desafio é basicamente esse. Fácil? Nem um pouco.

Sugeri a eles um projeto que mistura a história deles escrita de um jeito gostoso de ler, sem os jargões corporativos, intercalada por crônicas. Por que crônicas? Porque é o estilo de escrita que tem como base o cotidiano por meio daquilo que há de mais banal no que fazemos. Se um valor importante é gentileza, por exemplo, haverá uma crônica com algo bem cotidiano (uma conversa, um gesto) que traduz aquilo.

Quanto mais escrevo, mais percebo o quão difícil está sendo fazer. E isso acontece porque não é algo em que pego peças no estilo Lego e as encaixo facilmente. Está mais para um mosaico em que tenho pequenas peças de cores e formatos diversos e preciso observar, encaixar, perceber que não ficou bom, tirar, refazer, alinhar cores e formatos até chegar ao resultado final. Trabalhos de escrita bem-feitos, criativos, fora do lugar comum, são, por natureza, artesania.

Demanda tempo e experiência para perceber os detalhes, a fluidez do texto, a cadência das palavras e não se deixar seduzir pelas respostas (ou textos) prontas. No meio de tudo isso, da mesma forma que fico feliz com o resultado, também tenho meus momentos de desespero (por que fui inventar isso?), como revelei no início deste texto.

O grande problema que precisamos encarar é que escrita não é produto feito em série. É arte e, por isso, o resultado final é único. Na prática, o que existe é um texto igual ao outro. E isso vale para posts nas redes sociais, argumentos de venda, livros – de literatura ou corporativos. Tudo igual. Você, certamente, já se pegou ouvindo um vídeo de venda nas redes sociais e sua cabeça lhe disse: “lá vem o mesmo discurso de sempre. Já já vai me vender algo que ninguém sabe e que irá mudar a minha vida/forma de vender/de escrever…”

Recentemente, vi um post da artista brasileira Fabiana Queiroga. Ela faz peças lindas e autorais. Mas, no último ano, está vivenciando um processo judicial por conta da cópia indiscriminada de uma série de peças que criou. No post, ela escreve:

“É curioso como existe a ilusão de que basta reproduzir uma imagem para alcançar aquilo que ela representa. Não basta. Pode copiar a cor, o gesto, a composição, o acabamento. Pode até reproduzir o objeto. Mas não se copia o percurso, as dúvidas, os anos de pesquisa, os erros, as leituras, as noites em claro, as escolhas abandonadas e as insistências silenciosas que fizeram aquela obra existir. (...) Porque copiar é um ato de repetição. Criar é um ato de transformação. Quem copia depende do outro para existir!” - Fabiana Queiroga

Voltar ao ponto da escrita como um processo criativo feito por um artista das palavras demanda parar uma máquina gigante que insiste em nos fazer produzir textos como uma linha fabril, de forma automática. De certa forma, frear esta dinâmica depende também de nós, pessoas que gostam de escrever. Não aceitar respostas prontas, perceber que a escrita demanda parar, pensar, praticar, errar, refazer, até chegar a um resultado só nosso.

Se você quer entender ou estudar mais sobre comunicação afetuosa no trabalho – ou na vida –, tenho cursos sobre isso e também meu último livro: O problema não é o leitor. É o texto. Está à venda na Amazon. Mas se você quiser me encontrar, me dar um abraço, ganhar um autógrafo afetuoso no seu livro, reserve na agenda: dia 20 de agosto, às 19h, vai ter noite de lançamento na Livraria da Vila (R. Fradique Coutinho, 915 - Vila Madalena, São Paulo). A obra foi escrita a partir de experiências reais, vivenciadas por mim, em empresas e na feitura de livros corporativos. No dia, vou bater um papo com a Fernanda Nobre. Ela é gerente de comunicação da Fundação Tide Setubal e foi uma das primeiras pessoas que me abriram as portas. Fiz para a Fundação dois livros, ambos usando como base a escrita afetuosa. Na última semana, em uma conversa que tivemos, ela me disse que apenas eu conseguiria fazer aquele trabalho. Foi algo feito com sensibilidade e um olhar muito bonito para as pessoas. A verdade é que todas nós podemos fazer algo assim. Se quiser, posso te mostrar o caminho.

Quero comprar o livro da Ana

Última semana para se inscrever

Não se demore: o curso A Jornada, de oito encontros, ao vivo e online, tem início agora em 10 de agosto. Nele, vou te ensinar como escrever de forma única ou autoral, usando os princípios do que chamei de escrita afetuosa, aquela que conversa, encontra o outro. Um curso rico e completo demais para você deixar passar. As aulas acontecerão das 19h30 às 21h30. E será tudo gravado e disponibilizado aos inscritos.

A Jornada

Aula aberta e gratuita

Nesta quarta, dia 4 de agosto, às 19h30, vai ter uma aula gratuita de autoficção. É preciso se inscrever para participar e as vagas já estão acabando. Corre!

Aula aberta

Foto: Raimond Klavins/Substack

Nenhuma publicação

Read the original on anaholandaoficial.substack.com

Comments

Nothing yet. Say the first thing.

    Sign in to join the conversation.