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Ana Holanda · Jul 6, 2026

Alguém que lhe dê a mão

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Às vezes, o que precisamos é de alguém que já tenha percorrido o caminho. E que nos oriente sobre os passos para atravessá-lo

“Talvez eu possa desenhar.” Esse foi o desejo que nasceu em mim depois de visitar uma exposição do americano Tim Burton, cineasta, animador, ilustrador e escritor. Talvez você não esteja ligando o nome às obras. Ele foi diretor de filmes e animações como Os fantasmas se divertem, A noiva cadáver, Edward Mãos de Tesoura e O estranho mundo de Jack. Sua fama se agigantou quando subverteu os personagens perfeitos, esteticamente suaves e doces do universo Disney. Tim Burton tem uma estética bem própria. Na exposição, pude ver vários desenhos seus, feitos em pedaços de papel e até em guardanapos. Não havia perfeição ou cuidado exagerado nos traços, mas personalidade.

Conversando com o namorado sobre o desejo de desenhar, ele provocou: “Comece.” Com a ajuda do Marcos, comprei alguns lápis e peguei um caderno de desenho que tinha em casa. Ao longo dos meses, ele foi me orientando, do processo de criação às diferenças entre os materiais – fine pen, caneta brush etc. Pontuou observações que fizeram diferença para que eu evoluísse e encontrasse meu traço e minha personalidade no desenho.

Marcos desenha há décadas. Já fez isso como amador e profissional. Em nenhum momento me impôs um estilo. Mostrava-me o caminho, seus perigos e os pontos em que eu deveria parar e observar. Tê-lo por perto foi essencial para que eu percebesse a minha força e capacidade para algo que, hoje, me faz tão bem.

Mentor

O que o Marcos fez comigo é algo que faço pelas pessoas em relação à escrita. Ele foi meu mentor – e ainda é. Sempre que desenho, gosto de mostrar para ele e ouvir suas impressões. Isso me faz crescer como desenhista e ter coragem de dar passos mais largos e firmes.

Comecei a oferecer o serviço de mentoria em 2020. Desde então, muita gente já passou por mim. Corrijo: muita gente já foi orientada e guiada por mim. A maior parte dos que me procuram deseja aperfeiçoar seu texto ou produzir um livro. Curiosidade: a minha mentorada mais velha foi a Dorothy, de 80 anos. Ela me procurou porque queria escrever um livro sobre os pais, mas tinha consciência de que sua escrita era bastante acadêmica. Depois de alguns meses de trabalho, conseguiu finalizar o livro.

Nunca contabilizei a quantidade de mentorados e mentoradas ao longo desses anos, mas certamente já passaram de cem. Esse é um trabalho que me dá muita satisfação. Em geral, no início, encontro uma pessoa assustada, com poucas certezas sobre a própria capacidade, mas uma vontade imensa. Aos poucos – e com a minha guiança –, a vejo ganhando coragem e, principalmente, acreditando mais e mais em si. E o livro nasce ou o processo acontece. Acho que a parte mais difícil, para mim, é quando o livro termina. Porque sei que sentirei falta daquela companhia.

Seguir em frente

Mentor não é aquele que faz por você, mas o que orienta sobre onde deve pisar. No entanto, ele não caminha junto, e sim dá condições para que você siga em frente sozinho, sem dependência. Na escrita, vou lendo e analisando o material produzido. Depois, em encontros online, mostro os pontos fortes e onde é preciso melhorar. Ajudo a pensar em soluções de narrativa, mostro o que não ficou bom e dou sugestões de como ela ou ele pode resolver o problema a partir da própria voz. Sem impor meu estilo, mas respeitando quem cada um é.

Mentor não é editor de texto, revisor, tampouco ghost writer. É aquele que tem anos de experiência em escrita, sabe como funciona o processo de produzir um livro ou texto, tem capacidade de analisar e de apontar soluções com sabedoria. Tudo isso sem fazer com que a pessoa desista.

Pode parecer estranho o que vou dizer, mas ser mentora de escrita me lembra várias facetas de ser mãe de adolescentes. Observo, aponto o que não estão fazendo de bacana, mas também comento sobre as qualidades que têm. É puxar e soltar a corda. Trazer para perto, mas permitir que caminhem com as próprias pernas. Que aprendam a tomar as suas decisões a partir do que querem, mesmo que eu não concorde – mais de uma vez não concordei com o destino de um personagem, por exemplo.

O mais bonito que descobri sendo mentora é que, assim como acontece ao ser mãe, também aprendo a amar cada um dos mentorados. Vibro pelas conquistas e tenho uma baita vontade de chorar quando os vejo vibrando, se emocionando, quando recebem o primeiro exemplar do livro. Alguns dizem que sou doula, porque os faço parir o livro. Pode ser. E gosto da comparação.

Meu bebê mais recente se chama Vertigem, da empreendedora e influenciadora Lela Brandão. Ela me foi indicada pela Marcella Ceribelli, autora de Aurora, mais uma mentorada minha. O livro da Lela está em todas as livrarias. Fazendo um baita sucesso. E a Lela não acreditava em si quando chegou até mim. Em um dos nossos últimos encontros, ela me disse: “Ana, como alguém consegue escrever um livro sem você?”

Fiquei com vontade de escrever sobre meu trabalho como mentora de escrita porque tenho a mania de não contar sobre o que faço. E talvez eu devesse falar mais sobre isso. Da mesma forma que você deveria colocar, finalmente, seus textos no mundo. Se precisar de alguém que lhe guie nesse caminho, já sabe: estou aqui. Para você.

Para saber mais sobre o processo de mentoria, escreva para: mentoria@anaholanda.com.br.


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Foto: Giang Vu/Unsplash

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